Sândalo: o Perfume Escondido no Cerne que Atraiu Navios e Contrabandistas

Da árvore que vive das raízes vizinhas ao comércio de Timor, ao esgotamento das florestas do Havaí e ao contrabando na Índia, conheça a história do Sândalo

 

Cerne — Um Perfume Guardado Dentro da Madeira

O Sândalo não perfuma pela flor nem pela folha. Seu cheiro está escondido no coração da madeira, o cerne, que leva anos para se formar. Por fora, é árvore discreta, de folhas lisas e flores miúdas. Por dentro, guarda um aroma que há séculos perfuma templos, incensos e perfumes.

Essa árvore tem uma vida curiosa. Ela se prende às raízes de outras plantas para tirar parte de seus nutrientes. Sua madeira cruzou mares do Sudeste Asiático até a China, atraiu portugueses a Timor e virou alvo de contrabando na Índia, enquanto o comércio de espécies parentes esvaziou florestas no Havaí.

Esta é a história do Santalum album, o sândalo-branco, uma árvore da família do visco, de origem ainda discutida entre as ilhas do sudeste da Indonésia e o sul da Índia, cujo cerne perfumado sustentou rituais religiosos, comércio de longa distância e, por isso mesmo, uma longa história de exploração.

 

Haustório — Uma Árvore que Vive das Raízes Vizinhas

O Sândalo pertence à família das Santaláceas, a mesma do visco europeu. Segundo a Wikipedia, ele parasita as raízes de outras árvores por meio de uma estrutura chamada haustório, sem causar grandes danos às hospedeiras. Segundo o banco de dados PROSEA, mais de 300 espécies já foram registradas como hospedeiras.

Por isso, ele é chamado de hemiparasita. Tem folhas verdes e faz fotossíntese, mas recebe das vizinhas parte da água e dos nutrientes, como fósforo, nitrogênio e potássio, além de sombra nos primeiros anos. Quem planta Sândalo precisa plantar junto uma árvore hospedeira, de preferência uma que fixe nitrogênio.

A origem da espécie é discutida. Segundo o PROSEA, ela é provavelmente nativa das ilhas do sudeste da Indonésia, sobretudo Timor e Sumba. No sul da Índia, pode ser nativa, mas muitas vezes se considera que foi introduzida há cerca de 2 mil anos. Segundo a Wikipedia, porém, a árvore já aparece em registros arqueológicos do sul do Decão por volta de 1300 antes da era comum.

 

O Santalum album é hemiparasita — nos primeiros anos conecta suas raízes às dos vizinhos e extrai nutrientes deles para crescer, e o cerne aromático com santalol só começa a se formar após 20 anos de vida

 

Timor — A Madeira que Atraiu Navios

O comércio do Sândalo é antigo. Segundo o PROSEA, o registro mais antigo de comércio de Sândalo de Timor é do século 3 da era comum. Antes da chegada dos europeus, a ilha já fazia parte de redes de troca que ligavam a Índia, a China e o Sudeste Asiático.

No século 16, foi o Sândalo que atraiu os portugueses. Segundo a Wikipedia, os primeiros teriam desembarcado perto da atual Pante Macassar em 1515, e frades dominicanos se instalaram na região em 1556, fundando a aldeia de Lifau. Macau era o principal mercado para essa madeira, e o comércio foi importante para a prosperidade da cidade.

Mas as florestas não resistiram. Segundo a Wikipedia, Portugal nunca conseguiu um monopólio, a extração ficou com governantes locais, e as matas desapareceram ao longo do século 18. Depois de uma breve retomada nos anos 1850, o comércio voltou a cair. A extração foi proibida no litoral norte em 1901, e a proibição total de corte e exportação veio em 1925.

 

Santalol — O Óleo do Coração da Árvore

Só o cerne do Sândalo é perfumado. Segundo o PROSEA, ele se distingue claramente do alburno, a madeira externa, que é branca e sem cheiro. O cerne é amarelo-claro quando cortado e escurece com o tempo. A madeira é pesada, de textura muito fina e resistente aos cupins.

O cerne demora a se formar. Segundo o PROSEA, em boas condições na Índia ele começa por volta dos 10 anos e é maior em árvores de 30 a 60 anos. O óleo essencial, extraído por destilação a vapor, é mais concentrado nas raízes, com até cerca de 10%, seguidas do tronco, com 4% a 8%, e dos galhos, com 2% a 4%.

O perfume vem do santalol. Segundo o PROSEA, o óleo tem 90% ou mais de álcoois sesquiterpênicos, sobretudo o alfa-santalol e o beta-santalol. Segundo a Wikipedia, o óleo funciona como nota de fundo duradoura e fixador em perfumes. Como é caro, a adulteração com outros óleos é comum, e substitutos sintéticos são produzidos desde 1947.

