Margem — A Árvore que Se Debruça Sobre a Água
Na beira de rios e lagos, os galhos do Salgueiro descem até quase tocar a água. Essa imagem fez da árvore um símbolo de tristeza, saudade e despedida em várias culturas. Mas o Salgueiro também ficou famoso por outro motivo: sua casca está ligada à história da Aspirina. No Brasil, ele também tem uma espécie nativa, que cresce na beira dos rios do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste.
Essa ligação, porém, é mais curiosa do que se costuma contar. Muitas histórias repetidas sobre o Salgueiro na Antiguidade não têm prova, e o nome da Aspirina nem vem dele, mas de outra planta.
Esta é a história do gênero Salix, uma árvore que brota de um simples galho fincado na terra, ganhou um nome bíblico por engano, inspirou uma pesquisa de 2 séculos na química e ainda hoje protege as margens de rios no Brasil e no mundo.
Salix — A Árvore que Nasce de um Galho
O gênero Salix reúne cerca de 350 espécies, além de mais de 160 híbridos. Pertence à família das Salicáceas e cresce sobretudo em solos úmidos de regiões frias e temperadas. Nas áreas árticas e de montanha, algumas espécies são tão baixas que crescem rastejando pelo chão.
Uma de suas características mais conhecidas é a facilidade de brotar. Quase todos os salgueiros enraízam rapidamente a partir de estacas: basta fincar um galho na terra úmida para nascer uma nova árvore. Jardineiros chegam a usar a água de molho de galhos de Salgueiro como estimulante natural de raízes em outras mudas.
O Brasil também tem seu Salgueiro nativo. O Salseiro, Salix humboldtiana, ocorre em estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Ele cresce em margens de rios, em solos alagáveis, e costuma ter de 3 a 15 metros, mas pode chegar a 30. Conforme a região, é chamado de chorão, salso, sarã ou salgueiro-chorão.
Babilônia — O Chorão que Veio da China
O Salgueiro-chorão mais conhecido dos jardins, Salix babylonica, não vem da Babilônia. Ele é nativo de áreas secas do norte da China, da Coreia, da Mongólia, do Japão e da Sibéria. Seus galhos longos e pendentes foram selecionados e levados pela Rota da Seda até o sudoeste da Ásia e a Europa.
O nome é fruto de um engano. O botânico Carl Linnaeus achou que essa árvore era a mesma citada no Salmo 137 da Bíblia, em que os exilados judeus penduram suas harpas nas árvores às margens dos rios da Babilônia e choram. Por isso, chamou a espécie de babylonica.
Na verdade, as árvores da Babilônia citadas no salmo eram provavelmente Choupos-do-eufrates, parentes dos salgueiros na mesma família. A tristeza do salmo, porém, ficou associada ao Salgueiro-chorão. Em muitos países, ele passou a ser plantado em cemitérios e jardins de memória, sempre ligado à ideia de saudade e luto.
Casca — O Pároco que Mastigou a Árvore
Por volta de 1757, o clérigo inglês Edward Stone mastigou a casca de um Salgueiro-branco e sentiu um gosto amargo. Ele lembrou de outro remédio amargo, a casca de quina, usada contra febres, e se perguntou se o Salgueiro teria efeito parecido. Então secou e moeu cerca de meio quilo de casca e passou a testar o pó.
Primeiro tomou pequenas doses ele mesmo. Depois, deu o pó a paroquianos com febre. Em 1763, enviou uma carta à Royal Society, em Londres, contando que a casca de Salgueiro ajudava a tratar febres intermitentes. Foi um dos primeiros relatos detalhados sobre o uso medicinal da árvore, publicado mais de um século antes de a Aspirina existir.
Nas décadas seguintes, químicos isolaram o princípio ativo. Em 1828, o alemão Johann Buchner obteve cristais relativamente puros de salicina, nome que vem de Salix. Em 1829, o francês Pierre-Joseph Leroux criou um método para extraí-la. Em 1838, o italiano Raffaele Piria chegou a uma forma ácida mais potente, que chamou de ácido salicílico.
