Hortênsia: A Flor Japonesa que Muda de Cor com o Solo

Do litoral do Japão às estradas de Gramado, a flor que vira azul ou rosa conforme o alumínio da terra, adoça o chá de Buda e carrega um nome que ainda é um mistério

 

Pompom — A Flor que Lê o Chão

Poucas plantas de jardim mudam de cor sem que ninguém mexa nelas. A Hortênsia muda. No mesmo canteiro, um arbusto pode dar flores azuis num ano e cor-de-rosa no outro, dependendo do que existe no solo onde cresce.

Essa flor nasceu em costas de clima úmido no Japão. Passou por jardins da China, por navios de comerciantes, por jardins na Inglaterra e por ilhas no meio do Atlântico. Chegou ao Brasil e virou símbolo de cidades inteiras na serra gaúcha.

Esta é a história da Hydrangea macrophylla, uma flor que funciona como um teste químico a céu aberto, que adoça o chá de Buda no Japão e que ganhou o nome de uma mulher que até hoje ninguém sabe ao certo quem era.

 

Ajisai — Os Arbustos da Costa Japonesa

A Hortênsia mais comum nos jardins, a Hydrangea macrophylla, é nativa do Japão. Em estado selvagem, cresce perto do mar, em bordas de floresta e campos da costa do Pacífico, na ilha de Honshu, e nas ilhas de Izu e Ogasawara. É um arbusto que pode passar de 2 metros de altura. Os japoneses a chamam de ajisai e a cultivam há séculos em jardins e templos.

O gênero Hydrangea reúne cerca de 70 a 100 espécies, espalhadas pelo leste da Ásia e pelas Américas. O nome vem do grego e significa algo como vaso de água, uma referência ao formato das pequenas cápsulas que guardam as sementes.

As partes coloridas que todo mundo chama de pétalas são, na verdade, sépalas de flores estéreis. As flores férteis, pequenas e discretas, ficam escondidas no meio. Na forma selvagem, chamada de lacecap, as flores estéreis formam só um anel em volta das férteis. Os grandes pompons redondos são resultado de séculos de seleção em jardins japoneses e chineses.

 

As "pétalas" coloridas da hortênsia são sépalas de flores estéreis — as flores verdadeiras, que dão sementes, são minúsculas e ficam escondidas no meio delas

 

Cantão — O Pompom que Atravessou os Mares

O primeiro ocidental a descrever a planta para a ciência foi o botânico sueco Carl Thunberg, que trabalhou para a Companhia Holandesa das Índias Orientais no Japão. Em 1784, em seu livro Flora Japonica, ele a classificou por engano como um Viburno. Só mais tarde ela foi colocada no gênero certo.

Por volta de 1789, Joseph Banks, que comandava os Jardins de Kew, em Londres, recebeu um pompom cultivado que provavelmente veio de comerciantes de Cantão, na China. Em menos de 10 anos, a planta já era muito comum nos jardins britânicos. Esse tipo ainda é cultivado e leva o nome de Joseph Banks.

Nos Açores, as hortênsias chegaram por volta de 1790 e se espalharam tanto que viraram cercas vivas azuis ao longo das estradas e dos pastos. Hoje, em algumas ilhas, a planta é tratada como invasora. Por volta de 1860, o médico alemão Philipp Franz von Siebold levou para a Europa uma variedade japonesa com uma história própria.

 

Alumínio — A Química do Azul e do Rosa

O pigmento das sépalas da Hortênsia é uma antocianina chamada delfinidina. Sozinha, ela dá tons de rosa e vermelho. O azul aparece quando a delfinidina se junta ao alumínio e a outros compostos dentro das células, formando um complexo azul descrito em detalhes por pesquisadores japoneses.

O alumínio vem do solo, mas a planta só consegue absorvê-lo quando a terra é ácida. Em solos com pH em torno de 5,5 ou menos, as flores tendem ao azul. Em solos com pH a partir de 6,5, tendem ao rosa. A Hortênsia acumula tanto alumínio nas sépalas que é estudada como uma planta hiperacumuladora desse metal.

Por isso, jardineiros fazem a cor que querem. Para azul, acidificam o solo e adicionam sulfato de alumínio. Para rosa, colocam calcário. As variedades brancas não mudam, porque não produzem o pigmento. Bonita, mas não comestível: todas as partes da planta têm glicosídeos cianogênicos e são consideradas moderadamente tóxicas se ingeridas.

