Papoula: A Flor Domesticada na Europa que Deu ao Mundo a Morfina

Das aldeias neolíticas da Itália, onde já era cultivada há 7.500 anos, às guerras do ópio e aos hospitais modernos, a Papoula deu origem ao primeiro alcaloide isolado de uma planta, a morfina, e até hoje divide a humanidade entre o alívio da dor e a dependência

 

A Flor que Adormece

Poucas plantas têm um nome científico tão direto. Somniferum, em latim, quer dizer que traz o sono. Por trás das pétalas delicadas, a Papoula guarda um látex branco que, seco, vira ópio, e dentro dele moléculas capazes de eliminar a dor e de criar dependência.

Essa dupla natureza atravessa toda a sua história. A Papoula esteve nos túmulos neolíticos da Espanha, nas mãos de deusas minoicas, nos laboratórios alemães do século 19 e nas guerras que tiraram Hong Kong da China.

Hoje, a mesma planta fornece a morfina essencial aos hospitais e as sementes que enfeitam pães e bolos. Esta é a história da flor que ensinou a medicina a vencer a dor.

 

Papaver somniferum — A Única Cultura da Europa Ocidental

A Papoula-do-ópio, Papaver somniferum, pertence à família Papaveraceae. É uma planta anual, de flores brancas, rosadas, vermelhas ou roxas, e frutos em cápsula coroados por um disco estrelado.

Durante muito tempo, os pesquisadores acharam que ela vinha do Oriente Médio, como o Trigo e a Cevada. Um estudo publicado em 2020 na Scientific Reports datou restos de Papoula de sítios neolíticos e concluiu que ela foi domesticada no Mediterrâneo ocidental, onde cresce seu parente selvagem, a subespécie setigerum.

Os autores sugerem que a Papoula pode ser a única planta cultivada domesticada na Europa ocidental. Os restos mais antigos datados vêm de La Marmotta, uma aldeia à beira de um lago na Itália, entre 5610 e 5480 antes da era comum, ou seja, há cerca de 7.500 anos.

 

Somniferum significa que traz o sono — o látex que escorre da cápsula verde da Papaver somniferum é o ópio

 

Das Aldeias Neolíticas às Rotas do Ópio

A partir do Mediterrâneo, a Papoula se espalhou pelo norte da Europa com as primeiras comunidades agrícolas, entre 7 e 6 mil anos atrás. Em Yehud, em Israel, arqueólogos encontraram em 2022 vasos de cerâmica com cerca de 3.500 anos com resíduos de ópio, colocados em túmulos.

Os gregos e romanos conheciam bem o ópio como remédio para dor e insônia. Pelas rotas comerciais árabes, ele chegou à Pérsia, à Índia e à China.

No século 19, o ópio virou arma econômica. A Companhia Britânica das Índias Orientais produzia ópio na Índia e o vendia na China, apesar da proibição do governo chinês. As 2 Guerras do Ópio, entre 1839 e 1860, terminaram com a vitória britânica e a cessão de Hong Kong ao Reino Unido.

 

Morfina — O Primeiro Alcaloide Isolado de uma Planta

Em 1804, o farmacêutico alemão Friedrich Sertürner isolou do ópio a substância responsável pelo efeito. Foi o primeiro alcaloide extraído de qualquer planta. Ele o chamou de morfium, em homenagem a Morfeu, o deus grego dos sonhos. Testou a substância em si mesmo e em 3 jovens, com efeitos quase fatais, e acabou dependente dela.

Depois vieram a codeína, a papaverina e a noscapina, todas da Papoula. Em 1874, a partir da morfina, foi sintetizada a diacetilmorfina, vendida a partir de 1898 pela Bayer com o nome de Heroína, inicialmente como remédio para tosse.

A morfina continua na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde e é indispensável no tratamento da dor intensa. A dependência que ela e seus derivados causam está no centro das crises de opioides do século 21.

 

A Papoula-vermelha, Papaver rhoeas, floresceu nos campos de batalha de Flandres e virou símbolo dos soldados mortos na 1ª Guerra Mundial

 

Hipnos, Morfeu e a Deusa das Papoulas

Na Grécia Antiga, a Papoula era atributo de Hipnos, o deus do sono, e de seu filho Morfeu. Também aparece ligada a Deméter, a deusa dos grãos, que segundo o mito a usou para esquecer a dor da perda da filha, Perséfone.

Em Gazi, em Creta, arqueólogos encontraram uma estatueta minoica com cerca de 3.300 anos, conhecida como a Deusa das Papoulas. Ela usa na cabeça grampos em forma de cápsulas de Papoula, com incisões semelhantes às feitas para extrair o látex.

A Papoula-vermelha, Papaver rhoeas, outra espécie, virou símbolo dos soldados mortos na Primeira Guerra Mundial, depois do poema In Flanders Fields, escrito em 1915 pelo médico canadense John McCrae.

 

O Saleiro Natural e as Sementes Sem Ópio

A cápsula madura da Papoula funciona como um saleiro. Sob o disco do topo se abrem pequenos poros, e quando o vento balança a haste, milhares de sementes minúsculas são lançadas aos poucos para longe.

As sementes quase não têm alcaloides, porque o ópio está no látex da cápsula verde, não nelas. Mesmo assim, resíduos do látex podem ficar na casca da semente. Comer grandes quantidades de pães ou bolos com Papoula já fez pessoas testarem positivo em exames antidrogas.

Outra curiosidade: o ópio sai de incisões rasas feitas à mão na cápsula ainda verde. O látex escorre, escurece em contato com o ar e é raspado no dia seguinte, técnica que praticamente não mudou em milênios.

 

As sementes de Papoula vão nos pães e doces da Europa Central — e do ópio, em 1804, Sertürner isolou a morfina, batizada em homenagem a Morfeu

 

Mohnkuchen, Tasmânia e a Proibição no Brasil

Na Europa Central, as sementes de Papoula são ingrediente tradicional de doces, como o Mohnkuchen alemão e os pães recheados da Polônia e da Hungria. Na Índia, entram em molhos e pratos com o nome de khus khus.

A produção legal de Papoula para a indústria farmacêutica é controlada internacionalmente, com grandes áreas na Tasmânia, na Austrália, e em países como a Turquia e a Índia. A produção ilegal mudou de lugar recentemente: segundo a ONU, o cultivo no Afeganistão caiu 95% em 2023 depois da proibição imposta pelo Talibã, e Mianmar passou a ser o maior produtor de ópio.

No Brasil, o cultivo da Papaver somniferum é proibido. As sementes culinárias são legais, mas sua importação é controlada pela Anvisa.

 

Entre o Alívio e a Dependência

A Papoula acompanha a humanidade desde as primeiras aldeias da Europa. Esteve em túmulos, altares e laboratórios, financiou impérios e provocou guerras.

Nenhuma outra planta mostra de forma tão clara que o mesmo composto pode ser remédio e veneno, conforme a dose, a pessoa e a época. Sem a Papoula, a medicina moderna não teria a morfina. Com ela, veio também um dos maiores desafios de saúde pública do nosso tempo.

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Fontes

  • Salavert, A. et al. Direct dating reveals the early history of opium poppy in western Europe. Scientific Reports, 2020. Link
  • Wikipedia. Friedrich Sertürner. Link
  • Ancient Pages. Opium residue discovered in 3,500-year-old pottery, 2022. Link
  • UNODC. Afghanistan opium cultivation in 2023 declined 95 per cent following drug ban. Link
  • Al Jazeera. Myanmar overtakes Afghanistan as world’s top opium producer, 2023. Link
  • Prato Fundo. Semente de papoula não é proibida. Link

 

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