Araçá: A Prima Pequena da Goiaba que Virou Praga no Havaí

Nativo do sul do Brasil, o Araçá deu nome a Araçatuba, ganhou o nome de um horticultor inglês e, levado para o Havaí em 1825, virou uma das invasoras mais combatidas das ilhas

 

Restinga — A Prima Pequena da Goiaba

Em muitos quintais e beiras de mata do Sul e do Sudeste do Brasil, cresce uma árvore baixa, de tronco liso e avermelhado, carregada de frutinhas vermelhas ou amarelas. É o Araçá, uma fruta de sabor azedinho, perfumado, que lembra uma goiaba em miniatura. Também cresce em restingas, perto do mar, onde aguenta solo arenoso e vento forte.

O parentesco é real. O Araçá pertence ao mesmo gênero da Goiaba e à mesma família da Jabuticaba e da Pitanga. Mas, enquanto a Goiaba ganhou pomares e indústrias, o Araçá continuou sendo, em grande parte, uma fruta de quintal, comida no pé, que muita gente nunca viu à venda num supermercado.

Esta é a história do Psidium cattleyanum, uma frutinha nativa do Brasil que deu nome a uma cidade paulista, ganhou o nome de um jardineiro inglês e, do outro lado do mundo, virou uma praga combatida nas ilhas do Havaí.

 

Psidium — A Árvore de Casca Lisa

O Araçá é nativo do sul do Brasil e se espalha do Rio Grande do Sul até a Bahia, além de outros países da América do Sul. Pertence à família das Mirtáceas, a mesma da Goiaba, da Jabuticaba, da Pitanga e do Eucalipto, e ao gênero Psidium, o mesmo da Goiabeira.

É uma árvore pequena, que costuma ter de 2 a 6 metros, mas pode chegar a 13. O tronco tem casca lisa, cinza ou marrom-avermelhada, e as folhas são ovais, com cerca de 4,5 centímetros. As flores brancas, de 5 pétalas, aparecem sozinhas ou em grupos de 3, com muitos estames que atraem abelhas.

Existem 2 formas principais. O Araçá-vermelho, Psidium cattleyanum var. cattleyanum, tem frutos vermelhos quando maduros. O Araçá-amarelo, chamado de var. littorale, produz mais e tem frutos geralmente maiores. Os frutos são ovais, com cerca de 4 centímetros, casca fina e polpa macia, cheia de sementes pequenas.

 

O Psidium cattleyanum homenageia William Cattley, horticultor inglês do século XIX — o mesmo que deu nome às orquídeas Cattleya

 

Cattley — O Nome de um Jardineiro Inglês

O nome científico do Araçá homenageia William Cattley, um horticultor inglês do século 19 que colecionava plantas tropicais em sua estufa, perto de Londres. Cattley ficou conhecido por cultivar plantas trazidas de várias partes do mundo, e seu nome também batiza um gênero de orquídeas, a Cattleya.

Levado para jardins e estufas, o Araçá começou a viajar. Chegou ao Havaí em 1825, provavelmente como planta ornamental e frutífera. Também foi levado para ilhas do oceano Índico, como Reunião e Madagascar, além da Flórida, nos Estados Unidos.

Nessas ilhas, encontrou clima quente, chuvas regulares e quase nenhum inimigo natural. Pássaros e porcos selvagens comiam os frutos e espalhavam as sementes pela floresta. O que era uma frutinha de quintal no Brasil começou a se transformar num problema ecológico em lugares onde a planta não existia antes. Longe dos insetos, fungos e animais que controlam seu crescimento no Brasil, ela passou a avançar sem freio sobre as matas nativas.

 

Vitamina — O Mito das 4 Laranjas

Fala-se com frequência que o Araçá teria várias vezes mais vitamina C que a Laranja. Os números não confirmam. Segundo a base de dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, 100 gramas de Araçá cru têm cerca de 37 miligramas de vitamina C, menos que a quantidade presente na Laranja.

Isso não tira o valor da fruta. O Araçá tem um teor elevado de compostos fenólicos, vitaminas e minerais. Pesquisadores brasileiros observaram que o suco de Araçá mantém cerca de 45% da vitamina C depois do processamento e que a fruta tem mais compostos fenólicos que a Maçã. Estudos também apontam ação antioxidante em extratos das sementes.

O sabor é outro ponto forte. O Araçá é ácido, perfumado e levemente adocicado, com aroma que lembra Goiaba, Morango e frutas cítricas. Em inglês, ele é chamado de strawberry guava, goiaba-morango, justamente por causa desse cheiro. É uma fruta que agrada mais pelo perfume e pela acidez do que pelos números de laboratório.

