Tomilho: a Erva da Fumaça, da Coragem e do Timol

Do incenso dos templos gregos ao timol dos químicos e aos quimiotipos que mudam com o clima no sul da França, conheça a história do Tomilho

 

Ramo — Uma Erva Pequena de Cheiro Forte

O Tomilho cabe na palma da mão. É um arbusto baixo, de caule lenhoso, folhas miúdas e cinzentas e flores rosadas ou arroxeadas. Basta esfregar um ramo entre os dedos para sentir o perfume quente que ele empresta a molhos, assados e caldos.

Por trás desse cheiro há uma longa história. O Tomilho foi usado pelos egípcios em embalsamamentos, queimado como incenso pelos gregos, dado como amuleto de coragem a cavaleiros medievais e estudado por químicos que tiraram dele uma substância usada até hoje em enxaguantes bucais.

Esta é a história do Thymus vulgaris, uma erva da família da hortelã, nativa do Mediterrâneo, cujo nome grego pode estar ligado à fumaça, de onde se tirou o timol no século 18, que Shakespeare plantou numa cena de fadas e que, nas colinas do sul da França, mostra como uma planta pode mudar com o clima.

 

Garrigue — Um Arbusto das Colinas Secas

O Tomilho pertence à família das Lamiáceas, a mesma da hortelã, do alecrim e da sálvia. Segundo a Wikipedia, as espécies de tomilho são nativas dos países mediterrâneos, do norte da África, do Levante e do sul da Europa. A origem exata do Thymus vulgaris varia conforme a fonte, entre o oeste do Mediterrâneo e o sudeste da Europa.

É um subarbusto lenhoso e sempre verde, que costuma ter de 15 a 30 centímetros de altura. Segundo uma revisão publicada na revista BioScience em 1998, ele cresce em áreas abertas da bacia ocidental do Mediterrâneo. No sul da França, é uma planta típica da garrigue, a vegetação baixa de colinas secas e pedregosas.

A planta guarda uma curiosidade. Segundo a mesma revisão, alguns pés têm só flores femininas, e outros, flores hermafroditas. No sul da França, a proporção de plantas femininas vai de cerca de 5% a mais de 90%, com média próxima de 60%, um valor alto para esse tipo de sistema. As populações mais jovens costumam ter mais plantas femininas.

 

O timol — principal composto ativo do Tomilho — é o mesmo antisséptico presente no Listerine original, com propriedades antibacterianas mais potentes que o fenol.

 

Fumaça — Incenso para os Deuses

O nome do Tomilho tem origem discutida. Segundo o Online Etymology Dictionary, ele vem do latim thymum, emprestado do grego thymon. Para alguns linguistas, a palavra grega se liga a uma raiz que significava fumaça, talvez pelo cheiro ou pelo uso da planta em oferendas queimadas. Outros acham essa ligação duvidosa e veem no nome uma palavra anterior ao grego.

O uso antigo combina com essa ideia de fumaça e perfume. Segundo a Wikipedia, os antigos egípcios usavam o Tomilho no embalsamamento. Os gregos o colocavam nos banhos e o queimavam como incenso nos templos, porque acreditavam que ele era uma fonte de coragem.

Os romanos também adotaram a erva. Segundo a Wikipedia, eles a usavam para purificar ambientes e para dar sabor aromático a queijos e licores, e acredita-se que tenham ajudado a espalhá-la pela Europa. Do Mediterrâneo antigo, o Tomilho passou a fazer parte das hortas e das cozinhas de boa parte do continente.

 

Timol — O Cristal Tirado do Óleo

O perfume do Tomilho vem sobretudo do timol. Segundo a Wikipedia, o óleo de tomilho tem de 20% a 54% dessa substância, e o carvacrol é outro componente importante. No início do século 18, o químico alemão Caspar Neumann obteve do óleo um material cristalino que chamou de cânfora de tomilho. As fontes divergem entre 1719 e 1724.

Em 1853, o francês Alexandre Lallemand deu o nome de timol à substância. Suas possíveis propriedades antissépticas foram descobertas em 1875, e em 1882 o sueco Oskar Widman conseguiu sintetizá-la. Nos anos 1910, o timol foi usado nos Estados Unidos no tratamento da ancilostomose. Hoje, aparece em enxaguantes bucais e no controle do ácaro varroa nas colmeias.

A própria erva também tem uso reconhecido, mas com limites. A Agência Europeia de Medicamentos aceita preparações de Tomilho para tosse com catarro associada a resfriados com base no uso tradicional. Segundo a agência, porém, a evidência clínica é insuficiente, e a decisão se apoia no uso seguro por pelo menos 30 anos.

