Cânhamo — Uma Planta de Muitas Faces
A Cannabis carrega histórias muito diferentes entre si. A mesma espécie deu fibras para cordas, velas de navio e papel, sementes para alimento e óleo, resina para rituais religiosos e, mais recentemente, remédios aprovados por agências de saúde. Também virou alvo de proibições, debates políticos e decisões judiciais, inclusive no Brasil.
A Cannabis acompanha a humanidade há milhares de anos. Foi domesticada no leste da Ásia, viajou pela Rota da Seda, entrou nos textos sagrados da Índia e chegou às Américas com os navios europeus e com os africanos escravizados. Pelo caminho, ganhou nomes como cânhamo, maconha, diamba, ganja e haxixe.
Esta é a história de uma planta que foi corda e remédio, sacramento e crime, e que hoje volta ao centro da ciência e da lei, em laboratórios, farmácias e tribunais.
Cannabaceae — A Prima do Lúpulo Domesticada na Ásia
A Cannabis pertence à espécie Cannabis sativa, da família Cannabaceae, a mesma do Lúpulo, que dá amargor e aroma à cerveja. É uma planta anual e geralmente dioica: há plantas masculinas e plantas femininas. As flores femininas produzem a resina rica em canabinoides. Em boas condições, o cânhamo pode passar de 4 metros de altura, e suas sementes, ricas em proteína e óleo, são usadas como alimento.
Em 2021, um estudo publicado na revista Science Advances analisou 110 genomas de plantas selvagens, variedades tradicionais e híbridos modernos. A conclusão foi que a Cannabis foi domesticada há cerca de 12 mil anos no leste da Ásia, e que as plantas selvagens encontradas hoje na China são as descendentes mais próximas do grupo ancestral.
Durante milhares de anos, a planta teve usos múltiplos. Segundo o mesmo estudo, só por volta de 4 mil anos atrás surgiram linhagens especializadas: de um lado, o cânhamo, de caule alto e fibroso; de outro, plantas mais baixas e ramificadas, selecionadas pela resina.
Yangshao — Das Cordas da China às Velas dos Navios
Na China, marcas de fibra de cânhamo aparecem em cerâmicas da cultura Yangshao, do 5º milênio antes da era comum. Os chineses usaram o cânhamo para fazer roupas, sapatos, cordas e uma forma antiga de papel. A planta se espalhou pela Ásia Central e chegou à Índia, ao Oriente Médio e à Europa.
No século 5 antes da era comum, o historiador grego Heródoto descreveu os citas jogando sementes de Cannabis sobre pedras quentes, dentro de tendas, e se divertindo com a fumaça. Os assírios chamavam a planta de qunabu, nome que pode estar na origem da palavra Cannabis.
Na era das navegações, o cânhamo virou material estratégico. Cordas e velas de navio eram feitas com sua fibra resistente, e a palavra inglesa canvas, lona, vem de Cannabis. Reinos europeus incentivavam o cultivo para abastecer suas frotas. No mundo islâmico medieval, a resina prensada, o haxixe, também se difundiu, e aparece em relatos e poemas da época.
Canabinoides — A Química que a Ciência Decifrou
A resina da Cannabis contém dezenas de canabinoides. Os mais conhecidos são o THC, o tetra-hidrocanabinol, responsável pelos efeitos psicoativos, e o CBD, o canabidiol, que não provoca o mesmo efeito. O químico israelense Raphael Mechoulam descreveu a estrutura do CBD em 1963 e isolou o THC em 1964, com Yehiel Gaoni.
Essas descobertas levaram a outra. Os cientistas perceberam que o corpo humano tem receptores próprios para essas moléculas e produz substâncias parecidas. Em 1992, o grupo de Mechoulam identificou a anandamida, o primeiro endocanabinoide conhecido. O sistema endocanabinoide participa da regulação da dor, do humor, do sono e do apetite.
Em 2018, a agência americana FDA aprovou o primeiro remédio à base de CBD purificado, para formas graves e raras de epilepsia infantil. Outros usos ainda estão em estudo, e médicos alertam que a planta e seus derivados também têm riscos, especialmente para adolescentes e pessoas com histórico de transtornos mentais.