 

Nativo da Mata Atlântica, o araçá virou uma das plantas invasoras mais problemáticas do mundo em ilhas como o Havaí e a Reunião, onde forma matas fechadas

 

Araçatuba — A Terra dos Araçás

O Araçá tem nome tupi, e esse nome ficou marcado no mapa do Brasil. A cidade de Araçatuba, no interior de São Paulo, tem um nome que vem do tupi e quer dizer abundância de araçás, ou lugar com muitos araçás.

Nomes assim mostram como os povos indígenas conheciam bem a paisagem e as plantas de cada lugar. Um rio, um morro ou uma mata podiam ser identificados pelas árvores que cresciam ali. O Araçá, comum em restingas, beiras de mata e campos, servia como marca do território.

O nome araçá também passou a ser usado para várias frutas parecidas, de espécies diferentes. Há o Psidium guineense, outro Araçá nativo, que ocorre do sul do México ao norte da Argentina. Na Amazônia, o Araçá-boi é uma fruta grande e ácida, de outro gênero da mesma família. Para quem cresceu no interior, cada região tem o seu Araçá, muitas vezes ligado a lembranças de infância e de frutas colhidas direto do pé.

 

Waiawi — A Fruta que Virou Praga no Havaí

No Havaí, onde é chamado de waiawi, o Araçá se tornou uma das plantas invasoras mais prejudiciais do arquipélago. Ele forma moitas fechadas que bloqueiam a luz e impedem o crescimento de árvores nativas. Pássaros e porcos selvagens espalham as sementes floresta adentro.

O impacto vai além das plantas. Estudos indicam que florestas tomadas pelo Araçá devolvem 27% mais água para o ar do que florestas sem ele. Isso significa menos água chegando aos rios e aos lençóis subterrâneos das ilhas. A planta também abriga moscas-das-frutas que causam prejuízo à agricultura local.

Para tentar controlá-lo, cientistas passaram 15 anos estudando um inseto brasileiro, a cochonilha Tectococcus ovatus, que só ataca o Araçá. Ela forma galhas nas folhas e reduz a reprodução da planta. A liberação no Havaí foi planejada a partir de dezembro de 2011, na ilha principal, Big Island, e gerou debate entre ambientalistas e agricultores. Os cientistas defendiam que o inseto não eliminaria a planta, apenas reduziria seu avanço.

 

A coroinha na ponta de cada araçá é o que sobra das sépalas da flor — a mesma marca que aparece na goiaba, sua parente da família das Mirtáceas

 

Quintal — Uma Fruta à Espera de Pesquisa

No Brasil, o Araçá continua sendo, sobretudo, uma fruta de quintal e de mata. É comido direto no pé, transformado em doces, geleias, sucos e licores caseiros, e atrai pássaros que espalham suas sementes. Em algumas regiões, aparece em feiras durante a safra, vendido em pequenas caixas ou copinhos.

Apesar disso, a fruta ainda recebe pouca atenção da pesquisa agrícola. Pesquisadores apontam que, com exceção da Goiabeira, não existe até agora um programa de melhoramento genético para as espécies nativas de Psidium. Isso significa que o Araçá cultivado hoje é praticamente o mesmo que cresce na natureza, sem variedades selecionadas para frutos maiores ou mais doces.

Para quem pensa em frutas nativas, o Araçá tem bons argumentos. É resistente, produz bem, tem sabor marcante e cresce em diferentes ambientes da Mata Atlântica. Valorizado em seu lugar de origem, ele pode ser uma fruta de futuro, em vez de um problema como nas ilhas onde foi levado.

 

Galhas — Uma Fruta Entre o Quintal e o Mundo

O Araçá nasceu nas matas do sul do Brasil, deu nome a Araçatuba e ganhou o nome científico de um jardineiro inglês. Levado para longe, virou praga no Havaí e motivou o envio de um pequeno inseto brasileiro para controlá-lo.

No Brasil, segue esperando atenção, e talvez seu futuro esteja justamente onde ele nasceu. Não tem 4 vezes mais vitamina C que a Laranja, mas tem perfume, acidez e história. Cada frutinha vermelha colhida no pé lembra que uma planta pode ser tesouro em casa e problema longe dela. A diferença entre os 2 destinos está no lugar onde ela cresce e nos seres vivos que crescem junto com ela.

Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

Artigos Relacionados