Panícula — O Cereal que Aguenta o Sol
Nas lavouras do Cerrado, depois da colheita da Soja, muitos campos ganham uma nova cor: as cabeças avermelhadas do Sorgo, cheias de grãos redondos. Para muita gente, é só mais uma planta parecida com o Milho. Mas o Sorgo tem uma história de mais de 5 mil anos, que começa às margens dos rios do Sudão e passa por pães egípcios, cervejas africanas e destilados chineses.
É um cereal feito para o calor. Aguenta a seca e o sol forte, aproveita bem o nitrogênio do solo e cresce em terras onde outros grãos teriam dificuldade. Por isso, alimentou povos africanos e asiáticos por milênios e, hoje, vira ração, etanol, cerveja e até vassoura.
Esta é a história do Sorghum bicolor, o grão que saiu do leste da África, atravessou o oceano Índico, chegou à China e às Américas e que hoje é o 5º cereal mais importante do mundo.
Kassala — O Grão dos Rios do Sudão
O Sorgo foi domesticado há mais de 5 mil anos no leste do Sudão, na região dos rios Atbara e Gash. Evidências encontradas perto da cidade de Kassala, datadas de 3.500 a 3.000 antes da era comum, estão ligadas a um povo conhecido como Grupo Butana.
A primeira forma domesticada foi a raça chamada bicolor, ainda parecida com as plantas selvagens. Com o tempo, agricultores selecionaram plantas de grãos maiores, que não caíam sozinhos da panícula, o cacho de flores e sementes no alto da planta. Isso facilitou a colheita e permitiu guardar os grãos de uma safra para outra.
O Sorgo também aparece no Egito antigo. O Museu Egípcio de Turim, na Itália, guarda pão de Sorgo encontrado em túmulos do período pré-dinástico, com cerca de 5.100 anos. É uma prova de que, muito cedo, o grão já era transformado em farinha, massa e pão no vale do Nilo.
Durra — Do Sudão à Índia e ao Mundo Árabe
Do leste da África, o Sorgo atravessou o mar. Chegou ao subcontinente indiano há cerca de 4 mil anos, provavelmente pelas rotas comerciais do oceano Índico. Na Índia, tornou-se um grão importante para regiões secas, onde é usado até hoje em pães achatados.
Há cerca de 3 mil anos, o Sorgo alcançou a África Ocidental. Nesse caminho, surgiram novas raças, adaptadas a climas e solos diferentes: durra, caudatum e guinea, além de uma quinta raça que se desenvolveu no sul da África. Cada uma delas foi selecionada por povos diferentes, para usos diferentes.
Na Idade Média, durante a chamada revolução agrícola árabe, o Sorgo se espalhou pelo mundo árabe e chegou à Espanha. Nos Estados Unidos, a referência mais antiga conhecida é de 1757, quando Benjamin Franklin escreveu sobre o uso do Sorgo para fazer vassouras. No século 19, o Sorgo sacarino ganhou importância no comércio de açúcar americano, como fonte de xarope doce.
Seca — Um Cereal Feito para o Calor
O Sorgo é tolerante à seca e ao calor e usa o nitrogênio do solo com eficiência. Essas qualidades fazem dele um alimento básico em regiões áridas da África e da Ásia, onde serve de base para populações pobres e onde outras lavouras falham com facilidade.
Como o Milho e a Cana-de-açúcar, o Sorgo faz fotossíntese do tipo C4, que aproveita melhor a luz e a água em clima quente. Nos Estados Unidos, produtores destacam que ele gera a mesma quantidade de etanol por bushel que outras matérias-primas, usando cerca de um terço a menos de água.
Mas a planta também tem suas defesas. As folhas e os brotos jovens de Sorgo podem conter cianeto de hidrogênio, hordenina e nitratos em níveis capazes de matar animais que pastam. Por isso, criadores precisam ter cuidado ao soltar o gado em plantações novas ou estressadas pela seca. A mesma planta que alimenta pode ser perigosa quando consumida na hora errada.
