Confusão — Duas Plantas com o Mesmo Nome
No Brasil, a palavra Amora serve para 2 plantas bem diferentes. Uma é a amoreira, árvore do gênero Morus, da família das Moráceas, a mesma do Figo e da Jaca. A outra é a amora-preta, um arbusto espinhento do gênero Rubus, da família das Rosáceas, a mesma do Morango e da Framboesa.
As frutas também são diferentes por dentro. A da amoreira é um fruto múltiplo, formado por várias flores. A da amora-preta é um fruto agregado, formado por várias pequenas drupas de uma só flor. As duas tingem os dedos e lembram infância em muitos quintais. Neste texto, as 2 aparecem.
Esta é a história das amoras, da árvore que alimenta o bicho-da-seda, inseto contrabandeado para o Império Bizantino, que ganhou cor num mito contado por Ovídio e hoje sustenta o Vale da Seda no Paraná, e do arbusto que a Embrapa transformou em lavoura.
Amoreira — Uma Árvore de 3 Continentes
O gênero Morus já recebeu mais de 150 nomes de espécies, mas a maioria dos botânicos aceita menos de 20. As mais conhecidas vêm de lugares distantes. A Morus nigra, a amoreira-negra, é nativa do sudoeste da Ásia. A Morus alba, a amoreira-branca, é do leste da Ásia. A Morus rubra, a amoreira-vermelha, é nativa do leste da América do Norte, onde cresce em florestas.
O fruto mede cerca de 2 a 3 centímetros e lembra uma pequena espiga de bolinhas. Ele nasce de um cacho de flores, e cada bolinha corresponde a uma delas. Por isso, a amora da amoreira é chamada de fruto múltiplo.
A amoreira-branca se espalhou tanto que virou problema em alguns lugares. Na América do Norte, é considerada uma espécie exótica invasora, que ocupou grandes áreas, inclusive terras da amoreira-vermelha nativa. Em outras regiões, a mesma espécie foi plantada justamente por causa da seda, como se verá adiante.
Seda — Os Monges que Esconderam Ovos em Bengalas
A amoreira tem um papel especial na história da seda. A lagarta do bicho-da-seda, Bombyx mori, se alimenta de folhas de amoreira durante cerca de 28 dias, antes de tecer o casulo. Cada casulo pode render até 1.000 metros de fio.
Por séculos, a China guardou o segredo da seda. Segundo o relato tradicional, por volta de 552 da era comum, 2 monges, provavelmente da Igreja Nestoriana, procuraram o imperador bizantino Justiniano I. Com contatos na Sogdiana, na Ásia Central, conseguiram ovos ou larvas muito novas do bicho-da-seda e os levaram escondidos dentro de bengalas de bambu.
A partir daí, surgiram fábricas de seda em Constantinopla, Beirute, Antioquia, Tiro e Tebas. O monopólio bizantino da seda sustentou a economia do Império Romano do Oriente por cerca de 650 anos, até 1204. Bem mais tarde, no século 17, a amoreira-negra foi levada à Grã-Bretanha com a esperança de criar ali uma indústria de seda.
Prudente — A Árvore que Espera o Inverno Acabar
O naturalista romano Plínio, o Velho, deu à amoreira um título curioso. Segundo ele, era a mais prudente de todas as árvores, porque espera o inverno passar de vez antes de soltar as folhas. Enquanto outras árvores arriscam brotar cedo e perdem os brotos na geada, a amoreira demora.
Essa fama atravessou séculos. Dicionários de expressões ingleses do século 19 ainda registravam a amoreira como a árvore prudente, citando Plínio. A espera tem um sentido prático na natureza. Uma árvore que brota tarde corre menos risco de ver suas folhas e flores queimadas pelo frio.
A planta também tem sua defesa química. O látex leitoso que escorre de todas as partes da amoreira, exceto da fruta madura, é levemente tóxico se ingerido e pode causar mal-estar digestivo. As frutas verdes podem provocar náusea e cólicas. Por isso, a amora boa para comer é aquela já escura e macia, que mancha os dedos.
