Rosa: A Flor de Afrodite que Aprendeu com a China a Florescer o Ano Todo

Dos fósseis de 35 milhões de anos às estufas do Equador, a Rosa foi flor de Afrodite e de Maria, deu nome a uma guerra, precisa de 3 mil kg de pétalas para 1 kg de óleo e só passou a florescer o ano inteiro na Europa depois da chegada das Rosas chinesas

 

A Flor que Todo Mundo Reconhece

Nenhuma flor é tão fácil de reconhecer quanto a Rosa. Ela está em buquês de casamento e de enterro, em brasões, vitrais, perfumes, poemas e rótulos. Ninguém precisa explicar o que ela significa.

Por trás dessa familiaridade há uma história longa e cheia de surpresas. A Rosa existe muito antes dos humanos, virou símbolo de deusas e santas, deu nome a uma guerra na Inglaterra e alimentou crianças britânicas durante a Segunda Guerra Mundial. E a Rosa moderna, que floresce várias vezes por ano, só existe graças a um encontro entre Oriente e Ocidente no fim do século 18.

Esta é a história da flor que atravessou todas as culturas sem perder o perfume.

 

Rosa — Uma Família com Mais de 300 Espécies

O gênero Rosa pertence à família Rosaceae, que também reúne a Maçã, o Morango, a Pera e a Amêndoa. São mais de 300 espécies selvagens e dezenas de milhares de variedades cultivadas.

A maior parte das espécies é nativa da Ásia, e as demais crescem na Europa, na América do Norte e no noroeste da África. Fósseis de folhas de Rosa com cerca de 35 milhões de anos foram encontrados em Florissant, no Colorado, nos Estados Unidos.

As Rosas selvagens costumam ter 5 pétalas. As flores cheias, com dezenas de pétalas, são resultado de milênios de seleção humana, que transformou parte dos estames em pétalas.

 

Rosa spp., cultivada há mais de 5 mil anos, tornou-se símbolo universal de amor, poder e espiritualidade em diferentes civilizações.

 

Da Pérsia a Malmaison

O cultivo ornamental da Rosa começou há pelo menos 2.500 anos, no Mediterrâneo, na Pérsia e na China. Os romanos cultivavam Rosas em grande escala para festas e banquetes, e espalhavam pétalas pelo chão e pelas mesas.

A Rosa-damascena, Rosa × damascena, um híbrido surgido provavelmente no Irã ou na Ásia Central, virou a Rosa dos perfumes. No Irã, a produção de óleo e água de Rosa começou por volta do século 7.

No início do século 19, a imperatriz Josefina, esposa de Napoleão, reuniu no jardim de Malmaison uma das maiores coleções de Rosas da época. O pintor Pierre-Joseph Redouté retratou essas flores em Les Roses, publicado entre 1817 e 1824.

 

Óleo de Rosa e a Vitamina C da Guerra

Para produzir 1 kg de óleo essencial de Rosa são necessárias cerca de 3 toneladas de pétalas. Bulgária, Turquia e Arábia Saudita controlam juntas mais de 70% do mercado. Na Bulgária, o Vale das Rosas, perto de Kazanlak, é o centro da produção.

O perfume de Rosa tem centenas de compostos. Os principais em volume são o citronelol e o geraniol, mas um composto presente em menos de 1%, a beta-damascenona, responde por boa parte do aroma que reconhecemos.

Os frutos da Rosa, as roseiras-bravas, estão entre as fontes vegetais mais ricas em vitamina C. Durante a Segunda Guerra Mundial, com as importações de frutas cítricas cortadas, crianças britânicas colhiam esses frutos nas cercas vivas para a produção de xarope de Rosa.

 

Jardins de rosas tornaram-se símbolo de poder e sofisticação na Europa medieval e renascentista, consolidando a flor como ícone ornamental.

 

Afrodite, Maria e o Segredo Sub Rosa

Na Grécia Antiga, a Rosa era a flor de Afrodite, deusa do amor, e em Roma, de Vênus. No cristianismo, foi associada à Virgem Maria, chamada de Rosa Mística. As orações do rosário ganharam esse nome do latim rosarium, jardim de Rosas.

Segundo a tradição, uma Rosa pendurada no teto de uma sala indicava que tudo o que fosse dito ali era confidencial. Daí vem a expressão latina sub rosa, sob a Rosa, que ainda significa em segredo.

Na Inglaterra do século 15, a disputa pelo trono entre as casas de York e Lancaster, representadas por uma Rosa branca e uma vermelha, ficou conhecida como a Guerra das Rosas. O nome, porém, só se popularizou no século 19, com os escritores românticos.

 

Acúleos, Não Espinhos, e o Segredo Chinês

A Rosa não tem espinhos. As pontas afiadas dos seus caules são acúleos, saliências da camada externa, a epiderme, e saem com facilidade. Espinhos verdadeiros, como os do Limoeiro, são galhos modificados, ligados à estrutura interna da planta.

O maior segredo da Rosa moderna veio da China. A maior parte das Rosas europeias florescia só uma vez por ano, no início do verão. As Rosas chinesas, Rosa chinensis, florescem várias vezes e eram cultivadas assim havia pelo menos mil anos.

No fim do século 18, variedades chinesas chegaram à Europa. Os cruzamentos com as Rosas europeias deram origem às Rosas que florescem da primavera ao outono, a base de quase todas as variedades vendidas hoje.

 

Botões e flores abertas revelam o ciclo da rosa, planta cultivada há milênios e símbolo constante de amor, beleza e celebração.

 

A Rosa Paz e as Rosas do Equador

Em 1935, o francês Francis Meilland criou uma Rosa amarela com bordas rosadas. Salvas da guerra, as mudas chegaram aos Estados Unidos, e a variedade foi batizada de Peace, Paz, no dia 29 de abril de 1945, quando Berlim caía. Meses depois, cada delegação da conferência de fundação da ONU, em São Francisco, recebeu uma Rosa Paz. Até 1992, mais de 100 milhões de mudas haviam sido vendidas.

Hoje, as Rosas de corte são produzidas sobretudo em países com muita luz e altitude, como Colômbia, Equador e Quênia, e revendidas pelos leilões da Holanda.

No Brasil, a produção de flores se concentra em polos como Holambra, em São Paulo, e Barbacena, em Minas Gerais, conhecida como Cidade das Rosas.

 

A Flor que Ninguém Precisa Explicar

A Rosa existia havia milhões de anos quando os humanos a encontraram. Desde então, virou deusa e santa, segredo e guerra, perfume, remédio e presente.

A Rosa que chega hoje ao buquê é fruto de encontros improváveis: a Rosa-damascena persa, as Rosas chinesas que florescem sem parar, os jardins da imperatriz Josefina e uma variedade batizada no dia da queda de Berlim. Por baixo de tudo isso, continua a mesma flor de 5 pétalas que cresce selvagem nas cercas vivas.

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Fontes

  • Wikipedia. Rose. Link
  • Wikipedia. Rose oil. Link
  • Wikipedia. Rosa ‘Peace’. Link
  • Wikipedia. Remontancy. Link
  • The Garden Club of Denver. 35 Million Year-Old Rose. Link
  • World History Encyclopedia. A Brief History of the Rose. Link

 

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