Perfume — Uma Flor que Não É Jasmim
O Jasmim-manga engana pelo nome. Não é um jasmim verdadeiro, nem tem parentesco com a manga. É uma árvore de tronco grosso e galhos que parecem esculpidos, que perde as folhas na época fria e se cobre de flores perfumadas nas pontas dos ramos.
Essa planta saiu das terras quentes do México e da América Central e se espalhou pelos trópicos do mundo. Virou colar no Havaí, oferenda em templos da Ásia, flor nacional de 2 países e árvore de quintal em todo o Brasil, sempre lembrada pelo perfume doce das flores, que muda de uma variedade para outra.
Esta é a história da Plumeria rubra, a árvore que os astecas chamavam de flor do corvo, que engana mariposas com um néctar que não existe, que alimenta uma lagarta gigante capaz de suportar seu látex tóxico e cujo nome em inglês, frangipani, tem uma origem cercada de histórias duvidosas.
Plumier — Um Monge Botânico no Nome do Gênero
O Jasmim-manga pertence à família das Apocináceas, a mesma da espirradeira e da alamanda. O gênero Plumeria reúne 18 espécies aceitas e 1 híbrido natural. O nome foi dado em 1700 pelo botânico francês Joseph Pitton de Tournefort, em homenagem a Charles Plumier, monge franciscano e botânico real de Luís XIV, que explorou as Américas tropicais.
O nome da espécie, rubra, vem do latim ruber, que quer dizer vermelho, a cor da forma típica. Mas as flores podem ser rosadas, brancas ou amarelas, muitas vezes com o centro amarelo. No Brasil, a árvore é conhecida como jasmim-manga e também como frangipani.
A Plumeria rubra é nativa de uma faixa que vai da Baixa Califórnia, passando pelo centro do México e pela América Central, até Antioquia, na Colômbia, e a Venezuela. Hoje, é cultivada em regiões tropicais e subtropicais do mundo todo e se tornou naturalizada em boa parte da Ásia tropical e das ilhas do Pacífico.
Cacaloxóchitl — Da Mesoamérica às Ilhas do Pacífico
No México, a planta ainda é chamada de cacaloxóchitl, nome que vem do náuatle, a língua dos astecas, e significa flor do corvo. Os maias associavam essas flores a divindades da vida e da fertilidade. Entre os astecas, os nobres plantavam a árvore em seus jardins, e ela era sinal de status.
A viagem pelo mundo começou no século 16. A planta chegou às Filipinas por volta dos anos 1560, durante o domínio espanhol, e de lá seguiu para a Indonésia e a Malásia. No fim do século 19, foi introduzida em várias ilhas do Pacífico, onde passou a fazer parte da paisagem e das tradições locais.
No Havaí, a chegada tem data e nome. Em 1860, o naturalista alemão William Hillebrand levou a planta para as ilhas. A primeira variedade cultivada tinha flores amarelas e, por durar muito e exigir pouco cuidado, foi muito plantada em cemitérios. Por isso, ganhou o apelido de Graveyard Yellow, o amarelo de cemitério.
Tronco — Galhos Suculentos e Leite Branco
O Jasmim-manga é um arbusto ou uma árvore pequena, em geral com 2 a 8 metros de altura e copa quase tão larga quanto. O tronco é grosso e suculento, e os galhos rombudos, meio quebradiços, soltam um látex branco quando se partem. A casca é fina e acinzentada.
As folhas são grandes, com até 30 a 50 centímetros, agrupadas nas pontas dos ramos, e caem nos meses mais frios. As flores aparecem também nas pontas, têm 5 pétalas e medem de 5 a 7,5 centímetros. Antes de abrir, têm forma de tubo. Na planta cultivada, raramente formam frutos, vagens cilíndricas com 20 a 60 sementes aladas.
A árvore gosta de sol pleno e de solo bem drenado, tolera ventos com sal, mas sofre em terra encharcada. Abaixo de 10 °C no inverno, para de florescer e perde as folhas. É fácil de multiplicar por estacas, cortadas nos meses mais frescos e deixadas secando por 1 semana ou mais antes do plantio.
