Rabanete: a Raiz Picante que Foi das Pirâmides ao Espaço

Da inscrição citada por Heródoto às esculturas de Natal em Oaxaca e à colheita na Estação Espacial, conheça a história do Rabanete

 

Raiz — Uma Hortaliça que Cresce Depressa

O Rabanete é uma raiz pequena, vermelha por fora e branca por dentro, que dá um toque picante às saladas. Em poucas semanas, a semente vira uma raiz pronta para ir à mesa, o que faz dela uma planta querida das hortas caseiras.

Mas o Rabanete não é só a bolinha vermelha do supermercado. A mesma espécie inclui o enorme daikon japonês, o rabanete-negro, variedades cultivadas pelas sementes e até um rabanete cujas vagens se comem. Ele aparece em relatos sobre as pirâmides do Egito, em esculturas de Natal no México e no espaço.

Esta é a história do Raphanus sativus, a hortaliça da família da mostarda, de origem ainda discutida, que Heródoto ligou aos construtores das pirâmides, que vira arte na Noite dos Rabanetes de Oaxaca, que foi colhida na Estação Espacial Internacional em 2020 e que, no Japão, chegou a pesar mais de 45 quilos.

 

Brassicácea — Uma Origem Ainda Discutida

O Rabanete pertence à família das Brassicáceas, a mesma da mostarda, do repolho e do brócolis. Segundo a Wikipedia, os cientistas situam sua origem, de forma provisória, no Sudeste Asiático, a única região onde foram encontradas formas realmente selvagens. O Sul da Ásia, o centro da China e a Ásia Central teriam sido centros secundários de desenvolvimento.

A relação com outras plantas também é debatida. Algumas fontes tratam o Rabanete cultivado como uma subespécie do rabanete-selvagem, Raphanus raphanistrum, uma planta comum em campos e beiras de estrada. A origem exata, portanto, ainda não está resolvida, e diferentes regiões podem ter contribuído para as variedades que conhecemos hoje.

O sabor picante tem explicação química. Ele vem dos glucosinolatos, de uma enzima chamada mirosinase e dos isotiocianatos, compostos da mesma família encontrados na mostarda, na raiz-forte e no wasabi. Quando a raiz é cortada ou mastigada, essas substâncias se combinam e liberam o ardor característico.

 

O Raphanus sativus é a hortaliça com o ciclo de crescimento mais rápido de todas — algumas variedades vão da semente ao fruto maduro em apenas 21 dias, tornando-o ideal para experimentos científicos

 

Heródoto — Rabanetes nas Pirâmides

Um relato antigo sobre o Rabanete vem de Heródoto, no século 5 antes da era comum. Em suas Histórias, o escritor grego conta que uma inscrição numa pirâmide do Egito registrava quanto foi gasto com rabanetes, cebolas e alhos-porós para os trabalhadores.

Segundo o intérprete que leu a inscrição para Heródoto, o total chegava a 1.600 talentos de prata. O próprio Heródoto concluiu que, se tanto foi gasto com esses alimentos, muito mais deve ter sido gasto com ferramentas de ferro, pão e roupas. A história, porém, depende da leitura feita por esse intérprete, e não de uma tradução moderna da inscrição.

O Rabanete também aparece nos textos de gregos e romanos. Segundo a Wikipedia, ele entra no registro histórico no século 3 antes da era comum, e no século 1 da era comum os agrônomos gregos e romanos já descreviam variedades pequenas e grandes, suaves e picantes. A planta acompanhava, assim, as hortas do Mediterrâneo antigo.

 

Semente — Do Plantio à Colheita em Semanas

A rapidez é a marca do Rabanete. Segundo a Wikipedia, as sementes germinam em 3 a 4 dias em solo úmido. Em condições normais, as raízes ficam prontas em 3 a 4 semanas, e no frio esse tempo sobe para 6 a 7 semanas. Por isso, ele é muito usado em hortas escolares e caseiras.

A planta gosta de sol pleno e de solo leve e arenoso, com pH entre 6,5 e 7. Entre suas pragas estão pequenos besouros que furam as folhas e a mosca-da-raiz-do-repolho. Se ficar tempo demais na terra, a raiz fica amarga e dura, por isso a colheita precisa ser feita na hora certa.

Quase tudo no Rabanete pode ser aproveitado. As raízes são comidas sobretudo cruas, em saladas, mas as folhas e as vagens também são comestíveis. As sementes podem ser prensadas para dar óleo, e o daikon é usado como planta de cobertura do solo. Há até uma variedade cultivada só pelas vagens, conhecida em inglês como rat-tailed radish.

