Tagete: a Flor de Vinte que Enfeita os Altares dos Mortos e Combate Nematoides

Do cempasúchil asteca ao cravo-de-defunto brasileiro, a Tagete enfeita os altares de 2 de novembro, protege hortas com suas raízes e colore gemas com a luteína de suas pétalas

 

Laranja — A Cor que Abre Caminho no Fim do Ano

Em novembro, mercados, cemitérios e altares do México se cobrem de laranja e amarelo. São as flores de Tagete, colhidas às toneladas para o Dia dos Mortos. No Brasil, a mesma planta é conhecida como cravo-de-defunto e aparece em canteiros, hortas e beiras de calçada.

Por trás dessa flor existe uma longa história. Ela foi colhida e cultivada pelos astecas, atravessou o oceano depois da conquista espanhola, ganhou nomes que a ligam à África e à França e chegou à Índia, onde virou flor de festa. Hoje, seus pigmentos também colorem gemas de ovos e rações.

Esta é a história do gênero Tagetes, sobretudo da Tagetes erecta, a flor cujo nome em náuatle quer dizer flor de vinte, que enfeita os altares de 2 de novembro, que libera nas raízes uma substância tóxica para vermes do solo e que hoje tem na China a maior parte da produção mundial.

 

Cempohualxochitl — A Flor de Vinte

A Tagetes erecta é nativa do México e da América Central. No México, cresce de forma selvagem em estados como México, Michoacán, Puebla, Veracruz e Guerrero, em áreas muito alteradas, entre 800 e 2.300 metros de altitude. Também há populações selvagens na bacia do rio Balsas, no oeste do país, e em partes do Caribe.

O nome mexicano, cempasúchil, vem do náuatle cempohualxochitl, que quer dizer flor de vinte. Segundo a Wikipedia, o número 20 era a base do sistema de contagem asteca e simbolizava algo completo. O gênero tem cerca de 50 espécies, nativas sobretudo do centro e do sul do México e de outros países latino-americanos.

O nome científico tem raiz europeia. Tagetes vem de Tages, uma figura da mitologia etrusca que teria nascido da terra arada. Segundo a Wikipedia, o nome pode lembrar a forma como essas plantas voltam todos os anos, pelas sementes ou pelo rebrote. Assim, uma flor mexicana acabou batizada com um personagem da Itália antiga.

 

A Tagetes erecta tem flores compostas por centenas de flores individuais reunidas num único capítulo — e as pétalas contêm luteína, o carotenoide que a indústria extrai para suplementos e para colorir a ração das galinhas

 

Conquista — De Tenochtitlán à Europa e à Índia

Os astecas colhiam a planta na natureza e também a cultivavam para fins medicinais, cerimoniais e decorativos. Depois da conquista espanhola do Império Asteca, no século 16, ela foi levada para a Europa, onde passou a ser muito cultivada em jardins e, com o tempo, também em lavouras comerciais.

O naturalista espanhol Francisco Hernández registrou que o nome cempoalxóchitl englobava pelo menos 7 tipos de flor, e os espanhóis chamavam o maior deles de cravo-das-índias. Mais tarde, a planta ganhou o nome inglês de cravo-africano, apesar da origem americana. Já a Tagetes patula, chamada de cravo-francês, tem muitas variedades desenvolvidas na França.

O nome inglês marigold vem da semelhança com a calêndula, conhecida como o ouro de Maria. Hoje, a Tagetes erecta é cultivada também na China, na Índia, na Zâmbia, no Zimbábue, na África do Sul e na Austrália. Na Índia, nos anos 1990, o cravo-africano já ocupava mais área que os tipos franceses entre as flores tradicionais.

 

Capítulo — Centenas de Flores numa Só Cabeça

A Tagetes erecta é uma planta herbácea, anual ou perene, com 20 a 110 centímetros de altura, conforme a fonte. As folhas são compostas, com até 20 centímetros e de 11 a 17 folíolos, e o caule tem canais de resina aromática, que percorrem a planta e guardam substâncias de cheiro forte.

O que parece uma única flor é um capítulo, uma cabeça cheia de florzinhas, típica da família das Asteráceas, a mesma do girassol. Nas formas simples, cada capítulo tem de 150 a 250 flores do disco. Nas formas dobradas, aparecem muitas lígulas amarelas ou alaranjadas, que dão o aspecto de pompom.

A planta floresce por muito tempo, durante o verão e o outono, e se reproduz facilmente por sementes, que são aquênios de 7 a 10 milímetros. No jardim, os tagetes atraem borboletas e mamangavas, que buscam néctar nas flores, e servem de alimento para algumas lagartas. É uma planta simples de cultivar, que se espalha com facilidade.

