Pimenta-do-reino: O Ouro Negro do Malabar que Chegou ao Pará pelas Mãos Japonesas

Das encostas da costa do Malabar às narinas da múmia de Ramsés II, dos armazéns de Roma ao resgate de Alarico e às lavouras de Tomé-Açu, a Pimenta-do-reino foi a especiaria mais cobiçada do comércio antigo e ganhou no Brasil uma segunda casa graças a 20 mudas trazidas de Singapura

 

O Ouro Negro

Ela está em quase toda mesa do mundo, num moedor ou num saleiro ao lado do sal. É tão comum que é difícil imaginar que, durante séculos, a Pimenta-do-reino foi uma das mercadorias mais caras do planeta.

Por causa dela, navios romanos cruzavam o Oceano Índico todos os anos, e rei godo exigiu toneladas dela para poupar Roma. Os portugueses contornaram a África atrás dela. No século 20, 20 mudas trazidas por imigrantes japoneses fizeram do interior do Pará um dos maiores centros produtores do mundo.

Esta é a história do grão escuro e picante que moveu impérios e acabou no moedor de todas as cozinhas.

 

Piper nigrum — Uma Trepadeira do Malabar

A Pimenta-do-reino, Piper nigrum, pertence à família Piperaceae. É uma trepadeira perene que sobe em árvores ou estacas e produz cachos compridos de pequenos frutos redondos.

Ela é nativa da costa do Malabar, no sudoeste da Índia, onde hoje fica o estado de Kerala. Ali, a planta foi domesticada, enquanto no nordeste indiano se domesticava uma parente, a Pimenta-longa, Piper longum.

Pimenta preta, branca, verde e vermelha são o mesmo fruto. A verde é colhida imatura. A preta é colhida ainda verde e seca ao sol, quando a casca escurece e enruga. A branca é o grão sem casca, e a vermelha é o fruto maduro.

 

A Piper nigrum é uma trepadeira — a Pimenta preta, a branca e a verde são o mesmo fruto, processado de formas diferentes

 

De Ramsés II ao Resgate de Roma

Quando o faraó Ramsés II morreu, em 1213 antes da era comum, grãos de Pimenta-do-reino foram colocados em suas narinas durante a mumificação. É um dos registros mais antigos da especiaria fora da Índia.

Depois que Roma conquistou o Egito, no ano 30 antes da era comum, o comércio explodiu. O geógrafo Estrabão registrou que 120 navios partiam todo ano para a Índia, rumo a portos como Muzíris, no Malabar. Em Roma, havia armazéns só para a pimenta, os horrea piperataria. Plínio, o Velho, reclamava que o comércio com o Oriente drenava 50 milhões de sestércios por ano.

Em 408, o rei godo Alarico cercou Roma e exigiu, entre outros tesouros, 3.000 libras de pimenta para levantar o cerco. Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calicute, no Malabar, e abriu a rota marítima portuguesa das especiarias.

 

Piperina, Espirros e a Cúrcuma

A ardência da Pimenta-do-reino vem da piperina, que ativa o mesmo receptor de calor e dor estimulado pela capsaicina das pimentas vermelhas, embora com intensidade muito menor. O aroma vem de óleos voláteis na casca, que se perdem rapidamente depois que o grão é moído.

A piperina também interfere na forma como o corpo absorve outras substâncias. Um estudo de 1998 mostrou que ela aumentou em cerca de 20 vezes a absorção da curcumina, o composto da Cúrcuma, em voluntários humanos. Por isso muitos suplementos de Cúrcuma incluem pimenta.

O espirro provocado pela pimenta moída vem da piperina e de partículas finas que irritam as terminações nervosas do nariz.

 

Nativa da costa do Malabar, no sul da Índia, a Pimenta-do-reino é plantada hoje no Vietnã e, no Brasil, no Espírito Santo e no Pará

 

Trikatu, Múmias e o Aluguel de um Grão

Na medicina ayurvédica da Índia, a Pimenta-do-reino faz parte do trikatu, os 3 picantes, uma combinação com a Pimenta-longa e o Gengibre usada para estimular a digestão.

No Egito, os grãos nas narinas de Ramsés II mostram que a pimenta tinha valor nos rituais funerários, embora os estudiosos não saibam exatamente qual.

Na Europa medieval, a pimenta era tão valiosa que servia como moeda e dote. Na Inglaterra, surgiu a expressão peppercorn rent, aluguel de um grão de pimenta, para contratos em que o pagamento era apenas simbólico. O termo ainda é usado no direito inglês.

 

Por que Pimenta “do Reino”

Pimenta-do-reino não é pimenta no sentido botânico que os brasileiros costumam usar. As pimentas vermelhas, como a Malagueta e a Dedo-de-moça, são do gênero Capsicum, da família do Tomate, nativas das Américas. A Pimenta-do-reino é de outra família, da Ásia.

A explicação mais repetida para o nome é que, no Brasil colonial, a especiaria chegava de Portugal, o Reino, para diferenciá-la das pimentas nativas.

Outro segredo está no moedor: grãos inteiros guardam o aroma por muito tempo, mas a pimenta moída perde boa parte dos seus óleos voláteis em poucas semanas.

 

Em 408, Alarico exigiu 3.000 libras de Pimenta como parte do resgate para não saquear Roma

 

Tomé-Açu e o Diamante Negro

Em 1929, 42 famílias japonesas chegaram a Tomé-Açu, no Pará. Em 1933, numa escala em Singapura, imigrantes japoneses compraram 20 mudas de Pimenta-do-reino, uma planta pouco conhecida no Brasil. Depois da Segunda Guerra Mundial, a pimenta virou o diamante negro da região, com colheitas de até 5 mil toneladas por ano.

Na década de 1970, uma doença, a fusariose, devastou os pimentais. Os agricultores diversificaram as roças com Cacau, Açaí e outras frutas em sistemas agroflorestais, hoje reconhecidos como modelo de agricultura sustentável na Amazônia.

O Brasil é hoje o 2º maior exportador de Pimenta-do-reino do mundo, atrás do Vietnã. Espírito Santo e Pará respondem pela maior parte das exportações.

 

A Especiaria que Virou Tempero de Todo Dia

A Pimenta-do-reino já foi luxo de faraós, drenou o tesouro de Roma, serviu de resgate e de aluguel, e levou os portugueses à Índia. Hoje, custa pouco e está em qualquer cozinha.

No caminho, deixou o Malabar e ganhou raízes na Amazônia, por obra de imigrantes que atravessaram meio mundo. Poucas especiarias contam tão bem a história do comércio global quanto este pequeno grão enrugado.

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Fontes

  • World History Encyclopedia. Pepper. Link
  • Shoba, G. et al. Influence of piperine on the pharmacokinetics of curcumin in animals and human volunteers. Planta Medica, 1998. Link
  • Portal Amazônia. Torii do Pará: a força da imigração japonesa que transformou Tomé-Açu. Link
  • DatamarNews. Brazil becomes the world’s second largest exporter of black pepper. Link

 

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