 

A hortênsia é nativa do litoral do Japão — e na forma selvagem tem flores em "renda": um miolo de florzinhas férteis rodeado por poucas flores vistosas

 

Amacha — O Chá Doce do Aniversário de Buda

No Japão, a Hortênsia não é só decoração. Folhas fermentadas de uma parente próxima, a Hydrangea serrata, às vezes tratada como variedade da Hydrangea macrophylla, viram o amacha, que quer dizer chá doce. Depois de secas e fermentadas, as folhas ficam naturalmente adocicadas, sem nenhum açúcar adicionado. O sabor vem de compostos que se formam nas folhas durante o processo.

Esse chá tem um papel especial no Hana Matsuri, a festa do nascimento de Buda, celebrada em 8 de abril. Nos templos, as pessoas despejam amacha sobre pequenas estátuas de Buda bebê, enfeitadas com flores, como se dessem banho num recém-nascido. O gesto lembra a lenda de que, quando Buda nasceu, uma chuva doce caiu do céu para banhá-lo.

A floração da Hortênsia também marca o tsuyu, a estação das chuvas que cobre boa parte do Japão em junho e julho. Templos como o Meigetsu-in, em Kamakura, concluído em 1394, ficaram tão associados às hortênsias que ganharam o apelido de ajisai-dera, o templo das hortênsias. Lá, as flores são uma adição recente, escolhidas pela facilidade de cultivo.

 

Otaksa — A Hortênsia com Nome de Mulher

O nome Hortênsia guarda um mistério. No século 18, o naturalista francês Philibert Commerson quis homenagear uma mulher chamada Hortense. Há quem diga que seria a astrônoma Nicole-Reine Lepaute. Em 1789, o botânico Antoine-Laurent de Jussieu publicou o gênero Hortensia, e o nome pegou em vários idiomas, inclusive no português.

Outra hortênsia carrega uma história de amor. No século 19, Philipp Franz von Siebold viveu no Japão, na ilha artificial de Dejima, em Nagasaki, onde manteve um jardim com mais de mil plantas japonesas. Lá, viveu com Kusumoto Taki, a quem chamava de Otakusa. Em homenagem a ela, batizou uma hortênsia de otaksa.

A filha do casal, Kusumoto Ine, nasceu em 1827 e é considerada a primeira mulher japonesa formada em medicina ocidental. Chegou a servir como médica da corte, atendendo a imperatriz do Japão. A hortênsia Otaksa, levada à Europa por Siebold por volta de 1860, ainda é cultivada em jardins.

 

No Hana Matsuri, que celebra o nascimento de Buda, os fiéis derramam ama-cha sobre a estátua do Buda menino — um chá doce feito com folhas fermentadas de uma hortênsia

 

Gramado — A Serra que Virou Jardim

No Brasil, a Hortênsia encontrou na serra do Rio Grande do Sul um clima fresco e úmido. Em São Francisco de Paula, as primeiras mudas foram trazidas da Europa pelo casal alemão Hampel, que fundou ali um hotel em 1899. Em Gramado, os plantios começaram por volta de 1925, com a família Lied e mudas vindas do estado do Rio de Janeiro.

Quem espalhou as flores pela paisagem foi o empresário Oscar Knorr, que plantou hortênsias em seu parque e ao longo das estradas da cidade. A primeira Festa das Hortênsias aconteceu em Canela, em 1939. Gramado fez a sua em 1958 e, em 1961, uma lei municipal adotou o título de Jardim das Hortênsias.

Em 1989, Gramado, Canela, Nova Petrópolis e São Francisco de Paula passaram a formar a Região das Hortênsias, criada para promover o turismo. Só em 2009, Gramado plantou 100 mil mudas, e a flor está no brasão e na bandeira da cidade. A região recebe milhões de visitantes por ano, e as hortênsias azuis à beira das estradas viraram parte da paisagem que eles vêm ver.

 

Sépalas — Uma Flor Entre a Química e o Afeto

A Hortênsia saiu das costas do Japão, passou pelos jardins de Cantão e de Kew e se espalhou pelos Açores e pela serra gaúcha. No caminho, ganhou um nome cheio de mistério, outro de amor, e virou cerca viva em ilhas, flor de templo e cartão-postal de cidade.

Suas cores dependem do alumínio e da acidez do solo, numa aula de química que qualquer pessoa pode ver no jardim. Seu chá adoça o aniversário de Buda, e seus pompons ajudaram a transformar cidades da serra gaúcha em destinos turísticos. Em cada canteiro, ela continua mostrando, em azul ou em rosa, o que existe debaixo da terra.

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