Plantas Carnívoras: Da Paixão de Darwin à Drósera Gigante Descoberta no Facebook

Em solos pobres, algumas plantas aprenderam a caçar insetos, crustáceos e até vermes, e no Brasil há uma que caça debaixo da areia e outra descoberta numa foto de rede social

 

Armadilha — Plantas que Viraram Caçadoras

Plantas costumam ser o alimento dos animais. Nas plantas carnívoras, essa ordem se inverte. Elas atraem, prendem e digerem insetos, pequenos crustáceos e até vermes, tirando das presas os nutrientes que faltam no solo.

As armadilhas são variadas. Há folhas grudentas como mel, jarros cheios de líquido digestivo, bolsas que sugam a presa debaixo d’água e folhas que se fecham como uma boca. Algumas dessas armadilhas estão entre os movimentos mais rápidos já medidos em plantas.

Esta é a história das plantas carnívoras, que fascinaram Charles Darwin, ganharam uma carta de um governador colonial, servem de banheiro para pequenos mamíferos em Bornéu e têm no Brasil espécies surpreendentes, como uma que caça debaixo da areia e outra descoberta numa foto do Facebook.

 

Nitrogênio — A Fome que Criou as Carnívoras

As plantas carnívoras vivem quase sempre em lugares pobres em nutrientes, como brejos ácidos, areias lavadas pela chuva e campos rochosos. Nesses solos falta sobretudo nitrogênio e fósforo, elementos que a planta precisa para crescer. Capturar animais virou um jeito de buscar esses nutrientes em outro lugar.

Essa solução surgiu várias vezes, em linhagens diferentes das plantas com flores. A Cephalotus, planta de jarro da Austrália, é mais aparentada à Carambola do que aos jarros carnívoros da Ásia e das Américas. Ou seja, plantas sem parentesco próximo chegaram, cada uma por seu caminho, a armadilhas muito parecidas.

Um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution, com participação do pesquisador Victor Albert, da Universidade de Buffalo, sequenciou o genoma da Cephalotus. Os cientistas identificaram 35 proteínas digestivas. Muitas vieram de proteínas que as plantas já usavam para se defender de doenças, e foram reaproveitadas da mesma forma em carnívoras de continentes diferentes. As carnívoras são poucas, cerca de 0,2% das plantas com flores.

 

Plantas carnívoras evoluíram em solos pobres e transformaram folhas em armadilhas vivas para sobreviver. Charles Darwin dedicou um livro inteiro a elas, em 1875

 

Darwin — O Homem que se Apaixonou pela Drósera

Em 1860, de férias em Hartfield, no sul da Inglaterra, Charles Darwin reparou em quantos insetos a Drósera, uma planta de folhas grudentas, conseguia capturar. Ele recolheu 12 plantas e viu que mais da metade das folhas tinha restos de insetos mortos. No fim daquele ano, escreveu ao geólogo Charles Lyell: eu me importo mais com a Drósera do que com a origem de todas as espécies do mundo.

Darwin passou anos fazendo testes. Pingou leite, clara de ovo, saliva, urina e caldo de carne nas folhas, e todas se dobraram fortemente. Descobriu que bastava 1/1.920 de grão de amônia para mover uma folha. Também mostrou que a Drósera solta um líquido parecido com o suco gástrico, capaz de dissolver cartilagem, osso e carne em poucas horas.

O resultado foi o livro Insectivorous Plants, publicado em 2 de julho de 1875. A primeira tiragem teve 1.250 exemplares. Darwin estudou também a Dioneia e a Utriculária, e contou com ajuda de vários cientistas, como Joseph Hooker, que comparou a digestão das plantas de jarro, e John Burdon Sanderson, que fez experimentos elétricos com a Dioneia.

 

Dioneia — A Folha que Sabe Contar

A Dioneia, Dionaea muscipula, é conhecida no Brasil como Papa-moscas. Ela só existe naturalmente numa pequena faixa da planície costeira da Carolina do Norte e da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, a maior parte a cerca de 120 quilômetros da cidade de Wilmington.

O primeiro registro escrito da planta é uma carta de 2 de abril de 1759. Nela, o governador da Carolina do Norte, Arthur Dobbs, descreveu uma espécie de pega-mosca sensível que se fecha sobre qualquer coisa que a toque. Em 2005, a Dioneia virou a planta carnívora oficial do estado.

A armadilha tem pelos sensores na parte interna. Um estudo publicado em 2016 na revista Current Biology mostrou que a planta conta os toques. São necessários 2 toques seguidos para a folha se fechar. Depois disso, mais 3 toques ativam os genes das enzimas digestivas. Assim, a Dioneia evita gastar energia com uma gota de chuva ou um galho que caiu por acaso.

