Romã: A Fruta dos Mistérios, Rituais e Renovação

Da Pérsia que a gerou ao símbolo que aparece simultaneamente na Bíblia, no Alcorão e nos Vedas — a Romã tem 613 sementes segundo a tradição judaica, exatamente os mandamentos da Torá

 

Coroa — Uma Fruta que Guarda Centenas de Joias

A Romã parece ter sido desenhada para chamar atenção. Por fora, uma casca dura e avermelhada, coroada por pontas que lembram uma pequena coroa. Por dentro, centenas de sementes envolvidas por uma polpa vermelha, brilhante e suculenta, separadas por paredes finas como papel. Basta abrir uma para entender o encanto.

Essa forma cheia de sementes fez da Romã um símbolo antigo de fertilidade, abundância e renovação. Ela aparece em mitos gregos, em templos bíblicos, em festas de Ano-Novo e em tradições de várias religiões, sempre ligada à ideia de vida que se multiplica.

Esta é a história da Punica granatum, a fruta domesticada no Irã há cerca de 5 mil anos, que viajou num navio da Idade do Bronze, prendeu Perséfone ao mundo dos mortos, virou símbolo da cidade de Granada e hoje ganha pomares no sertão da Paraíba.

 

Irã — Uma Família Pequena e Antiga

A Romãzeira pertence à família das Litráceas. O gênero Punica tem só 2 espécies. Uma é a Romã que conhecemos. A outra, Punica protopunica, existe apenas no arquipélago de Socotra, no Iêmen.

A Romã é nativa do Irã e de regiões próximas, como partes do Afeganistão e do sudoeste do Paquistão. Foi ali que os antigos iranianos começaram a domesticá-la, há cerca de 5 mil anos. A planta é um arbusto ou árvore pequena, que costuma medir de 2 a 5 metros, com copa arredondada e muitos galhos. No Brasil, ela costuma perder as folhas no inverno.

As flores são vermelho-alaranjadas e nascem nas pontas dos ramos. Elas têm um cálice grosso e carnudo, que permanece no fruto e forma a coroa da Romã, com 5 a 8 pontas. O fruto, chamado balaústa, tem o tamanho de uma laranja, casca de couro e é dividido por dentro em câmaras cheias de sementes.

 

A Punica granatum pertence à família Lythraceae — e cada fruto guarda centenas de sementes envoltas em arilos suculentos, que são a parte que se come

 

Uluburun — Da Idade do Bronze às Américas

A Romã acompanha os povos do Oriente Médio há milhares de anos. Restos da fruta aparecem em níveis do Neolítico em Gezer e em camadas da Idade do Bronze em Jericó e em Arad. No Egito, uma Romã grande e seca foi encontrada no túmulo de Djehuty, mordomo da rainha Hatshepsut.

A fruta também viajava pelo mar. No naufrágio de Uluburun, um navio da Idade do Bronze que afundou por volta do século 14 antes da era comum na costa da atual Turquia, os arqueólogos encontraram restos de Romã, ao lado de cargas vindas de várias partes do Mediterrâneo. Para os pesquisadores, isso sugere que a fruta podia ser um produto de luxo na época.

Séculos depois, a Romã cruzou o Atlântico. Chegou à América espanhola no fim do século 16, e em 1769 colonos espanhóis a levaram à Califórnia. Hoje, ela é plantada em várias partes do mundo, das terras secas do Oriente Médio aos pomares das Américas, da África do Sul e da Austrália.

 

Sementes — O Suco que Mancha e as Câmaras Vermelhas

O que comemos na Romã são as sementes. Cada uma é envolvida por uma camada grossa e suculenta chamada sarcotesta, doce e levemente ácida. Uma única fruta pode ter de 200 a cerca de 1.400 sementes, conforme a variedade e o tamanho. Algumas cultivares chegam a cerca de 630 sementes por fruto.

O suco tem cor vermelha intensa, vinda de pigmentos chamados antocianinas e de taninos chamados elagitaninos. É ácido, com pH em torno de 4,4, e mancha tecidos com facilidade. Por isso, quem já abriu uma Romã sabe que o trabalho exige cuidado com as roupas e a mesa. A casca dura, por sua vez, protege as sementes e ajuda a fruta a durar mais depois de colhida.

A fruta é comida fresca, em saladas, geleias, molhos e sucos. As folhas e as flores vermelhas também tornam a Romãzeira uma planta popular em parques e jardins, e há variedades anãs cultivadas como bonsai. Em muitas casas brasileiras, a árvore fica no quintal, mais pela tradição do que pela colheita.

