Manjericão: A Erva Real do Pesto, da Cruz de Santa Helena e dos Manjericos de Santo António

Nativo da Ásia tropical e batizado pelos gregos como erva real, o Manjericão virou deusa na Índia, sinal da cruz nas igrejas ortodoxas, tragédia no Decameron, declaração de amor em Portugal e alma do pesto de Gênova

 

 

A Erva Real das Janelas e dos Altares

Basta encostar a mão num pé de Manjericão para o perfume ficar nos dedos. Essa erva pequena, fácil de plantar num vaso, atravessou continentes e ganhou papéis muito diferentes pelo caminho.

Na Itália, virou a alma do pesto. Na Índia, uma de suas parentes, a Tulsi, é adorada como deusa. Na Grécia, a tradição cristã liga a planta à cruz de Cristo. Em Portugal, ela vira declaração de amor nas festas de Santo António.

No Brasil, está no molho de tomate, na pizza, nos banhos de ervas e nas janelas de quem gosta de cozinhar. Esta é a história de uma erva que ganhou nome de rei e entrou no cotidiano de muitas culturas.

 

Ocimum — Uma Lamiácea da Ásia Tropical

O Manjericão pertence à espécie Ocimum basilicum, da família Lamiaceae, a mesma da Hortelã, do Alecrim, da Sálvia e do Orégano. Segundo o Jardim Botânico de Kew, é nativo das regiões tropicais e subtropicais da Ásia, até o norte da Austrália. Há quem aponte também uma possível origem africana. Hoje ele cresce naturalizado em áreas quentes do mundo inteiro.

O nome do gênero vem do grego ôkimon, talvez ligado a ôkus, rápido, pela velocidade com que brota da semente. Já basilicum vem de basilikós, real, dos reis. Daí vêm basil, em inglês, e basilico, em italiano.

O gênero Ocimum tem dezenas de espécies. Além do Manjericão comum, há a Tulsi, Ocimum tenuiflorum, o Manjerico português, de folhas miúdas, e a Alfavaca, Ocimum gratissimum, muito usada no Brasil. As variedades de Ocimum basilicum também são muito diversas, do Genovês de folha larga ao Manjericão roxo e ao tailandês, com aroma de anis.

 

O Ocimum basilicum é da família Lamiaceae — basilicum vem do grego basilikós, real

 

Ôkimon — Dos Médicos Gregos aos Escorpiões de Plínio

O Manjericão aparece nos textos médicos gregos atribuídos a Hipócrates, entre os séculos 5 e 4 antes da era comum, como remédio para problemas digestivos. Pelas rotas comerciais entre a Índia, a Pérsia e o Mediterrâneo, a planta já circulava pelo mundo antigo.

Os romanos tinham opiniões divididas. No século 1, Plínio, o Velho, registrou que alguns acusavam a erva de causar loucura e males do fígado. Outros a defendiam como remédio, misturada ao vinho, contra picadas de escorpião.

A fama ligada aos escorpiões atravessou séculos. Na Europa medieval e renascentista, alguns autores chegaram a escrever que cheirar Manjericão em excesso faria nascer escorpiões no cérebro, uma crença sem nenhuma base. Ao mesmo tempo, a erva era cultivada em hortas de mosteiros e jardins. Como não suporta geada, chegou à Inglaterra e ao norte da Europa como planta de vaso. Com os navegadores, cruzou o Atlântico e se espalhou pelas Américas.

 

Linalol — O Perfume que o Calor Apaga

O aroma do Manjericão vem de óleos essenciais guardados em pequenas glândulas nas folhas. O Manjericão comum costuma ser rico em linalol, de perfume floral, e em estragol, de aroma parecido com o do anis. A proporção entre esses compostos varia muito de uma variedade para outra, e por isso cada tipo tem um cheiro diferente. O Manjericão tailandês, por exemplo, tem mais estragol, e o Manjericão-limão tem mais citral. Em doses altas, o estragol isolado preocupa agências de segurança alimentar, mas o uso culinário comum não é considerado um risco.

As folhas também têm vitamina K, carotenoides e compostos fenólicos, como o ácido rosmarínico, com ação antioxidante em estudos de laboratório. Na prática, como usamos poucas folhas por vez, o Manjericão entra mais pelo sabor que pela nutrição.

Esses óleos são voláteis e sensíveis ao calor. Por isso, os cozinheiros costumam acrescentar o Manjericão no fim do preparo ou por cima do prato pronto. Cortar com faca cega ou amassar demais escurece as folhas, porque rompe as células e acelera a oxidação.