 

A dioneia “conta” os toques — a armadilha só fecha quando os pelinhos sensores são tocados 2 vezes em poucos segundos, evitando gastar energia com um pingo de chuva

 

Musaranho — O Jarro que Virou Banheiro

Em Bornéu, uma planta de jarro mudou de estratégia. Os jarros maduros da Nepenthes lowii quase perderam as características de armadilha. Em vez de prender insetos, eles recebem visitas de musaranhos-arborícolas, pequenos mamíferos que lambem uma secreção doce produzida na tampa do jarro.

Enquanto se alimentam, os musaranhos fazem suas necessidades dentro do jarro. As fezes caem no líquido e são absorvidas pela planta. Um estudo publicado em 2009 na revista Biology Letters mostrou que essas fezes respondem por 57% a 100% do nitrogênio nas folhas das plantas maduras.

O caso mostra como a carnivoria pode se transformar em parceria. A planta oferece comida, o animal deixa adubo, e os dois saem ganhando. Outras plantas de jarro de Bornéu também abrigam visitantes, mostrando que a fronteira entre caçar e conviver pode ser fina. Para muitos pesquisadores, essa relação é um exemplo de como a evolução reaproveita uma estrutura para uma função nova.

 

Subterrânea — A Planta que Caça Vermes debaixo da Areia

O Brasil guarda uma carnívora que esconde a armadilha. A Philcoxia minensis é uma planta de cerca de 20 centímetros, com pequenas flores roxas, que cresce nas areias brancas da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Suas folhas grudentas, do tamanho da ponta de uma agulha, ficam debaixo da areia.

Em 2007, o botânico Peter Fritsch, da Academia de Ciências da Califórnia, levantou a hipótese de que a planta fosse carnívora. A confirmação veio num estudo publicado em 2012 na revista PNAS, coordenado por Rafael Oliveira, da Unicamp, com cientistas do Brasil, da Austrália e dos Estados Unidos.

Os pesquisadores alimentaram bactérias com nitrogênio marcado, deram essas bactérias a vermes chamados nematoides e ofereceram os vermes à planta. Pouco depois, o nitrogênio marcado apareceu nas folhas. As folhas também produziam fosfatases, enzimas capazes de digerir os vermes. Foi o primeiro registro de nematoides como presa de uma planta carnívora, um tipo de caça que ninguém tinha visto antes.

 

Em viveiros especializados, espécies como Nepenthes, Drosera e Dionaea revelam a extraordinária engenharia evolutiva das plantas carnívoras.

 

Facebook — As Carnívoras do Brasil

Em 2013, um admirador de orquídeas postou no Facebook fotos de uma planta estranha numa montanha de Minas Gerais. Os especialistas Paulo Gonella, Fernando Rivadavia e Andreas Fleischmann perceberam que era uma espécie nova. Em 2015, ela foi descrita como Drosera magnifica, com até 1,5 metro de comprimento, a maior Drósera das Américas.

A espécie só é conhecida numa única montanha, sem proteção, e já é considerada ameaçada de extinção. O gênero Drosera tem cerca de 250 espécies, a maioria no hemisfério sul, sobretudo na Austrália, na África do Sul e no Brasil.

O Brasil também é forte em Utriculárias, plantas com pequenas bolsas que sugam presas debaixo d’água em menos de 1 milésimo de segundo, com aceleração de até 600 vezes a da gravidade. O país tem cerca de 70 das 95 espécies da América do Sul, 20 delas exclusivas daqui. Um estudo orientado por Vitor Miranda, da Unesp de Jaboticabal, indicou que o gênero surgiu na América do Sul há cerca de 39 milhões de anos, provavelmente no Brasil.

 

Presa — Plantas que Mudaram as Regras

As plantas carnívoras mostram que a fome pode criar soluções inesperadas. Em solos pobres, folhas viraram armadilhas, e enzimas de defesa viraram sucos digestivos. Darwin passou anos testando a Drósera, e a Dioneia ainda surpreende os cientistas com sua capacidade de contar toques.

Do jarro que serve de banheiro em Bornéu à planta que caça vermes debaixo da areia em Minas Gerais, as carnívoras seguem revelando segredos. No Brasil, uma delas foi descoberta numa rede social. Muitas outras ainda podem estar escondidas nas serras e brejos do país, esperando alguém olhar com atenção. Cada nova espécie lembra que as plantas também sabem caçar, cada uma à sua maneira.

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