Painço: O Grão Miúdo que Virou Macarrão Há 4 Mil Anos

Domesticado no norte da China há mais de 10 mil anos, o Painço chegou à Europa da Idade do Bronze, virou o macarrão de Lajia e é parente dos milhetes que dão cerveja na África

 

Grão — O Cereal Miúdo que Veio Antes

No Brasil, muita gente conhece o Painço como comida de passarinho, vendido em saquinhos de pet shop. Mas esse grão miúdo, redondo e amarelado tem uma história que começa há mais de 10 mil anos, nas terras do norte da China, e passa por estepes, aldeias europeias e mesas do mundo inteiro.

O Painço faz parte dos chamados milhetes, um grupo variado de gramíneas de sementes pequenas cultivadas como cereal. Entre eles estão o Painço, o Painço-italiano, o Milheto e o Coracana, ou milhete-de-dedo. São plantas resistentes, de ciclo curto, que crescem onde outros cereais teriam dificuldade.

Esta é a história do Panicum miliaceum, um dos primeiros grãos domesticados na Ásia, que virou macarrão há 4 mil anos, cerveja na África, papa na Ucrânia e, em 2023, ganhou um ano internacional dedicado aos milhetes.

 

Cishan — Os Primeiros Celeiros da China

O Painço foi domesticado no norte da China. As evidências mais antigas vêm do sítio arqueológico de Cishan, onde foram encontrados grãos com idade entre 10.300 e 8.700 anos, guardados em antigos poços de armazenamento escavados no chão. O Painço-italiano, Setaria italica, aparece na mesma região há cerca de 8.700 anos.

Esses grãos sustentaram as primeiras aldeias agrícolas do norte da China, numa região de clima seco e solos de loess, a terra fina levada pelo vento. Enquanto o Arroz era domesticado mais ao sul, em áreas úmidas, os milhetes eram a base da alimentação no norte.

O Painço é uma gramínea de fotossíntese C4, o mesmo tipo do Milho e da Cana-de-açúcar. Esse mecanismo ajuda a planta a aproveitar melhor a luz e a água em clima quente. Ela gosta de calor e sofre com temperaturas abaixo de 10 a 13 graus. Por isso, cresce bem em verões curtos e quentes, mesmo em regiões de invernos rigorosos.

 

O painço completa o ciclo em cerca de 2 a 3 meses e com pouca água — podia ser plantado e colhido no curto verão das terras secas

 

Estepe — Do Mar Negro ao Norte da Europa

Da China, o Painço se espalhou para o oeste pelas estepes da Ásia Central. Por volta de 3.700 anos atrás, já era cultivado ao norte do mar Negro. Chegou à Europa Central há cerca de 3.450 anos e ao norte da Europa há cerca de 3.200 anos, durante a Idade do Bronze.

Na Europa, virou alimento de camponeses por séculos, cozido em papas e mingaus. Na Ucrânia, ainda hoje se prepara o kulish, uma papa espessa de Painço. Em outras partes da Europa Oriental, o grão aparece em sopas, recheios e acompanhamentos.

Outros milhetes foram domesticados em lugares diferentes. Na região do Sahel, na África, o Milheto, Cenchrus americanus, foi domesticado provavelmente há cerca de 8 mil anos. Na Índia, pequenos milhetes como o kodo e o milhete-miúdo foram cultivados há 5 a 6 mil anos. Cada povo encontrou seu próprio grão miúdo, adaptado a terras secas e quentes. Hoje, esses milhetes ainda alimentam milhões de pessoas na Índia e na África.

 

Ciclo — O Grão que Cresce em 60 Dias

Uma vantagem importante do Painço é a rapidez. Algumas variedades produzem grãos apenas 60 dias depois do plantio. Isso permite colher numa janela curta de verão, depois de outra cultura ou antes da chegada do frio.

Ele também usa a água com eficiência. Em testes, o Painço produziu mais grão por unidade de umidade do que outras espécies de cereais avaliadas. Por isso, é cultivado em regiões secas e de chuva irregular, como partes da Ásia Central, da Índia e das Grandes Planícies americanas, onde o Trigo ou o Milho correm mais riscos. Em boas condições, rende de 2,5 a 4,5 toneladas por hectare.

Na nutrição, os milhetes têm valor comparável ao do Trigo e do Arroz, com bom teor de proteína, fibras, cálcio, ferro e zinco. E não têm glúten, o que os torna uma alternativa para pessoas com doença celíaca. Hoje, o Painço é usado em cereais matinais, pães, macarrões e até cervejas sem glúten.

