Carambola: a Estrela do Sudeste Asiático que Limpa Latão e Pede Cuidado com os Rins

Do nome de Averróis à toxina descoberta na USP, a Carambola viajou com navegadores austronésios, ganhou nome português e chegou ao Brasil em 1817

 

Estrela — Uma Fruta que Muda de Forma no Corte

A Carambola parece comum até ser cortada. Inteira, é uma fruta alongada, de casca lisa e gomos salientes. Fatiada, revela uma estrela perfeita, que já enfeitou pratos, drinques e sobremesas em vários países tropicais e hoje aparece em feiras e quintais de boa parte do Brasil.

Por trás dessa forma, porém, existe uma química curiosa. O suco ácido de algumas variedades já foi usado para limpar metal e tirar manchas de ferrugem de tecidos. E a mesma fruta guarda uma toxina que só foi isolada em 2013, por pesquisadores brasileiros, depois de anos de estudo.

Esta é a história da Averrhoa carambola, a fruta do Sudeste Asiático que leva no gênero o nome de um filósofo de al-Andalus, que recebeu dos portugueses o nome carambola, que chegou ao Brasil no começo do século 19 e que exige cuidado de quem tem problemas nos rins.

 

Sudeste — Uma Fruta Cultivada Há Séculos na Ásia

A Carambola é nativa do Sudeste Asiático, seu centro de diversidade, onde é cultivada há muitos séculos. A botânica Julia Morton, no livro Fruits of Warm Climates, de 1987, aponta o Sri Lanka e as ilhas Molucas como prováveis origens. O Parque Nacional de Singapura cita o Sri Lanka, a Índia, a Indonésia e a Malásia como sua área nativa.

Foram comerciantes austronésios, povos navegadores do Sudeste Asiático e do Pacífico, que levaram a fruta para o subcontinente indiano e o Sri Lanka. Com ela viajaram outras frutas da região, como o langsat, o noni e o santol, que também ganharam espaço nas novas terras.

Hoje, a Carambola é comum no leste da Ásia, na Oceania e nas ilhas do Pacífico. Também é cultivada na América Central e do Sul, no Havaí, no Caribe e em partes da África. Em muitas regiões, aliás, é considerada uma planta com risco de se tornar invasora. No Brasil, segundo a Embrapa, ela chegou em 1817.

 

Os cinco gomos do fruto correspondem aos cinco carpelos do ovário da flor — cada um crescendo simetricamente e formando ao corte transversal uma das geometrias mais precisas produzidas pelo reino vegetal

 

Averróis — Um Filósofo e uma Palavra Indiana

O gênero Averrhoa, criado por Lineu, homenageia Averróis, filósofo e médico árabe que viveu de 1126 a 1198 em al-Andalus, a Espanha muçulmana. Ele ficou conhecido pelos comentários às obras de Aristóteles. O gênero tem 5 espécies aceitas e pertence à família das Oxalidáceas, a mesma dos trevos-azedos.

O nome carambola veio do português e aparece registrado em 1598. Segundo o dicionário Merriam-Webster, provavelmente vem de uma forma do concani, ligada à palavra marata karambala, que por sua vez remonta ao sânscrito. A origem final, porém, é incerta. Segundo Julia Morton, o nome viria da costa do Malabar, no sudoeste da Índia, e foi adotado cedo pelos portugueses.

Pelo mundo, a fruta tem muitos nomes. É khế no Vietnã, balimbing nas Filipinas, belimbing na Malásia e na Indonésia, kamaranga na Índia e carambolo nos países de língua espanhola. Em inglês, se chama star fruit, fruta-estrela, por causa do corte. A outra espécie do gênero cultivada pelos frutos é o Biri-biri, Averrhoa bilimbi.

 

Heterostilia — Flores que Precisam de Par

A Carambola é uma árvore perene de crescimento lento, muito ramificada, que pode chegar a 9 metros ou mais, conforme a fonte e o lugar. As folhas são compostas, com vários folíolos, e se fecham quando o galho é sacudido. As flores, de rosa a lilás, têm 5 pétalas e cerca de 1 centímetro.

Um detalhe dessas flores explica parte do cultivo. Elas são heterostílicas, ou seja, cada variedade tem flores apenas com estilete longo ou apenas com estilete curto. Por isso, algumas variedades, como a B-10 e a B-17, produzem mais frutos quando plantadas perto de outra variedade, que faz a polinização cruzada.

Outras, como Fwang Tung, Golden Star e Arkin, produzem bem mesmo em plantios de uma só variedade. O fruto é uma baga de 5 a 15 centímetros, em geral com 5 ou 6 gomos salientes. Ao contrário de muitas frutas, a Carambola não fica mais doce depois de colhida. Por isso, as melhores são as que amadurecem no pé.