 

Nativo da Ásia tropical, o gênero Ocimum inclui o Tulsi, Manjericão sagrado do hinduísmo

 

Santa Helena — A Cruz, a Tulsi e o Manjerico

Segundo a tradição cristã ortodoxa, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou a Cruz de Cristo em Jerusalém no século 4. Ela teria sido guiada pelo perfume de um Manjericão que crescia sobre o local. Até hoje, na festa da Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro, as igrejas gregas enfeitam a cruz com ramos de Manjericão, que os padres distribuem aos fiéis depois da celebração.

Na Índia, a Tulsi é considerada a manifestação da deusa Tulasi, consorte de Vishnu. Ela é plantada no centro dos pátios das casas e cuidada todos os dias. Em novembro, é celebrada no Tulasi Vivaha, o casamento simbólico da planta com Vishnu, que abre a temporada de casamentos. Com os caules secos, fazem-se contas de rosários usados por devotos de Vishnu e Krishna.

Em Portugal, o Manjerico é o símbolo dos Santos Populares. Em junho, nas festas de Santo António e São João, os rapazes oferecem às namoradas um vaso com a planta, uma bandeirinha e uma quadra popular. O costume manda sentir o perfume passando a mão sobre a planta e cheirando os dedos, e não enfiando o nariz no vaso.

 

Decameron — O Vaso que Guardava um Segredo

No século 14, o italiano Giovanni Boccaccio contou no Decameron a história trágica de Lisabetta, uma jovem de Messina. Seus irmãos mataram o homem que ela amava. Lisabetta encontrou o corpo, guardou a cabeça dele num vaso e plantou por cima um pé de Manjericão, que regava com as próprias lágrimas. Quando os irmãos descobriram o segredo e levaram o vaso, Lisabetta morreu de tristeza. O conto está na quarta jornada do livro, dedicada aos amores que terminam mal.

A história virou poema em 1820, com Isabella, or the Pot of Basil, do inglês John Keats, e inspirou pintores do século 19. Foi assim que o Manjericão num vaso ganhou, na Europa, um lugar ligado ao amor e à saudade.

Outro segredo está nas flores. Quando o Manjericão floresce, a planta passa a investir energia nas sementes, e as folhas podem ficar mais duras e amargas. Por isso, quem cultiva costuma cortar as pontas com os botões, o que estimula a planta a ramificar e produzir mais folhas.

 

O pesto genovês é feito com Basilico Genovese, Manjericão com Denominação de Origem Protegida na Itália

 

Pesto — Da Ligúria à Pizza Margherita

O pesto de Gênova tem ancestrais antigos, como o moretum romano, uma pasta de alho, queijo e ervas. A primeira receita publicada de pesto com Manjericão é de 1852, de Emanuele Rossi. Hoje, o Manjericão Genovês tem Denominação de Origem Protegida. O pesto tradicional leva Manjericão, azeite, alho, pinhões, parmesão ou grana e pecorino, socados no pilão. Em Nápoles, as folhas verdes completam as cores da bandeira italiana na pizza Margherita, com o vermelho do Tomate e o branco da muçarela.

No Sudeste Asiático, o Manjericão tailandês perfuma curries e salteados, e no Vietnã as folhas frescas acompanham o phở. Na Índia, a Tulsi é tomada em chás e usada na medicina ayurvédica.

No Brasil, o Manjericão está no molho de tomate, na pizza e nas saladas. Também aparece em banhos de ervas e defumações nas religiões de matriz africana e entre benzedeiras, junto com parentes como a Alfavaca. Em muitas casas, um vaso na janela garante folhas frescas o ano todo. Basta um galho na água para ele criar raízes e virar uma nova planta.

 

Uma Erva de Muitos Altares

O Manjericão nasceu na Ásia tropical, passou pelos médicos gregos e pelas dúvidas de Plínio e chegou à cozinha italiana. Pelo caminho, virou deusa na Índia, sinal da cruz na Grécia, conto trágico na Itália e declaração de amor em Portugal.

Cabe num vaso pequeno, mas carrega muitos significados. No pesto, no chá de Tulsi, na festa de Santo António ou no banho de ervas, o Manjericão continua fazendo jus ao nome que recebeu dos gregos: uma erva digna de reis. E segue ao alcance de qualquer janela.

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Fontes

  • Kew, Plants of the World Online. Ocimum basilicum. Link
  • American Herbal Products Association. Herbs in History: Basil. Link
  • Orthodox Pebbles. Exaltation of the Holy Cross. Link
  • Wikipedia. Tulasi in Hinduism. Link
  • Wikipédia. Manjerico. Link
  • Wikipedia. Pesto. Link

 

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