Kaoliang — A Cerveja e o Destilado de Sorgo
O Sorgo vira bebida em vários continentes. Na África, é usado em cervejas tradicionais feitas com grãos germinados, como a malwa, em Uganda, e o umqombothi, na África do Sul. Essas cervejas turvas e levemente ácidas aparecem em festas, rituais e encontros de família.
No sul da África, o umqombothi tem papel especial em cerimônias. Ele é preparado para marcar ritos de passagem, casamentos e homenagens aos antepassados, e costuma ser servido em recipientes compartilhados, passados de mão em mão.
Na China e em Taiwan, o Sorgo é a base do kaoliang, um tipo de baijiu, um destilado incolor tradicional do país. O nome kaoliang vem justamente de uma palavra chinesa para Sorgo. Feito com grãos fermentados em estado sólido e depois destilados, o kaoliang tem teor alcoólico alto e aroma forte. Em Kinmen, ilha de Taiwan, ele virou símbolo local, com garrafas vendidas para todo o país e para turistas que visitam a ilha.
Vassoura — O Sorgo que Varre a Casa
Nem todo Sorgo é plantado pelo grão. Existe um tipo chamado Sorgo-vassoura, com panículas de fibras longas e firmes. Depois de secas, essas fibras são amarradas em feixes e viram as clássicas vassouras de palha, ainda comuns em casas, quintais e feiras do interior do Brasil.
Foi esse uso que chamou a atenção de Benjamin Franklin em 1757. Segundo a tradição americana, ele teria encontrado sementes presas numa vassoura importada e plantado-as, ajudando a difundir o Sorgo-vassoura nos Estados Unidos. A história é popular, mas o que está documentado é que Franklin escreveu sobre o uso do Sorgo em vassouras.
Outros tipos de Sorgo também têm usos curiosos. O Sorgo sacarino acumula açúcar no caule e pode virar xarope ou etanol. Algumas variedades têm pigmentos fortes nas folhas e nos grãos e foram usadas para tingir tecidos. Do grão à palha, quase toda a planta encontra alguma utilidade, e os restos da lavoura ainda servem de alimento para o gado e de cobertura para o solo.
Ração — Do Etanol Americano à Segunda Safra Brasileira
Em 2023, o mundo produziu cerca de 57 milhões de toneladas de Sorgo, o que fez dele o 5º cereal mais importante, depois do Arroz, do Trigo, do Milho e da Cevada. Os Estados Unidos lideraram a produção, com cerca de 14% do total, seguidos por México, Etiópia e Índia. Nos Estados Unidos, cerca de 30% do Sorgo vai para a produção de etanol.
No Brasil, o Sorgo é plantado principalmente como segunda safra, logo depois da colheita da Soja. Ele é usado sobretudo na ração de aves, porcos e gado, como substituto do Milho. Na safra 2002/03, o país colheu cerca de 1,36 milhão de toneladas, e Goiás já respondia por 36% do total.
Goiás segue na frente. Na safra 2024/25, o estado colheu cerca de 1,5 milhão de toneladas de Sorgo, sozinho mais do que todo o Brasil produzia 2 décadas antes. Mais recentemente, o grão também passou a ser usado em usinas de etanol, ao lado do Milho, no Centro-Oeste.
Raízes — Um Grão Antigo para um Mundo Mais Quente
O Sorgo nasceu às margens dos rios do Sudão, virou pão no Egito antigo, atravessou o oceano Índico até a Índia, chegou à Espanha com a revolução agrícola árabe e aos Estados Unidos, onde Franklin escreveu sobre suas vassouras. Hoje, vira cerveja na África, kaoliang em Taiwan, etanol nos Estados Unidos e ração no Cerrado brasileiro.
Com o clima cada vez mais quente e seco em várias partes do mundo, esse grão antigo volta a ganhar atenção. Pesquisadores e agricultores veem nele uma forma de produzir alimento onde a água é pouca. Resistente e versátil, o Sorgo mostra que algumas das respostas para o futuro da agricultura podem estar em plantas que acompanham a humanidade há milhares de anos.
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