Quem corta uma folha de Babosa encontra 2 coisas diferentes. No centro está o gel transparente e viscoso, a “baba” que deu nome popular à planta. Logo abaixo da casca escorre um líquido amarelo e amargo, o látex.
Essa divisão resume a história da Babosa. O gel virou símbolo de cuidado com a pele, de queimaduras de sol a cremes de beleza. O látex foi durante séculos um purgante poderoso e hoje é alvo de alertas de agências de saúde.
Entre um e outro há milênios de uso, uma ilha no Oceano Índico famosa pelo seu aloé e muitas lendas que a ciência ainda não confirmou. Esta é a história da planta mais presente nas janelas brasileiras.
Aloe vera — Uma Suculenta do Deserto Arábico
A Babosa, Aloe vera, pertence à família Asphodelaceae. Não é um cacto: é uma suculenta de folhas carnudas em roseta, com margens serrilhadas. Como os cactos, faz fotossíntese do tipo CAM, abrindo os poros das folhas à noite para perder menos água.
O gênero Aloe reúne mais de 500 espécies espalhadas pela África, pela Península Arábica, por Madagascar e por ilhas do Oceano Índico. Um estudo publicado em 2015 na BMC Evolutionary Biology concluiu que a Aloe vera se originou na Península Arábica.
O mesmo estudo propõe que ela se tornou a mais famosa das espécies por acaso histórico. Estava perto das rotas comerciais do Mar Vermelho e do Mediterrâneo, que já funcionavam no século 4 antes da era comum. O nome vera, do latim, significa verdadeira.
Dioscórides, Socotra e as Rotas do Mar Vermelho
No século 1, o médico grego Dioscórides descreveu o aloé em De Materia Medica, o manual de plantas medicinais mais copiado da Antiguidade. Ele o recomendava para feridas, problemas de pele e como purgante. Plínio, o Velho, registrou usos parecidos na mesma época.
Durante séculos, o aloé mais valorizado no comércio veio da ilha de Socotra, no Oceano Índico, hoje parte do Iêmen. O “aloé socotrino” era o látex seco de espécies locais, vendido em blocos escuros e amargos nos mercados árabes, persas e europeus.
A Babosa seguiu as rotas marítimas e se espalhou pelas regiões quentes do mundo. Adaptou-se tão bem que hoje é difícil saber onde cresce nativa e onde foi plantada.
Gel, Látex e o que a Ciência Confirma
O gel da Babosa é quase todo água, com polissacarídeos como o acemanano, além de enzimas e compostos anti-inflamatórios. O Centro Nacional de Saúde Integrativa dos Estados Unidos indica que o gel aplicado na pele pode ajudar na cicatrização de queimaduras e aliviar a dor.
Mas as evidências são fracas. Uma revisão Cochrane de 7 estudos concluiu que faltam ensaios de boa qualidade para recomendar a Babosa no tratamento de feridas.
O látex contém aloína, uma antraquinona laxativa. Em 2002, a agência americana FDA retirou o látex de Babosa dos laxantes vendidos sem receita, por falta de dados de segurança. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer classificou o extrato da folha inteira não descolorido como possível cancerígeno. No Brasil, a Anvisa afirmou em 2011 que o consumo de alimentos à base de Babosa não tem segurança comprovada.
Planta de Proteção e Renovação
Em muitas culturas, a Babosa é planta de proteção. No Brasil, é comum pendurá-la atrás da porta ou mantê-la na entrada da casa para afastar o mau-olhado, e diz a tradição popular que ela precisa ser renovada quando murcha.
Na medicina ayurvédica da Índia, a planta é chamada de kumari, a jovem, e é associada ao frescor e à renovação. Os egípcios usavam resinas e plantas aromáticas no embalsamamento, e a tradição moderna costuma incluir a Babosa entre elas, embora as provas arqueológicas diretas sejam escassas.
O que a une em tradições tão distantes é a mesma imagem: uma planta que guarda água no deserto e parece não morrer.
O Aloé da Bíblia Não Era Babosa
O Evangelho de João conta que Nicodemos levou cerca de 100 libras de mirra e aloés para envolver o corpo de Jesus. Muitos textos repetem que se tratava de Babosa, mas boa parte dos estudiosos da Bíblia identifica esse aloé com a madeira aromática de agar, de árvores do gênero Aquilaria, da Ásia.
As 2 plantas não têm parentesco, só dividem o nome. O aloé bíblico era incenso e perfume, e o aloé de Socotra era remédio amargo.
Outras histórias famosas também não têm prova. A de que Cleópatra usava Babosa na pele e a de que Alexandre, o Grande, conquistou Socotra para abastecer seu exército são repetidas há séculos sem documento antigo que as confirme.
Quintal, Semiárido e a Receita do Frei
No Brasil, a Babosa está em praticamente todo quintal, vaso e janela. É usada em queimaduras domésticas, no cabelo e na pele, e o gel é aplicado direto da folha cortada.
Nos anos 1990, o frade franciscano Romano Zago popularizou uma receita de Babosa batida com mel e destilado, divulgada como tratamento contra o câncer. A receita usa outra espécie, a Aloe arborescens. Não há estudos que comprovem esse efeito, e o consumo interno da planta traz riscos.
Na indústria, o gel de Babosa entra em cremes, xampus, protetores solares e produtos pós-sol. Parte da matéria-prima vem de lavouras no semiárido nordestino.
A Suculenta que Guardou Água e Histórias
A Babosa nasceu no deserto arábico, viajou pelas rotas do Mar Vermelho e do Mediterrâneo e se instalou nas janelas do mundo inteiro. Pelo caminho, ganhou lendas maiores do que ela: rainhas, conquistadores e o sepultamento de Jesus.
A ciência separou o que resiste do que não resiste. O gel acalma a pele, o látex exige cuidado, e o resto é tradição. Mesmo assim, poucas plantas são tão fáceis de ter perto e tão presentes na memória de quem já cortou uma folha para aliviar uma queimadura.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!
Fontes
- Grace, O. M. et al. Evolutionary history and leaf succulence as explanations for medicinal use in aloes and the global popularity of Aloe vera. BMC Evolutionary Biology, 2015. Link
- NCCIH. Aloe Vera: Usefulness and Safety. Link
- Cochrane. Aloe vera (babosa) para o tratamento de feridas agudas e crônicas. Link
- Federal Register. Status of Certain Additional OTC Drug Category II and III Active Ingredients, 2002. Link
- Anvisa. Consumo de alimentos à base de aloe vera não é seguro, 2011. Link
- Wikipedia. Agarwood. Link

