Louro: A Árvore de Apolo que Coroava Vencedores e Protegia de Raios

Das florestas de louros que cobriam o sul da Europa há milhões de anos às coroas dos Jogos Píticos, dos poetas laureados e dos generais romanos, o Louro é a folha que honrou vencedores, purificou a boca da Pítia em Delfos e ainda tempera o feijão brasileiro

 

A Folha da Vitória

Poucas plantas deixaram marcas tão fundas na língua. Quem ganha um prêmio é laureado. Quem descansa sobre os louros, para de se esforçar depois da vitória. Nas universidades, a tradição das coroas de folhas ainda aparece nas cerimônias de formatura.

Tudo isso vem de uma árvore do Mediterrâneo, de folhas duras e aromáticas, que os gregos consagraram a Apolo. Com ela se coroavam atletas, poetas, generais e imperadores, e um imperador romano a usava para se proteger de raios.

Na cozinha, a mesma folha vai para a panela de feijão em quase toda casa brasileira. Esta é a história do Louro, a planta que transformou folhas em honra.

 

Laurus nobilis — Sobrevivente de Florestas Antigas

O Louro, Laurus nobilis, pertence à família Lauraceae, a mesma da Canela e do Abacate. É uma árvore ou arbusto perene, de folhas lisas, duras e aromáticas, e pequenas flores amarelas. Existem pés machos e pés fêmeas, e só as fêmeas dão os frutos, pequenas bagas escuras.

O gênero Laurus tem 3 espécies: o Louro do Mediterrâneo e 2 parentes das ilhas do Atlântico, nos Açores, na Madeira e nas Canárias.

O Louro é um sobrevivente. Há milhões de anos, florestas de louros cobriam boa parte do sul da Europa e do norte da África. As glaciações as reduziram a refúgios, e a Laurissilva da Madeira, patrimônio mundial da UNESCO desde 1999, é um dos maiores restos desse tipo de floresta.

 

O Laurus nobilis é da família Lauraceae, a mesma do Abacate e da Canela — existem pés machos e fêmeas separados

 

Delfos, Roma e as Universidades

Na mitologia grega, a ninfa Dafne, perseguida por Apolo, pediu ajuda ao pai, um deus-rio, e foi transformada em um Loureiro. Apolo adotou a árvore como sua. Dáphne é o nome grego do Louro.

Em Delfos, o santuário de Apolo, a Pítia, sacerdotisa que falava pelo deus, usava ramos de Louro nos rituais. Nos Jogos Píticos, disputados em honra a Apolo, os vencedores recebiam coroas de Louro, e não de oliveira, como em Olímpia.

Em Roma, os generais vitoriosos desfilavam coroados de Louro nos triunfos. Em 1315, na Universidade de Pádua, o historiador Albertino Mussato recebeu uma coroa de Louro, e a tradição chegou às universidades. Em 1668, John Dryden se tornou o primeiro poeta laureado oficial da Inglaterra.

 

Cineol, Eugenol e o Sabor que Nem Todos Sentem

As folhas de Louro têm mais de 50 compostos aromáticos. O principal é o 1,8-cineol, que responde por 30% a 56% do óleo essencial e tem um aroma fresco, parecido com o da cânfora e do eucalipto. Também aparecem o eugenol, com nota de cravo, e o linalol, floral.

Uma revisão publicada pela Universidade de Oxford lembra que o papel do Louro na cozinha é controverso: há cozinheiros que juram que ele dá profundidade ao prato e outros que dizem que não muda nada. Parte da explicação pode estar no nariz: segundo o estudo, cerca de um terço das pessoas não consegue perceber o 1,8-cineol.

A folha seca perde aroma com o tempo, e congelada conserva melhor o sabor.

 

Na mitologia grega, a ninfa Dafne virou um Loureiro para escapar de Apolo, que adotou a planta como símbolo

 

Dafne, a Pítia e o Escudo contra Raios

Os antigos acreditavam que o Louro tinha poderes de proteção e purificação. Em Delfos, a Pítia não mascava as folhas para entrar em transe, como se repetiu por muito tempo. Estudiosos apontam que ela as usava para purificar a boca antes de profetizar.

Segundo o historiador romano Suetônio, o imperador Tibério usava uma coroa de Louro sempre que o céu ameaçava tempestade, porque se acreditava que essa árvore nunca era atingida por raios. O mesmo autor conta que Júlio César gostava da coroa de Louro também porque ela escondia sua calvície.

Na língua, o símbolo sobreviveu: laureado, laurear e, segundo uma etimologia popular, bacharel, do latim baccalaureus, ligado à baga do Louro.

 

O Louro que Não É Louro

O nome Louro é dado a várias plantas diferentes, e algumas são perigosas. O Louro-cereja, Prunus laurocerasus, muito usado em cercas vivas na Europa, tem folhas parecidas, mas é da família das Rosas e contém compostos que liberam cianeto. Não deve ir para a panela.

No Brasil, Louro também é nome de árvores madeireiras nativas, como o Louro-pardo, Cordia trichotoma, sem parentesco com o Louro do tempero.

Outra curiosidade: só os pés fêmeas dão frutos. As bagas do Louro são oleosas, e na Síria o óleo de Louro é tradicionalmente usado junto com o azeite no sabão de Alepo.

 

A coroa de Louro premiava os vencedores dos Jogos Píticos, em honra a Apolo — e deu origem à palavra laureado

 

Feijão com Louro

Na cozinha brasileira, a folha de Louro é presença quase obrigatória no feijão, na feijoada, nos ensopados e nas carnes de panela. A tradição veio de Portugal, onde o Louro tempera carnes, peixes e o bacalhau.

Na culinária do Mediterrâneo, ele entra no bouquet garni francês, nos molhos de tomate italianos e nos marinados gregos e turcos. A Turquia está entre os grandes exportadores de folhas secas de Louro.

A folha deve ser retirada antes de servir: é dura, não amolece no cozimento e pode machucar se engolida inteira.

 

A Coroa que Ainda Vale

O Louro sobreviveu às glaciações em refúgios do Mediterrâneo e das ilhas do Atlântico, virou a árvore de Apolo, coroou atletas, generais, poetas e mestres, e deu à língua as palavras da vitória.

Hoje, ele protege menos de raios e mais do feijão sem graça. Ainda assim, cada folha jogada na panela carrega um pouco dessa história de honra que começou com uma ninfa fugindo de um deus.

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Fontes

  • Wikipedia. Laurus. Link
  • UNESCO. Laurisilva of Madeira. Link
  • Universidade de Helsinque. Blood, a tree and the sun: the myth-filled history of the laurel wreath. Link
  • Universidade de Oxford (ORA). Why cook with bay leaves? Link
  • Antiquitatem. Crowned with laurel. Link

 

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