Tisbe — O Sangue que Tingiu as Amoras
O poeta romano Ovídio contou, no livro 4 das Metamorfoses, a história de Píramo e Tisbe, 2 jovens da Babilônia. As famílias proibiam o namoro, e eles conversavam por uma fenda na parede entre as casas. Um dia, combinaram de se encontrar sob uma amoreira de frutos brancos.
Tisbe chegou primeiro, viu uma leoa com a boca suja de sangue e fugiu, deixando cair o manto. A leoa rasgou o manto. Quando Píramo chegou e encontrou o tecido rasgado, achou que Tisbe estava morta e se matou. Seu sangue escureceu os frutos da amoreira. Tisbe voltou, encontrou Píramo morto e também tirou a própria vida.
Para Ovídio, foi assim que as amoras ganharam a cor escura. A história atravessou os séculos. William Shakespeare fez uma paródia dela em Sonho de uma Noite de Verão, encenada por atores amadores, e Romeu e Julieta também nasceu desse mesmo enredo de amor proibido e mortes por engano.
Arbusto — A Amora-preta que Virou Lavoura
A amora-preta do gênero Rubus tem outra história. É um arbusto de ramos com espinhos, parente da Framboesa. No Brasil, a pesquisa com essa planta começou em 1972, na Estação Experimental de Pelotas, no Rio Grande do Sul, com uma coleção de plantas vindas da Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos.
A partir dessa coleção, a Embrapa criou cultivares adaptadas ao país. A mais importante é a Tupy, lançada no fim dos anos 1980. Depois vieram outras, como Ébano, Guarani, Caingangue, BRS Xavante, BRS Xingu e BRS Cainguá. A Tupy também foi levada ao México nos anos 1990 e ajudou a impulsionar a produção mexicana. Em 2007, o México já aparecia como o terceiro maior produtor de amora-preta do mundo, atrás dos Estados Unidos e da Sérvia.
Hoje, o Brasil não tem estatística oficial nacional para a fruta. As estimativas falam em cerca de 2 mil hectares somando amora-preta e mirtilo. O Rio Grande do Sul tinha 253 hectares em 2020, e São Paulo, Minas Gerais e Paraná também cultivam a fruta, além de plantios menores em outros estados.
Vale — A Seda do Norte do Paraná
A amoreira continua ligada à seda no Brasil. O Paraná responde por cerca de 85% da produção nacional de casulos, concentrada no norte do estado, numa região conhecida como Vale da Seda. Ali, as folhas das amoreiras alimentam as lagartas durante todo o ciclo de criação, do ovo ao casulo, que pode render até 1 quilômetro de fio.
A atividade é feita sobretudo por agricultores familiares. Em Londrina funciona a Fiação de Seda Bratac, descrita pelo governo do Paraná como a única fábrica de fio de seda em escala industrial do Ocidente. A empresa também tem certificação de produção têxtil orgânica.
O setor enfrenta desafios. Variações do clima e a deriva de agrotóxicos, quando produtos aplicados em lavouras vizinhas atingem as amoreiras, reduziram o número de famílias produtoras nas últimas décadas. Mesmo assim, a seda paranaense segue viva, apoiada por políticas do estado. Cada casulo depende de folhas de amoreira colhidas no dia a dia.
Fio — Uma Fruta, Duas Histórias
As amoras mostram como um nome pode esconder plantas diferentes. A amoreira é uma árvore que veio da Ásia e da América do Norte, alimenta o bicho-da-seda e foi chamada de prudente por Plínio. A amora-preta é um arbusto que a Embrapa adaptou ao Brasil e levou até o México.
Entre elas, há mitos, contrabandos e lavouras. Ovídio deu às amoras a cor do sangue de Píramo, monges esconderam ovos de bicho-da-seda em bengalas, e o norte do Paraná ainda tece fios com folhas de amoreira. Seja de árvore ou de arbusto, a amora segue manchando dedos e guardando histórias. Basta uma árvore no quintal para que ela volte a contar a sua, a cada primavera.
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