Nenhuma Semente Repete a Mãe
Quem planta a semente de uma Maçã Fuji não colhe Fuji. Colhe uma Maçã diferente, quase sempre pequena e azeda. Cada semente é uma mistura nova de genes, e por isso as variedades de Maçã só se mantêm por enxertia, com galhos copiados de árvore em árvore há milhares de anos.
Essa característica está no centro da história da Maçã. Ela explica por que existem milhares de variedades e como uma fruta das montanhas da Ásia Central mudou de genética ao chegar na Europa. Explica também por que tantas culturas a transformaram em símbolo de escolha, desejo e conhecimento.
Esta é a história da fruta que carrega mitos, ciência e marketing na mesma casca.
Malus sieversii — As Florestas de Maçã do Tian Shan
A Maçã cultivada, Malus domestica, pertence à família Rosaceae, a mesma da Pera, do Morango e da Rosa. Seu principal ancestral é a Malus sieversii, uma macieira selvagem que ainda forma florestas nas montanhas Tian Shan, no Cazaquistão e no Quirguistão.
Um estudo publicado em 2012 na PLOS Genetics estimou que ela foi domesticada nessa região há cerca de 4 mil anos. Nessas florestas é possível encontrar Maçãs selvagens de tamanhos, cores e sabores muito variados, uma diversidade que atrai pesquisadores do mundo inteiro.
A antiga capital do Cazaquistão, Almaty, costuma ter o nome traduzido como rica em Maçãs, ou pai das Maçãs, e a cidade adotou a fruta como símbolo.
Pela Rota da Seda até a Macieira Selvagem Europeia
A Maçã viajou para o oeste pelas rotas comerciais que depois formariam a Rota da Seda, levada por mercadores e caravanas. Na Pérsia, na Grécia e em Roma, os pomares se multiplicaram graças à enxertia, que os romanos dominavam e espalharam pelo império.
Na Europa, aconteceu algo que os cientistas não esperavam. A Maçã cultivada se cruzou repetidamente com a Malus sylvestris, a macieira selvagem europeia, usada havia muito tempo para fazer sidra. O estudo de 2012 concluiu que as Maçãs de hoje são geneticamente mais próximas dessa espécie europeia do que do ancestral asiático.
No século 17, os colonos europeus levaram sementes e mudas para a América do Norte.
Pectina, Quercetina e um Genoma Maior que o Nosso
A Maçã é rica em pectina, uma fibra solúvel que ajuda o funcionamento do intestino e a redução do colesterol. A casca concentra quercetina e outros flavonoides antioxidantes, e por isso comer a fruta com casca aproveita melhor seus compostos.
As sementes contêm amigdalina, um composto que libera cianeto quando mastigado. A quantidade em algumas sementes engolidas por acaso é pequena demais para fazer mal, mas elas não devem ser trituradas em grande quantidade.
Em 2010, pesquisadores publicaram na Nature Genetics o genoma da Maçã Golden Delicious. Ele tem cerca de 57 mil genes, mais que o dobro dos cerca de 20 mil genes humanos.
Eris, Iduna e a Ilha de Avalon
Na mitologia grega, a deusa da discórdia, Eris, lançou uma Maçã de ouro com a inscrição “à mais bela” entre as deusas. Páris escolheu Afrodite, e a escolha levou à Guerra de Troia. Um dos 12 trabalhos de Hércules foi roubar as Maçãs de ouro do jardim das Hespérides.
Na mitologia nórdica, a deusa Iduna guarda as Maçãs que mantêm os deuses jovens. Na lenda celta do rei Artur, Avalon, a ilha para onde ele foi levado depois de ferido, aparece nos textos em latim do século 12 como Insula Pomorum, a ilha das Maçãs.
O Gênesis não diz qual era o fruto proibido. A associação com a Maçã veio do latim, em que malum significa tanto Maçã quanto mal.
Por que a Maçã Boia e a Semente Não Repete
Cada semente de Maçã é geneticamente única, porque a macieira precisa do pólen de outra variedade para frutificar e mistura os genes das 2 árvores. Por isso, todas as Maçãs de uma variedade, como a Gala ou a Fuji, vêm de galhos enxertados de uma mesma árvore original.
Nos Estados Unidos do século 19, John Chapman, o Johnny Appleseed, plantou pomares a partir de sementes pela fronteira oeste. As árvores davam Maçãs ácidas demais para comer, e a maior parte ia para a sidra.
Outro detalhe curioso: a Maçã boia na água porque cerca de um quarto do seu volume é ar, preso entre as células da polpa.
Newton, a Apple e as Maçãs de Santa Catarina
Em 1726, Isaac Newton contou ao amigo William Stukeley que a ideia da gravidade lhe ocorreu ao ver uma Maçã cair no jardim de Woolsthorpe. Stukeley registrou a conversa num livro de memórias de 1752, digitalizado pela Royal Society em 2010. Na literatura, a Maçã envenenou a Branca de Neve dos Irmãos Grimm, em 1812, e foi o alvo da flecha de Guilherme Tell na peça de Schiller, de 1804.
Em 1977, o designer Rob Janoff criou a Maçã mordida da Apple. Segundo ele, a mordida servia para ninguém confundir a fruta com uma cereja. O Macintosh, de 1984, levou o nome de uma variedade canadense, a McIntosh.
No Brasil, a Maçã comercial ganhou escala na década de 1970, com os pomares de Fraiburgo e a Fuji em São Joaquim. Antes disso, o país importava mais de 200 mil toneladas por ano. Hoje, Santa Catarina produz mais da metade da Maçã brasileira.
Uma Fruta, Muitas Histórias
A Maçã saiu das florestas do Tian Shan, cruzou a Rota da Seda, misturou-se à macieira selvagem europeia e chegou às serras catarinenses. Pelo caminho, virou discórdia na Grécia, imortalidade para os nórdicos, ilha mítica para os celtas e símbolo de gravidade, veneno e tecnologia.
Cada Maçã comprada no mercado é um clone de uma árvore que alguém escolheu, entre milhões de sementes diferentes, e decidiu preservar.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!
Fontes
- Cornille, A. et al. New Insight into the History of Domesticated Apple. PLOS Genetics, 2012. Link
- Velasco, R. et al. The genome of the domesticated apple. Nature Genetics, 2010. Link
- Stukeley, W. Memoirs of Sir Isaac Newton’s Life, 1752 (Royal Society). Link
- Fapesc. Memória centenária da maçã. Link
- Epagri. SC é o maior produtor de maçã do Brasil, 2022. Link