Qingming — Galhos Contra os Espíritos
Na China, o Salgueiro tem outra fama. Durante o festival de Qingming, quando as famílias visitam os túmulos dos antepassados, as pessoas penduram galhos de Salgueiro em portões e portas. O costume serve para afastar espíritos errantes que vagam nesse período.
No budismo, um galho de Salgueiro é um dos principais símbolos de Guanyin, a figura da compaixão. Ela costuma ser representada segurando o ramo e um vaso de água, que usa para espalhar bênçãos. No Japão, a tradição associa o Salgueiro aos fantasmas, e diz-se que eles aparecem onde a árvore cresce.
No Ocidente, o Salgueiro-chorão virou símbolo de luto e de amor perdido. Os galhos que se curvam até o chão lembram alguém de cabeça baixa, chorando. Por isso, a árvore aparece em túmulos, pinturas e poemas, sempre perto da água e da saudade. Da China ao Ocidente, o Salgueiro ficou ligado à fronteira entre os vivos e os mortos.
Aspirina — O Nome que Veio de Outra Planta
Muita gente conta que Hipócrates receitava casca de Salgueiro para dor e febre. Mas os textos atribuídos a ele citam a árvore só uma vez: para queimar folhas e fazer fumaça num tratamento depois de um aborto espontâneo. Uma busca nas traduções do Papiro de Ebers também não encontrou o uso da casca contra dor ou febre. Grande parte dessa história antiga circula sem fonte confirmada.
Além disso, a casca do Salgueiro-branco tem pouca salicina. Para obter uma dose eficaz, seria preciso tomar muita casca, e os taninos causariam dor de estômago antes de qualquer alívio.
O passo decisivo veio em 1897, quando Felix Hoffmann, na empresa Bayer, sintetizou o ácido acetilsalicílico, em meio a uma disputa de autoria com Arthur Eichengrün. Em 1899, a Bayer lançou o remédio como Aspirina. O nome vem de Acetylspirsäure, em alemão, que lembra a planta Spiraea ulmaria, a Ulmária, de onde também se obteve o ácido salicílico. Em 1971, o farmacologista John Vane mostrou que o remédio age bloqueando substâncias chamadas prostaglandinas.
Vime — Cestos, Carvão e Margens Protegidas
Os ramos jovens e flexíveis de muitos salgueiros, o vime, foram usados por milênios para trançar cestos, armadilhas de peixe e móveis. Com a madeira, também se fazem caixas, vassouras e tacos de críquete, e o carvão de Salgueiro é usado por artistas para desenhar. Em várias regiões da Europa, a cestaria de vime ainda é um ofício tradicional, passado entre gerações.
O crescimento rápido faz do Salgueiro uma opção para a produção de biomassa e energia. E suas raízes têm um papel ecológico importante: elas seguram o solo das margens, controlam a erosão e funcionam como quebra-ventos. Por isso, a árvore é usada para estabilizar barrancos de rios.
No Brasil, o Salseiro é uma espécie pioneira em solos de beira de rio e ajuda a controlar a erosão causada pela água. Suas sementes são espalhadas pelo vento, pelos pássaros e pela própria água, e suas flores atraem abelhas. A madeira é usada em construções rurais, cercas, mourões, lenha e caixotes para frutas.
Chorão — Uma Árvore Entre a Saudade e a Química
O Salgueiro nasceu nas margens úmidas do hemisfério norte, ganhou um parente nativo no Brasil e espalhou pela Rota da Seda o Salgueiro-chorão chinês, batizado por engano com o nome da Babilônia.
Sua casca intrigou um pároco inglês, deu nome à salicina e ao ácido salicílico e abriu caminho para a Aspirina, que, curiosamente, ganhou o nome de outra planta. Entre a química e a saudade, o Salgueiro continua debruçado sobre a água, segurando as margens dos rios com suas raízes. Basta um galho fincado na lama para que a história recomece.
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Fontes
- History of aspirin (Wikipedia)
- The Uncertain Origins of Aspirin (Asimov Press)
- Hippocrates and willow bark? What you know about the history of aspirin is probably wrong (Medical Xpress)
- Willow (Wikipedia)
- Salix babylonica (Wikipedia)
- Salseiro, Salix humboldtiana (Embrapa, Espécies Arbóreas Brasileiras)

