Pau-Brasil: Uma Árvore com seu Próprio País

O pau-brasil, símbolo nacional, moldou a história do Brasil com sua madeira preciosa e tintura valiosa

A árvore que deu nome a um país foi quase completamente destruída em menos de um século — e hoje é símbolo nacional ameaçado de extinção.

Nenhuma planta está mais profundamente entrelaçada com a história do Brasil que o pau-brasil. Ela deu nome ao país. Foi o primeiro produto explorado pelos portugueses nesta terra. Financiou expedições, tingiu tecidos europeus e atraiu piratas franceses ao litoral. E pagou o preço mais alto — de setenta milhões de árvores que cobriam a costa brasileira em 1500, restam hoje fragmentos dispersos numa Mata Atlântica que perdeu 85% de sua cobertura original. Esta é a história da árvore símbolo do Brasil — e de como ela quase desapareceu.

 

A Origem na Mata Atlântica

O pau-brasil, Paubrasilia echinata, é uma árvore endêmica da Mata Atlântica — nativa exclusivamente do litoral brasileiro, ocorrendo de forma natural apenas nos estados do nordeste e do sudeste, do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Pode atingir entre 15 e 20 metros de altura, apresenta espinhos no tronco e nas galhos e internamente tem uma madeira de cor vermelho-brasa intensa — que deu origem ao seu nome. Os povos indígenas que habitavam o litoral chamavam a árvore de ibirapitanga — madeira vermelha, em tupi. Os portugueses a chamaram de pau-de-brasa pela cor interna do cerne — e daí veio o nome Brasil.

 

Da madeira do Pau-brasil (Paubrasilia echinata) era extraída um valioso pigmento vermelo como brasa, daí o nome 'brasil'

 

A Jornada que Deu Nome a um País

Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500, havia aproximadamente setenta milhões de paus-brasil no litoral — segundo as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling. A árvore foi o primeiro produto explorado pelos portugueses — seu cerne vermelho contém brasilina, um pigmento que produzia tintas vermelhas e alaranjadas de altíssima qualidade para tingir tecidos. Em Florença, uma das principais cidades têxteis da Europa, havia uma corporação inteira de tintureiros especializados em tecidos tingidos com pau-brasil. Comerciantes florentinos chegaram a financiar expedições ao Brasil para garantir o suprimento da matéria-prima. A madeira também era usada na construção de embarcações, móveis e instrumentos musicais de alta qualidade.

 

Os Poderes do Pau-Brasil

Além do pigmento, o pau-brasil tem propriedades medicinais estudadas pela fitoterapia moderna. Sua casca contém taninos com propriedades adstringentes e anti-inflamatórias. A brasilina — o composto que dá a cor vermelha ao cerne — é estudada como agente antioxidante, antibacteriano e com potencial anticancerígeno em pesquisas publicadas em revistas científicas internacionais. A madeira é extremamente densa e resistente — tão pesada que afunda na água — tornando-a ideal para a construção de arcos de violino e outros instrumentos de corda de altíssima qualidade. Os melhores arcos de violino do mundo ainda são feitos com pau-brasil — uma tradição que sobreviveu séculos de exploração.

 

O Pau-brasil impulsionou o primeiro ciclo econômico da colonização portuguesa do Brasil

 

O Pau-Brasil e os Tupinambás

Para os Tupinambás — o povo que habitava o litoral e foi o primeiro a ter contato com os portugueses — o pau-brasil tinha usos utilitários e rituais. Usavam a madeira para fazer arcos de guerra e instrumentos rituais. O sistema de escambo estabelecido com os portugueses — onde os indígenas derrubavam e transportavam as árvores em troca de ferramentas e bugigangas — foi a primeira grande relação econômica da colonização. Os Tupinambás eram chamados pelos portugueses de “negros da terra” — e seu trabalho compulsório no corte do pau-brasil foi o antecedente direto da escravidão que viria depois.

 

Os Segredos do Pau-Brasil

A exploração do pau-brasil foi tão intensa que a Coroa portuguesa criou o sistema de estanco — monopólio real — para controlar o corte e o comércio da madeira. Piratas franceses disputavam o litoral com os portugueses para ter acesso ao pau-brasil — e as guerras entre Portugal e França pelo controle da costa brasileira foram em grande parte motivadas pela disputa pela madeira. O naturalista Jorge Marcgrave mencionou o pau-brasil pela primeira vez na ciência em 1648 — e Lamarck o classificou botanicamente em 1789. Em 1978 o pau-brasil foi declarado árvore nacional do Brasil — quando já estava gravemente ameaçado de extinção.

 

Uma das plantas mais presentes na mata atlântica, o ciclo de extração predatória quase extinguiu o Pau-Brasil, tornando-se símbolo nacional e alerta: "os bens mais valiosos são difíceis de conquistar e fáceis de perder"

 

O Pau-Brasil na Arte e na Cultura

O pau-brasil inspirou o primeiro movimento modernista brasileiro — o Manifesto Pau-Brasil, escrito por Oswald de Andrade em 1924, propunha uma cultura brasileira que exportasse originalidade como o país exportara a madeira — mas desta vez com valor agregado, com arte e pensamento próprios. O manifesto é considerado um dos textos fundadores da identidade cultural brasileira moderna. Na literatura, no cinema e nas artes visuais, o pau-brasil aparece como metáfora da exploração colonial — a riqueza extraída sem nada deixar para trás.

 

Uma Árvore que Precisa Voltar

De setenta milhões de árvores em 1500, o pau-brasil foi reduzido a fragmentos isolados ao longo do litoral — principalmente em reservas e áreas protegidas. A espécie consta na lista vermelha da IUCN como ameaçada de extinção. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis proíbe o corte desde 1965. Projetos de reintrodução e cultivo sustentável estão sendo desenvolvidos por pesquisadores da USP e da Embrapa — numa tentativa de devolver à Mata Atlântica a árvore que lhe deu nome ao país que a destruiu. Quer conhecer mais histórias sobre as plantas que moldaram o mundo? Explore o reino das plantas em A História das Plantas.

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