 

O mel do Monte Himeto na Grécia — produzido pelas abelhas que se alimentam do Tomilho selvagem — é considerado o mais aromático do mundo desde Aristóteles, no século IV a.C.

 

Coragem — Cavaleiros, Travesseiros e Fadas

Na Idade Média, o Tomilho ganhou funções simbólicas. Segundo a Wikipedia, ele era colocado debaixo do travesseiro para ajudar a dormir e afastar pesadelos. As mulheres davam folhas de Tomilho a cavaleiros e guerreiros, porque se acreditava que a planta trazia coragem.

A erva também acompanhava a morte. Segundo a Wikipedia, ela era usada como incenso e colocada sobre os caixões nos funerais, com a crença de que garantia a passagem para a outra vida. Assim, o mesmo ramo perfumado podia aparecer no travesseiro, no bolso de um guerreiro e no último adeus.

Na literatura, o Tomilho entrou numa cena de Shakespeare. Em Sonho de uma Noite de Verão, Oberon descreve uma encosta onde cresce o tomilho selvagem, ao lado de violetas e rosas, e onde a rainha das fadas, Titânia, dorme à noite. A erva ajudava a compor a imagem de um lugar encantado, coberto de flores e perfumes.

 

Quimiotipos — Uma Planta que Muda com o Inverno

Nem todo Tomilho tem o mesmo cheiro. Segundo a revisão da BioScience, no sul da França existem 6 quimiotipos, tipos de planta com óleos de composição diferente, definidos geneticamente. Os fenólicos, ricos em timol ou carvacrol, são mais comuns em climas quentes e secos. Os não fenólicos ficam mais frequentes em locais frios e úmidos.

Pesquisadores do Centro de Ecologia Funcional e Evolutiva, em Montpellier, estudam esse mosaico há décadas. Segundo o site Techno-Science, os tipos fenólicos toleram mal as geadas, mas se dão bem em solos pedregosos e muito secos. Os não fenólicos aparecem nas áreas de inverno mais frio e em solos mais profundos.

Em 2013, uma equipe liderada por John Thompson publicou na revista PNAS uma comparação com mapas dos anos 1970. Em 36 pontos da bacia de Saint-Martin-de-Londres, o Tomilho fenólico tinha avançado sobre áreas antes dominadas pelos não fenólicos. Os registros mostram que as mínimas de inverno nas áreas mais frias eram de cerca de -20 °C nos anos 1950 e hoje ficam perto de -10 °C. Como essa mudança aconteceu ainda não foi explicado.

 

Na Idade Média, as damas costuravam ramos de Tomilho nas capas dos cavaleiros antes das batalhas — acreditando que a erva transmitia coragem e proteção.

 

Mel — Do Bouquet Garni às Colmeias da Ática

Na cozinha, o Tomilho é presença comum. Segundo a Wikipedia, ele faz parte do bouquet garni e das ervas de Provença. Fresco, tem mais sabor, mas raramente dura mais de 1 semana. Seco, conserva bem o aroma e pode substituir o fresco em muitas receitas. Na Armênia, o Tomilho seco é usado em chás de ervas.

As abelhas também gostam dele. Segundo a Wikipedia, o tomilho-serpão, Thymus serpyllum, é uma fonte importante de néctar, e a Grécia e Malta são conhecidas pelo mel de tomilho selvagem. Segundo o site de turismo Athens Attica, na Ática, a região de Atenas, a apicultura é praticada de forma sistemática pelo menos desde o século 6 antes da era comum.

O mesmo site lembra que, segundo Plutarco, o legislador Sólon estabeleceu regras sobre a distância entre colmeias. O monte Himeto, perto de Atenas, era conhecido por méis com notas de pinho, sálvia e tomilho. Até um peixe, o Thymallus, ganhou nome por causa do leve cheiro de tomilho de sua carne.

 

Perfume — Uma Erva que Atravessa os Séculos

O Tomilho é uma erva pequena de grande história. Nasceu nas colinas secas do Mediterrâneo, foi incenso para os gregos, tempero para os romanos e amuleto de coragem na Idade Média, e deu à química o timol, ainda presente em enxaguantes e colmeias.

Ao longo do caminho, entrou numa cena de fadas de Shakespeare, perfumou o mel da Ática e virou ingrediente do bouquet garni. Nas colinas do sul da França, seus quimiotipos mostram que até uma erva de jardim reage às mudanças do clima. Em cada ramo esfregado entre os dedos, há uma história de fumaça, coragem e cozinha.

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