Engano — O Perfume Sem Recompensa
O perfume do Jasmim-manga tem uma função precisa. Ele fica mais forte no fim da tarde e à noite, justamente nas horas em que as mariposas da família dos esfingídeos estão mais ativas. São elas as principais polinizadoras da planta, atraídas de longe pelo aroma das flores.
O curioso é que as flores produzem pouco ou nenhum néctar. As mariposas chegam em busca de alimento, enfiam a longa probóscide no tubo da flor e não encontram nada. Nesse movimento, porém, levam o pólen de uma flor para outra. Os botânicos chamam essa estratégia de polinização por engano.
O formato da flor ajuda nesse truque. O tubo longo da corola combina com a probóscide comprida das mariposas, e o pólen passa para o inseto enquanto ele sonda o fundo da flor em busca de alimento. Assim, a planta garante a polinização sem gastar energia produzindo néctar. Para nós, o resultado é o perfume que toma conta dos quintais ao anoitecer.
Lagarta — A Gigante que Come Folhas Tóxicas
O látex do Jasmim-manga é venenoso e pode irritar a pele, os olhos e as mucosas. O Serviço Florestal dos Estados Unidos classifica a planta como venenosa e recomenda não tocar nem comer nenhuma parte dela. Mesmo assim, um animal aprendeu a se alimentar de suas folhas.
É a lagarta da mariposa Pseudosphinx tetrio, que vive das Américas do sul dos Estados Unidos até o Brasil. Ela pode passar de 15 centímetros, é preta com faixas amarelas, cabeça vermelho-alaranjada e um chifre preto de cerca de 2 centímetros na parte de trás. Essas cores servem de aviso para os predadores.
A lagarta consegue lidar com o látex venenoso da planta, o que a torna desagradável para a maioria dos predadores. Cada uma pode comer 3 folhas grandes por dia e, quando a folhagem acaba, passa para os galhos. Mesmo assim, a desfolha geralmente não mata a árvore, e as lagartas podem ser retiradas à mão.
Lei — Colares, Templos e Flores Nacionais
No Havaí, onde é chamada de melia, a flor virou um dos colares mais populares. Em 2005, mais de 14 milhões de flores foram vendidas para a confecção de leis nas ilhas. Na Ásia, a árvore é plantada em templos hindus e budistas e em cemitérios, e simboliza devoção, eternidade e renascimento.
Em Bali, as flores vão para as oferendas dos templos. Na Índia, dão perfume ao incenso champa e, nos Gates Ocidentais de Karnataka, viram guirlandas trocadas em casamentos. No Sri Lanka, a planta se chama araliya, ou flor do templo. No Laos, é a flor nacional, a dok champa, e na Nicarágua também, desde 1971, com o nome de sacuanjoche.
Até o nome frangipani tem história. Uma versão diz que viria de um marquês da família italiana Frangipani, que teria criado um perfume com aroma parecido. Outra, publicada em 1867 pelo perfumista Septimus Piesse, falava de um tripulante de Colombo chamado Mercutio Frangipani. Segundo a Wikipedia, essa segunda história foi inventada para promover seus produtos.
Quintal — Uma Árvore que Perfuma os Trópicos
O Jasmim-manga é uma planta de nome enganoso e perfume verdadeiro. Saiu das terras da Mesoamérica, onde foi flor de nobres astecas e de divindades maias, e se espalhou pelas Filipinas, pela Ásia e pelas ilhas do Pacífico.
Ao longo do caminho, virou amarelo de cemitério e colar de boas-vindas no Havaí, oferenda em Bali, flor nacional do Laos e da Nicarágua. No Brasil, cresce de Norte a Sul, em quintais, praças e calçadas. Seu perfume noturno engana mariposas, e seu látex venenoso não impede a lagarta que aprendeu a comer suas folhas. Quem planta um Jasmim-manga deve apenas lembrar que é uma árvore para admirar e cheirar, não para comer.
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