 

Os campos de cempasúchil no México produzem mais de 11.500 toneladas de flores por ano para o Día de los Muertos — colhidas nos meses de outubro e novembro numa das colheitas mais perfumadas e coloridas do mundo

 

Ofrenda — Flores para os Altares dos Mortos

No México, a Tagete é chamada de flor dos mortos. Segundo o frei Bernardino de Sahagún, ela fazia parte de rituais mexicas, como a festa de Teculhuitontli. Hoje, decora altares e túmulos nas celebrações de 1º e 2 de novembro, quando as famílias recebem a memória de seus mortos.

Os usos funerários vão além do México. Em Honduras, a água com o óleo essencial da planta é usada para lavar os corpos dos mortos. Em vários lugares, ela é plantada em cemitérios. No Brasil, o nome popular cravo-de-defunto mostra que essa ligação com a morte também atravessou o continente.

A flor também tem lugar em outras festas. No sul da Ásia, os tagetes enfeitam casamentos e festivais, e na Ucrânia são considerados um símbolo nacional. Em cada lugar, a mesma cor viva ganha sentidos próprios, de luto, de alegria ou de identidade, mostrando como uma planta pode reunir significados muito diferentes ao redor do mundo.

 

Tertienil — A Raiz que Ataca os Nematoides

A Tagete tem fama de proteger hortas, e parte dessa fama tem base científica. Segundo a Universidade da Flórida, as raízes vivas liberam uma substância chamada alfa-tertienil, tóxica para os nematoides, pequenos vermes do solo que atacam raízes, e que também impede a eclosão de seus ovos.

Mas o efeito depende do método. O cravo-francês, Tagetes patula, parece funcionar contra a maior variedade de nematoides, sobretudo os das galhas e os das lesões. A Tagete precisa ser plantada de forma densa, como cultura de cobertura, pelo menos 2 meses antes da lavoura sensível, e no mesmo lugar. Material triturado da planta não tem o mesmo efeito.

Há limites importantes. Plantar a Tagete misturada com a lavoura não funciona e pode até prejudicá-la. Alguns nematoides se multiplicam nela, e infestações graves podem não ser reduzidas o bastante. Além disso, as raízes liberam tiofenos com ação antibacteriana, e por isso a Wikipedia desaconselha plantar tagetes perto de leguminosas, que dependem de bactérias nas raízes.

 

O altar do Día de los Muertos usa pétalas de tagete porque o aroma intenso e a cor alaranjada — que guarda o calor do sol — são considerados capazes de guiar as almas dos mortos de volta para casa

 

Luteína — Cor para Gemas e um Mercado Chinês

O principal pigmento das pétalas é a luteína. Pétalas secas e moídas entram na ração de galinhas para dar cor às gemas dos ovos e à pele dos frangos, e também na ração de camarões. Na União Europeia, o extrato é um corante alimentar aprovado, o E161b, enquanto nos Estados Unidos é aprovado só para rações.

No México, a flor tem um mercado próprio. Em 2024, segundo dados oficiais do governo mexicano, o país produziu 20.659 toneladas de cempasúchil em 2.203 hectares, com destaque para Puebla, Hidalgo e Oaxaca. A cidade de Atlixco, em Puebla, colheu mais de 3 mil toneladas em um ano, e o cultivo leva cerca de 3 meses e meio.

O grande mercado, porém, está fora do país de origem. Segundo a emissora mexicana N+, cerca de 3/4 da produção mundial vem da China. Em 2024, os produtores mexicanos ganharam cerca de 11,5 milhões de dólares com a flor, enquanto uma única empresa chinesa faturou mais de 500 milhões de dólares com a produção industrial.

 

Pétala — Uma Flor Mexicana que Ganhou o Mundo

A Tagete é uma flor mexicana de cor intensa e cheiro forte. Foi colhida e cultivada pelos astecas, batizada com um personagem etrusco e espalhada pela Europa, pela África e pela Ásia, ganhando nomes que escondem sua origem americana.

Ao longo do caminho, virou flor de altar no Dia dos Mortos, cravo-de-defunto nos canteiros brasileiros, enfeite de casamentos na Ásia e símbolo nacional na Ucrânia. Nas hortas, suas raízes ajudam a combater nematoides, desde que usadas do jeito certo. Nas fábricas, sua luteína colore gemas e rações. Em cada pétala alaranjada, há uma história que começa nas encostas do México.

Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

Artigos Relacionados