 

O governo indiano declarou o sândalo propriedade nacional para salvar a espécie da extinção — permitindo o corte apenas de exemplares com mais de 30 anos, quando a árvore já começa a morrer naturalmente

 

Puja — Pasta, Incenso e Fogo Sagrado

O Sândalo tem lugar em muitas religiões. Segundo a Wikipedia, no hinduísmo a pasta de Sândalo é usada nos rituais de puja, e a madeira é considerada sagrada. Um pequeno pedaço ainda é colocado nas piras funerárias, e a madeira também foi usada na construção de templos. O nome vem do sânscrito chandanam, ligado à madeira usada para queimar incenso.

Outras tradições também o adotaram. Segundo a Wikipedia, no jainismo a pasta de Sândalo misturada com açafrão é usada na adoração dos tirthankaras. Algumas tradições budistas associam o Sândalo ao Buda Amitabha. No zoroastrismo, ele é oferecido como combustível para os fogos sagrados dos templos.

No sufismo indiano, segundo a Wikipedia, devotos passam pasta de Sândalo nos túmulos de santos sufis. Na China, a madeira foi usada em estátuas e templos e queimada em incensários. Nas ilhas Comores, uma pasta chamada msindzano é usada no rosto como proteção contra o sol.

 

Iliahi — O Sândalo que Esvaziou o Havaí

O gênero Santalum tem mais de 19 espécies, e algumas cresciam no Havaí, onde eram chamadas de iliahi. Segundo a Escola Punahou, por volta de 1790 marinheiros estrangeiros abriram o comércio entre o rei Kamehameha I e o mercado de Sândalo de Cantão, na China. A madeira era usada lá em incensos e remédios.

O comércio cresceu muito entre 1821 e 1823, no reinado de Liholiho. Segundo a mesma fonte, navios americanos levavam em média cerca de 21 mil piculs, ou cerca de 1.400 toneladas, por ano para Cantão. Os chefes compravam produtos de luxo e pagavam com promessas de entregar mais Sândalo, acumulando dívidas.

Quem pagou foi a população comum. Segundo a Punahou, os trabalhadores eram obrigados a cortar e carregar a madeira, muitas vezes deixando de cuidar das plantações de que dependiam. Por volta de 1840, as florestas estavam esgotadas e o mercado chinês tinha caído. A Wikipedia situa a exploração entre 1790 e 1825, quando as árvores acabaram. Segundo a Wikipedia, uma das espécies exploradas, o Santalum ellipticum, continua rara.

 

O absoluto de sândalo de Mysore pode ultrapassar 3.000 dólares por quilo — tornando-o um dos ingredientes mais caros da alta perfumaria, presente em criações icônicas da Chanel, Dior e Le Labo

 

Mysore — Contrabando, Leis e Plantações

Na Índia, o Sândalo virou assunto de Estado. Segundo a Wikipedia, o óleo foi extraído pela 1ª vez em Mysore em 1917. Em Karnataka, Andhra Pradesh e Tamil Nadu, árvores acima de certo tamanho eram propriedade do Estado até 2001 ou 2002, e a produção anual caiu de cerca de 4 mil toneladas no início dos anos 1970 para menos de 300 toneladas em 2011.

O valor da madeira alimentou o crime. Segundo a Enciclopédia Britânica, Veerappan contrabandeou durante anos Sândalo e marfim nas florestas de Karnataka, Kerala e Tamil Nadu. Procurado pela morte de mais de 120 pessoas, foi morto por uma força especial de Tamil Nadu em 18 de outubro de 2004.

Hoje, o Santalum album é classificado como vulnerável pela IUCN. Segundo a Wikipedia, a espécie australiana Santalum spicatum foi a principal fonte de exportação da Austrália Ocidental nos anos 1840 e hoje é cultivada em plantações, mas tem bem menos santalol, cerca de 39%, contra cerca de 90% no sândalo-branco.

 

Fumaça — Um Perfume de Longa Paciência

O Sândalo é uma árvore que depende de outras para crescer e que leva anos para formar seu cerne perfumado. Essa lentidão, somada ao valor do óleo, explica boa parte da sua história.

Ao longo do caminho, sua madeira atraiu navios a Timor, alimentou rituais hindus, jainistas, budistas, zoroastristas e sufis, viu parentes seus desaparecerem das florestas do Havaí e virou alvo de contrabando na Índia. Em Timor, a extração acabou proibida em 1925, e na Índia o corte foi controlado pelo Estado por décadas. Hoje, depende de leis, plantações e de árvores hospedeiras plantadas ao seu lado. Em cada fio de fumaça perfumada, há uma história de paciência, fé e exploração.

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