 

Nativa da região entre o Irã e o norte da Índia, a Romãzeira é cultivada há milhares de anos e tolera calor e seca — e a cidade de Granada, na Espanha, traz a fruta no brasão

 

Perséfone — A Fruta dos Mortos e dos Templos

Na mitologia grega, a Romã ficou ligada ao mundo dos mortos. Perséfone foi levada por Hades ao submundo. Ao comer sementes de Romã ali, ficou presa ao reino dele e passou a ter de voltar para lá durante uma parte de cada ano. Outra tradição grega dizia que a Romã nasceu do sangue de Adônis.

A fruta também aparece na tradição judaica. Romãs esculpidas enfeitavam os capitéis das colunas do Templo de Salomão. Até hoje, a Romã é comida no Rosh Hashaná, o Ano-Novo judaico, como alimento simbólico. Diz-se popularmente que ela tem 613 sementes, o número dos mandamentos da Torá, mas essa ideia não aparece nas fontes rabínicas.

No Alcorão, a Romã é citada no capítulo 55 entre as dádivas do paraíso. No Irã, ela faz parte da Noite de Yalda, a noite mais longa do ano. Na Armênia, é símbolo de fertilidade, abundância e casamento. Em culturas tão diferentes, a fruta cheia de sementes carregou a mesma promessa de vida.

 

Granada — Uma Maçã de Muitos Grãos

O nome da fruta conta uma história de erros e de lugares. O nome do gênero, Punica, vem do nome romano de Cartago, no norte da África. Os romanos achavam, sem razão, que a fruta vinha da África, quando na verdade ela tinha chegado do Oriente.

O nome da espécie, granatum, vem do latim e significa cheio de grãos. Em latim clássico, a fruta se chamava malum granatum, a maçã granulosa. Em inglês, pomegranate vem de pomum, maçã, e granatum. No inglês antigo, a fruta chegou a ser chamada de maçã de Granada, a cidade espanhola que tem a Romã como símbolo.

Em português, o nome seguiu outro caminho. Segundo o Dicionário Infopédia, Romã vem de uma forma latina reconstruída que significaria maçã romana. Assim, a mesma fruta ganhou nomes ligados a Cartago, a Roma e a Granada, sem que nenhum deles fosse sua terra de origem. O próprio nome da fruta virou um mapa das suas viagens.

 

Na mitologia grega, Perséfone comeu sementes de Romã no submundo e ficou presa a Hades por parte do ano — e no Brasil, guardar sementes na carteira no Dia de Reis virou tradição de prosperidade

 

Pomar — Da Índia ao Sertão da Paraíba

A Índia e a China aparecem como as grandes produtoras de Romã, seguidas pelo Irã, pela Turquia e pelo Afeganistão. Índia, China e Irã somam, juntos, mais de 400 mil hectares de pomares. Cerca de 90% da produção mundial está no hemisfério norte, e a Espanha é o maior exportador da Europa.

No hemisfério sul, a África do Sul se destaca, e Chile, Argentina, Peru e Brasil também produzem. No Brasil, a Romãzeira é antiga nos quintais, usada sobretudo por tradição. Pomares comerciais ainda são poucos, mas surgem no norte do Paraná, no Alto Sertão da Paraíba e em partes do Sudeste.

Um dos maiores pomares do país fica em Várzeas de Sousa, na Paraíba, com cerca de 44 hectares de cultivo orgânico das variedades Mollar e Wonderful. Desde 2011, técnicos de Israel trabalham com produtores do Paraná. A variedade Wonderful pode render até 40 toneladas por hectare. Mesmo assim, o Brasil ainda não tem dados atuais de área e produção.

 

Semente — Uma Fruta Feita de Promessas

A Romã é uma fruta que guarda muitas vidas dentro de uma só casca. Nasceu no Irã, foi domesticada há milhares de anos e viajou por terra e mar até o Egito, a Grécia, Roma e as Américas.

Pelo caminho, prendeu Perséfone ao submundo, enfeitou o templo de Salomão, entrou no Ano-Novo judaico e na noite de Yalda e virou símbolo de uma cidade espanhola. Hoje, ela cresce nos quintais brasileiros e em novos pomares do sertão. Cada vez que alguém abre uma Romã e vê as sementes vermelhas, repete um gesto que acompanha a humanidade há milênios. É um pequeno ritual de abundância que segue vivo à mesa.

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