 

Registros do Egito Antigo mostram que os trabalhadores das pirâmides recebiam rabanetes como parte do pagamento — junto com alho e cebola, eram alimentos estratégicos da maior obra da Antiguidade

 

Rábanos — A Noite dos Rabanetes em Oaxaca

No México, o Rabanete virou arte. Todo dia 23 de dezembro, a cidade de Oaxaca realiza a Noite dos Rabanetes. Segundo a Wikipedia, o Rabanete chegou ao México no período colonial, com os espanhóis e os frades, e os agricultores passaram a esculpir as raízes para atrair compradores ao mercado de Natal do zócalo, a praça principal.

Em 1897, o prefeito Francisco Vasconcelos criou o concurso formal. Hoje, a prefeitura reserva terras perto do Parque El Tequio para cultivar rabanetes gigantes. Eles chegam a cerca de 50 centímetros de comprimento e 3 quilos e são distribuídos aos participantes em 18 de dezembro.

O concurso tem categorias tradicional e livre para adultos, além de iniciantes e crianças de 6 a 17 anos. Há também categorias com totomoxtle, a palha de milho seca, e com a flor inmortal, uma flor seca. Mais de 100 participantes disputam o concurso, e milhares de visitantes chegam a esperar de 4 a 5 horas para ver as esculturas.

 

Órbita — Rabanetes na Estação Espacial

O Rabanete também foi para o espaço. Em 30 de novembro de 2020, a astronauta da NASA Kate Rubins colheu 20 pés de rabanete cultivados na Estação Espacial Internacional, dentro de um equipamento chamado Advanced Plant Habitat. As plantas levaram 27 dias para crescer.

Segundo o site Space.com, os cientistas escolheram o Rabanete por vários motivos. Ele é bem conhecido pela ciência, amadurece rápido, é comestível e nutritivo e é geneticamente parecido com a Arabidopsis, uma pequena planta da família do repolho muito usada em pesquisas de biologia vegetal.

Depois da colheita, as plantas foram guardadas e enviadas de volta à Terra na missão de abastecimento CRS-22, da SpaceX, para serem estudadas pelos pesquisadores. O experimento faz parte do esforço da NASA para entender como cultivar alimentos frescos em missões longas, longe das prateleiras dos supermercados. A pequena raiz das hortas caseiras virou, assim, objeto de estudo sobre a alimentação de astronautas.

 

A NASA escolheu o rabanete como uma das primeiras plantas cultivadas no espaço — pelo crescimento rápido, pelo tamanho compacto e pela capacidade de se desenvolver em ambientes de microgravidade

 

Daikon — O Rabanete Gigante do Japão

No leste da Ásia, o Rabanete ganhou outras formas. O daikon, rabanete branco e comprido, é nativo da Ásia continental do leste. No Japão, vira picles como o takuan, entra no oden, um cozido, e é ralado como acompanhamento de molhos. Na Coreia, o rabanete chamado mu vira kkakdugi, um tipo de kimchi em cubos.

O daikon de Sakurajima, cultivado na província de Kagoshima, costuma pesar cerca de 6 quilos e pode passar de 27. Ele já era cultivado antes de 1804, mas, depois da erupção de 1914, muitos produtores trocaram o daikon pelas tangerinas satsuma, e a área caiu de 30 hectares em 1955 para 1,5 hectare em 2001. Em 2023, um híbrido dessa variedade entrou para o Guinness com 45,865 quilos.

Segundo dados de 2003 e 2004 citados pela Wikipedia, o mundo produzia cerca de 7 milhões de toneladas de rabanete por ano, cerca de 2% da produção mundial de hortaliças, sobretudo na China, no Japão e na Coreia do Sul. A mesma espécie, portanto, vai da bolinha vermelha da salada ao gigante branco dos picles japoneses.

 

Colheita — Uma Raiz de Muitas Formas

O Rabanete é uma hortaliça simples e veloz, com origem ainda discutida na Ásia. Seu sabor picante vem dos mesmos compostos da mostarda, e sua rapidez fez dele uma planta das hortas escolares, dos laboratórios e até da Estação Espacial.

Ao longo do caminho, apareceu no relato de Heródoto sobre as pirâmides, virou escultura de Natal em Oaxaca e gigante de picles no Japão. Em cada versão, a mesma espécie se adaptou a culturas diferentes, ora como enfeite de salada, ora como alimento de inverno, ora como obra de arte. Cada bolinha vermelha da horta carrega, assim, uma história que vai das pirâmides à órbita da Terra.

Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

Artigos Relacionados