A Raiz que Não É Raiz
O Gengibre parece uma raiz, mas é um caule. A parte que compramos, cheia de nós e ramificações, é um rizoma, um caule que cresce na horizontal, debaixo da terra, e guarda reservas para a planta.
Esse rizoma de formato estranho, que lembrou a alguns povos um chifre e a outros uma mão, virou uma das especiarias mais antigas do comércio mundial. Esteve nas canoas austronésias, nas refeições de Confúcio, nas farmácias medievais, nos biscoitos natalinos e nas bebidas fermentadas.
Também esteve no centro de uma tragédia nos Estados Unidos. Esta é a história do tempero picante que atravessou o planeta sem nunca deixar de ser remédio.
Zingiber officinale — Parente da Cúrcuma e do Cardamomo
O Gengibre, Zingiber officinale, pertence à família Zingiberaceae, a mesma da Cúrcuma e do Cardamomo. É uma planta herbácea de folhas longas e estreitas e flores amarelo-esverdeadas com toques roxos, que raramente produz sementes.
Sua origem está no Sudeste Asiático marítimo, nas ilhas entre a Ásia e a Oceania. Os povos austronésios provavelmente foram os primeiros a cultivá-lo, há cerca de 5 mil anos, junto com a Cúrcuma.
O nome vem do sânscrito śṛṅgavera, ligado à ideia de chifre, pelo formato do rizoma. A palavra passou ao grego zingiberis, ao latim zingiber e daí às línguas europeias. O Gengibre cultivado é multiplicado há milênios por pedaços de rizoma.
De Confúcio à Inglaterra Medieval
Os austronésios levaram o Gengibre em suas viagens pelo Pacífico e pelo Oceano Índico. Da Índia, ele seguiu com mercadores árabes até o Mediterrâneo, e os médicos Dioscórides e Plínio, o Velho, o descreveram no século 1.
Na China, os Analectos registram que Confúcio nunca deixava de comer Gengibre nas refeições. Na medicina tradicional chinesa, a raiz é considerada aquecedora e usada contra o frio e os enjoos.
Na Europa medieval, o Gengibre era artigo de luxo. Na Inglaterra do século 14, meio quilo de Gengibre custava tanto quanto um carneiro. Da mesma época vêm os pães e biscoitos de Gengibre, que viraram tradição natalina em países como Inglaterra, Alemanha e Suécia.
Gingerol, Shogaol e o Enjoo
O Gengibre fresco tem cerca de 400 compostos. O principal responsável pela ardência é o gingerol. Quando a raiz seca ou é aquecida, parte do gingerol se transforma em shogaol, mais picante, e em zingerona, de aroma mais doce. Por isso o Gengibre seco e o fresco têm sabores diferentes, e o cozimento longo deixa a raiz menos ardida.
As evidências mais consistentes sobre o Gengibre são contra o enjoo na gravidez, e ele aparece em recomendações médicas como uma opção não medicamentosa. Contra o enjoo da quimioterapia, não há boas provas de efeito.
Outros efeitos atribuídos ao Gengibre, como anti-inflamatório e para emagrecer, ainda têm evidências limitadas.
O Remédio Universal e o Calor da Vida
Na medicina ayurvédica da Índia, o Gengibre ocupa um lugar central e é tradicionalmente descrito como um remédio universal, usado para digestão, resfriados e dores. Na medicina chinesa, sua natureza quente o associa à energia vital e ao equilíbrio do corpo.
Entre os povos austronésios, o Gengibre e a Cúrcuma tinham usos rituais, ligados à cura e à proteção, além do uso na comida.
No Brasil, o Gengibre ganhou lugar nas festas juninas, no quentão de cachaça ou vinho, e nas receitas caseiras contra gripe e dor de garganta, com mel e limão.
A Paralisia do Gengibre da Jamaica
Nos Estados Unidos da Lei Seca, um extrato de Gengibre da Jamaica vendido como remédio, com alto teor de álcool, era usado para contornar a proibição de bebidas. Em 1930, alguns fabricantes passaram a adulterá-lo com fosfato de tricresila, um produto industrial tóxico.
Entre 30 e 50 mil pessoas tiveram paralisias nas pernas e nos pés, com um andar característico que ficou conhecido como jake walk. A tragédia inspirou dezenas de blues gravados no início dos anos 1930.
O culpado não era o Gengibre, e sim o adulterante. Mas o episódio mostra como a raiz circulava em toda parte, até como disfarce para o álcool.
Gengibirra, Quentão e as Serras Capixabas
Na Inglaterra do século 18, o Gengibre era fermentado com açúcar para produzir a ginger beer. No Brasil, a bebida ganhou o nome de gengibirra. Hoje, o Gengibre está em sucos, chás, doces cristalizados, sushis e na culinária de toda a Ásia.
Em 2023, o mundo produziu cerca de 4,9 milhões de toneladas de Gengibre. A Índia respondeu por 45%, seguida por Nigéria e China, mas exporta pouco, porque consome quase tudo.
No Brasil, o Espírito Santo é o maior produtor e exportador, com as lavouras concentradas na Região Serrana. O Gengibre capixaba é vendido para a Europa, os Estados Unidos e dezenas de outros países.
A Especiaria que Viajou em Pedaços
O Gengibre viajou o mundo sem sementes, em pedaços de rizoma levados de ilha em ilha, de porto em porto. Atravessou o Índico com os austronésios, chegou à mesa de Confúcio, valeu um carneiro na Inglaterra medieval e virou biscoito de Natal, quentão e gengibirra.
Poucas plantas dependem tanto dos humanos para existir, e poucas foram tão bem recompensadas por isso. O Gengibre está em quase todas as cozinhas do planeta.
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