 

O painço foi domesticado no norte da China há cerca de 10 mil anos — um dos primeiros cereais cultivados no leste da Ásia, antes do arroz chegar ao norte

 

Cerveja — O Grão das Cerimônias Africanas

Na África, os milhetes viram bebida. A cerveja de milhete é preparada em várias partes do continente, muitas vezes misturada ao Sorgo ou ao Milho, e ganha nomes diferentes em cada lugar: pombe no Quênia, dolo em Burkina Faso, malwa em Uganda, mbege na Tanzânia, mariisa no Sudão e chibuku no sul e no centro da África.

O preparo começa deixando os grãos de molho em água morna até germinarem, o que aumenta o açúcar disponível no grão. Depois, eles são secos, moídos, misturados com água, fervidos, resfriados e fermentados com leveduras por cerca de 5 dias. O resultado é uma bebida turva, levemente ácida, de sabor e teor alcoólico que variam de povo para povo.

Na África Ocidental, essa cerveja tem papel central na vida social. Aparece em ritos de passagem, casamentos, festas e reuniões da aldeia, onde é dividida entre os presentes. É uma bebida feita para ser compartilhada, que marca momentos importantes da comunidade. Em muitas famílias, o modo de preparo passa de geração em geração.

 

Lajia — O Macarrão de 4 Mil Anos Sob a Tigela

Em 2005, arqueólogos chineses anunciaram uma descoberta surpreendente no sítio de Lajia, no noroeste da China. Sob cerca de 3 metros de sedimentos, dentro de uma tigela virada e selada, havia fios longos, finos e amarelados de macarrão.

As análises mostraram que o macarrão, com cerca de 4 mil anos, foi feito com 2 tipos de milhete: o Painço e o Painço-italiano. Os grãos foram moídos em farinha e a massa foi esticada em fios. Para os pesquisadores, isso mostra um nível elevado de processamento de alimentos e de técnica culinária para a época. A tigela provavelmente foi soterrada de repente, num desastre natural, o que ajudou a conservar seu conteúdo por tanto tempo.

A descoberta é anterior em quase 2 mil anos aos registros escritos conhecidos de macarrão e reforçou a ideia de que esse alimento tem raízes na Ásia. Na China, o Painço também vira suan zhou, um mingau fermentado e azedinho, tradicional na Mongólia Interior e em Shanxi.

 

Em 2005, arqueólogos acharam em Lajia, na China, uma tigela emborcada com o macarrão mais antigo conhecido, de cerca de 4 mil anos — feito de painço

 

Milhetes — Do Ano Internacional ao Comedouro

Em 2022, o mundo produziu cerca de 30,9 milhões de toneladas de milhetes. A Índia respondeu por 38%, seguida pelo Níger e pela China. Entre os 10 maiores produtores, 8 são países africanos, onde esses grãos continuam essenciais para milhões de pessoas.

A pedido da Índia, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura declarou 2023 o Ano Internacional dos Milhetes. A ideia era chamar atenção para grãos resistentes ao calor e à seca, num mundo que enfrenta mudanças no clima. Nos Estados Unidos, o Painço é plantado principalmente no Colorado, em Nebraska e em Dakota do Sul.

No Brasil, o Painço é conhecido sobretudo como alimento de pássaros, vendido em misturas com Alpiste e outras sementes. Já o Milheto, parente africano, é plantado em grandes áreas do Cerrado como cobertura de solo e forragem para o gado. São grãos que, aqui, quase nunca chegam ao prato, embora apareçam cada vez mais em lojas de produtos naturais.

 

Resistência — Um Grão Pequeno com Raízes Profundas

O Painço nasceu nas aldeias do norte da China há mais de 10 mil anos, atravessou as estepes, chegou à Europa da Idade do Bronze e virou papa, macarrão e mingau fermentado. Seus parentes africanos viraram cerveja de cerimônia.

No Brasil, o grão ainda é visto como comida de passarinho. Mas sua história mostra outra coisa: um cereal rápido, resistente e sem glúten, que alimentou civilizações por milênios e voltou a ser estudado como opção para tempos de seca. Talvez seja hora de olhar para o comedouro com outros olhos e lembrar que aquele grãozinho já foi o pão de muitos povos.

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