Bhang — A Planta de Shiva e dos Rastafáris
Na Índia, a Cannabis aparece em textos religiosos antigos, como o Atharva Veda, que a cita entre plantas sagradas. Até hoje, muitos hindus preparam o bhang, uma bebida feita com folhas e flores moídas, leite e especiarias, consumida em festas como o Holi e o Maha Shivaratri, dedicado ao deus Shiva. Em várias regiões da Índia, o bhang é vendido e consumido abertamente nessas festas.
Na Ásia Central, arqueólogos encontraram no cemitério de Jirzankal, nas montanhas do Pamir, braseiros de madeira com resíduos de Cannabis queimada, de cerca de 2.500 anos. Os vestígios indicam uso ritual de plantas com teor de THC mais alto que o das selvagens.
Na Jamaica, a partir dos anos 1930, o movimento rastafári adotou a ganja como sacramento, usada em rituais de meditação e oração. O nome ganja vem do sânscrito, herança dos trabalhadores indianos levados ao Caribe no século 19. Na África do Sul, a planta ficou conhecida como dagga e entrou em tradições de diferentes povos.
Pito do Pango — A Proibição de 1830 no Rio
A palavra maconha tem origem africana, provavelmente no quimbundo, língua de Angola. No Brasil colonial e imperial, a planta também era chamada de diamba e de fumo-de-angola, e seu uso estava ligado a africanos escravizados e seus descendentes.
Em 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro proibiu a venda e o uso do pito do pango, como era chamada a Cannabis fumada. A pena era mais dura para os escravizados que para os vendedores. Historiadores consideram a lei uma das primeiras proibições da planta no mundo, com forte marca racial.
Nos Estados Unidos, a proibição ganhou força nos anos 1930, sob Harry Anslinger, que usou argumentos racistas contra imigrantes mexicanos e negros. Em 1961, a Convenção Única sobre Entorpecentes da ONU levou a proibição a dezenas de países. Em 2020, a Comissão de Entorpecentes da ONU retirou a Cannabis da lista das substâncias consideradas mais perigosas, reconhecendo seu potencial medicinal.
Anvisa — Do Cânhamo Colonial ao Debate Atual
No Brasil, a Cannabis voltou à pauta pelo uso medicinal. Em 2015, a Anvisa passou a autorizar a importação de produtos com canabidiol por pacientes, e em 2017 registrou o primeiro remédio à base de Cannabis no país. Em 2019, novas regras permitiram a venda de produtos de Cannabis em farmácias, com receita médica.
Em junho de 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu que portar até 40 gramas de maconha ou até 6 plantas fêmeas para uso pessoal não é crime, mas infração administrativa. Vender, transportar e traficar continuam sendo crimes.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse pelo cânhamo industrial, de baixo teor de THC, usado em tecidos, materiais de construção, papel e alimentos. Muitos países já cultivam a planta para esses fins. No Brasil, a ideia não é nova: no fim do século 18, a Coroa portuguesa criou no Rio Grande do Sul a Real Feitoria do Linho Cânhamo, para produzir fibra para cordas e velas.
Semente — Uma Planta Entre a Ciência e a Lei
A Cannabis foi domesticada no leste da Ásia há cerca de 12 mil anos e acompanhou a humanidade como fibra, alimento, remédio e planta sagrada. Do cânhamo dos navios ao bhang de Shiva, sua história atravessa continentes.
Nos séculos 19 e 20, virou alvo de proibições marcadas pelo racismo. Hoje, a ciência estuda seus canabinoides e o sistema endocanabinoide, enquanto leis e tribunais redesenham seu lugar na sociedade. A Cannabis mostra como a relação humana com uma planta pode ser, ao mesmo tempo, questão de botânica, de cultura e de política. Entender sua história ajuda a separar fatos de mitos, tanto os que exageram seus benefícios quanto os que alimentaram preconceitos por quase 2 séculos.
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Fontes
- Ren et al. Large-scale whole-genome resequencing unravels the domestication history of Cannabis sativa (Science Advances, 2021)
- Phys.org: Cannabis first domesticated 12,000 years ago
- History of cannabis (Wikipedia)
- Raphael Mechoulam (Wikipedia)
- Cannabis in Brazil (Wikipedia)
- STF define 40 gramas de maconha como critério para diferenciar usuário de traficante

