O Ouro Negro
Ela está em quase toda mesa do mundo, num moedor ou num saleiro ao lado do sal. É tão comum que é difícil imaginar que, durante séculos, a Pimenta-do-reino foi uma das mercadorias mais caras do planeta.
Por causa dela, navios romanos cruzavam o Oceano Índico todos os anos, e rei godo exigiu toneladas dela para poupar Roma. Os portugueses contornaram a África atrás dela. No século 20, 20 mudas trazidas por imigrantes japoneses fizeram do interior do Pará um dos maiores centros produtores do mundo.
Esta é a história do grão escuro e picante que moveu impérios e acabou no moedor de todas as cozinhas.
Piper nigrum — Uma Trepadeira do Malabar
A Pimenta-do-reino, Piper nigrum, pertence à família Piperaceae. É uma trepadeira perene que sobe em árvores ou estacas e produz cachos compridos de pequenos frutos redondos.
Ela é nativa da costa do Malabar, no sudoeste da Índia, onde hoje fica o estado de Kerala. Ali, a planta foi domesticada, enquanto no nordeste indiano se domesticava uma parente, a Pimenta-longa, Piper longum.
Pimenta preta, branca, verde e vermelha são o mesmo fruto. A verde é colhida imatura. A preta é colhida ainda verde e seca ao sol, quando a casca escurece e enruga. A branca é o grão sem casca, e a vermelha é o fruto maduro.
De Ramsés II ao Resgate de Roma
Quando o faraó Ramsés II morreu, em 1213 antes da era comum, grãos de Pimenta-do-reino foram colocados em suas narinas durante a mumificação. É um dos registros mais antigos da especiaria fora da Índia.
Depois que Roma conquistou o Egito, no ano 30 antes da era comum, o comércio explodiu. O geógrafo Estrabão registrou que 120 navios partiam todo ano para a Índia, rumo a portos como Muzíris, no Malabar. Em Roma, havia armazéns só para a pimenta, os horrea piperataria. Plínio, o Velho, reclamava que o comércio com o Oriente drenava 50 milhões de sestércios por ano.
Em 408, o rei godo Alarico cercou Roma e exigiu, entre outros tesouros, 3.000 libras de pimenta para levantar o cerco. Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calicute, no Malabar, e abriu a rota marítima portuguesa das especiarias.
Piperina, Espirros e a Cúrcuma
A ardência da Pimenta-do-reino vem da piperina, que ativa o mesmo receptor de calor e dor estimulado pela capsaicina das pimentas vermelhas, embora com intensidade muito menor. O aroma vem de óleos voláteis na casca, que se perdem rapidamente depois que o grão é moído.
A piperina também interfere na forma como o corpo absorve outras substâncias. Um estudo de 1998 mostrou que ela aumentou em cerca de 20 vezes a absorção da curcumina, o composto da Cúrcuma, em voluntários humanos. Por isso muitos suplementos de Cúrcuma incluem pimenta.
O espirro provocado pela pimenta moída vem da piperina e de partículas finas que irritam as terminações nervosas do nariz.
Trikatu, Múmias e o Aluguel de um Grão
Na medicina ayurvédica da Índia, a Pimenta-do-reino faz parte do trikatu, os 3 picantes, uma combinação com a Pimenta-longa e o Gengibre usada para estimular a digestão.
No Egito, os grãos nas narinas de Ramsés II mostram que a pimenta tinha valor nos rituais funerários, embora os estudiosos não saibam exatamente qual.
Na Europa medieval, a pimenta era tão valiosa que servia como moeda e dote. Na Inglaterra, surgiu a expressão peppercorn rent, aluguel de um grão de pimenta, para contratos em que o pagamento era apenas simbólico. O termo ainda é usado no direito inglês.
Por que Pimenta “do Reino”
Pimenta-do-reino não é pimenta no sentido botânico que os brasileiros costumam usar. As pimentas vermelhas, como a Malagueta e a Dedo-de-moça, são do gênero Capsicum, da família do Tomate, nativas das Américas. A Pimenta-do-reino é de outra família, da Ásia.
A explicação mais repetida para o nome é que, no Brasil colonial, a especiaria chegava de Portugal, o Reino, para diferenciá-la das pimentas nativas.
Outro segredo está no moedor: grãos inteiros guardam o aroma por muito tempo, mas a pimenta moída perde boa parte dos seus óleos voláteis em poucas semanas.
Tomé-Açu e o Diamante Negro
Em 1929, 42 famílias japonesas chegaram a Tomé-Açu, no Pará. Em 1933, numa escala em Singapura, imigrantes japoneses compraram 20 mudas de Pimenta-do-reino, uma planta pouco conhecida no Brasil. Depois da Segunda Guerra Mundial, a pimenta virou o diamante negro da região, com colheitas de até 5 mil toneladas por ano.
Na década de 1970, uma doença, a fusariose, devastou os pimentais. Os agricultores diversificaram as roças com Cacau, Açaí e outras frutas em sistemas agroflorestais, hoje reconhecidos como modelo de agricultura sustentável na Amazônia.
O Brasil é hoje o 2º maior exportador de Pimenta-do-reino do mundo, atrás do Vietnã. Espírito Santo e Pará respondem pela maior parte das exportações.
A Especiaria que Virou Tempero de Todo Dia
A Pimenta-do-reino já foi luxo de faraós, drenou o tesouro de Roma, serviu de resgate e de aluguel, e levou os portugueses à Índia. Hoje, custa pouco e está em qualquer cozinha.
No caminho, deixou o Malabar e ganhou raízes na Amazônia, por obra de imigrantes que atravessaram meio mundo. Poucas especiarias contam tão bem a história do comércio global quanto este pequeno grão enrugado.
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Fontes
- World History Encyclopedia. Pepper. Link
- Shoba, G. et al. Influence of piperine on the pharmacokinetics of curcumin in animals and human volunteers. Planta Medica, 1998. Link
- Portal Amazônia. Torii do Pará: a força da imigração japonesa que transformou Tomé-Açu. Link
- DatamarNews. Brazil becomes the world’s second largest exporter of black pepper. Link