 

A Averrhoa carambola chegou ao Brasil em 1817 — introduzida pelo agrônomo francês Paul Germain no Jardim Botânico de Olinda, em Pernambuco, tornando-se uma das frutas mais presentes nos quintais nordestinos

 

Latão — O Suco que Limpa Metal

A Carambola tem 2 grandes grupos. As variedades azedas, menores e de sabor intenso, têm mais ácido oxálico. As doces, maiores, são mais suaves e têm menos desse ácido. Algumas azedas, como a Golden Star, ficam doces quando amadurecem por completo na árvore.

É justamente o ácido das variedades azedas que deu à fruta um uso fora da cozinha. Seu suco era usado para limpar e polir metal, sobretudo latão, porque dissolve a camada escura de oxidação e a ferrugem. Também servia para tirar manchas de ferrugem de tecidos brancos.

A fruta verde ainda pode substituir o mordente no tingimento de tecidos, a substância que ajuda a fixar a cor. Segundo a Embrapa, até o suco das sementes era usado para remover manchas. Hoje, essas aplicações domésticas ficaram em segundo plano, mas mostram como a mesma química que dá o sabor azedo à fruta já teve utilidade prática em várias casas.

 

Caramboxina — A Toxina Descoberta no Brasil

A Carambola esconde um perigo para quem tem os rins doentes. Em 2013, uma equipe da Universidade de São Paulo, liderada por Norberto Garcia-Cairasco e Norberto Peporine Lopes, publicou na revista Angewandte Chemie a identificação da toxina responsável. Os estudos tinham começado em 1998, cerca de 15 anos antes.

A substância foi chamada de caramboxina. Sua estrutura lembra a do aminoácido fenilalanina, e ela age sobre receptores do glutamato no cérebro, causando hiperexcitação. Em pessoas com os rins saudáveis, a toxina é eliminada sem problemas. Nos doentes renais, ela se acumula e pode provocar soluços persistentes, vômitos, confusão mental, convulsões e até morte.

Por isso, os pesquisadores recomendam que pessoas com problemas nos rins ou com diabetes evitem a fruta e o suco. Quem tem os rins saudáveis não corre esse risco, mas não deve exagerar no consumo. Além disso, a Carambola inibe enzimas do fígado ligadas à eliminação de remédios, como a toranja, o que pode alterar o efeito de alguns medicamentos.

 

O mesmo ácido oxálico que dá o sabor azedo à carambola era usado pelos malaios para polir metais e remover manchas de tecidos — e pode causar intoxicação grave em pessoas com problemas renais

 

Arkin — Da Flórida aos Mercados do Mundo

Na cozinha, a Carambola tem muitas faces. No Sudeste Asiático, é cozida com cravo e açúcar. Na China, vai à panela com peixe, e na Tailândia, com camarão. Na Jamaica, é seca, e nas Filipinas, comida verde com sal grosso. Também vira suco, geleia, picles e enfeite de pratos.

Nos Estados Unidos, o cultivo comercial e a aceitação da fruta datam dos anos 1970, graças em boa parte a Morris Arkin, de Coral Gables, na Flórida. A variedade que leva seu nome, a Arkin, ocupava 98% da área plantada no sul da Flórida no começo do século 21. Ela também está entre as principais variedades comerciais citadas pela Embrapa no Brasil.

Os grandes produtores mundiais incluem Austrália, Guiana, Índia, Israel, Malásia, Filipinas, Taiwan e Estados Unidos, e a Malásia lidera em volume. Mesmo assim, as frutas inteiras da Malásia não podem entrar nos Estados Unidos por causa de pragas. Segundo a Embrapa, as variedades azedas vão sobretudo para suco e exportação, em especial para a Europa.

 

Corte — Uma Fruta para Conhecer Antes de Comer

A Carambola é uma fruta de forma simples e história longa. Nasceu no Sudeste Asiático, viajou com navegadores austronésios, ganhou de Lineu o nome de um filósofo e recebeu dos portugueses uma palavra vinda da Índia. Em cada parada, ganhou um nome novo e um uso diferente.

Ao longo do caminho, limpou latão, tingiu tecidos, entrou em panelas de vários países e virou variedade comercial na Flórida. No Brasil, onde chegou em 1817, ganhou quintais e pomares e também uma descoberta científica, a da caramboxina. Para quem tem os rins saudáveis, é uma fruta para apreciar com moderação. Para quem tem problemas renais, a estrela deve ficar só no prato dos outros.

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