O Capim que Adoçou o Mundo
Por milênios, o doce da humanidade veio do Mel e das frutas. Até que povos da Nova Guiné começaram a mastigar e cultivar um capim gigante cheio de caldo açucarado. Séculos depois, na Índia, alguém descobriu como transformar esse caldo em cristais que duravam meses.
A Cana-de-açúcar atravessou a Ásia, o mundo árabe e o Mediterrâneo antes de chegar às Américas. No Brasil, virou o centro da economia colonial, movida pelo trabalho de milhões de africanos e indígenas escravizados.
Hoje, a mesma planta que adoça o café move carros, gera eletricidade e vira cachaça. Esta é a história de um capim que mudou o gosto, a economia e a população de continentes inteiros.
Saccharum — Um Capim Gigante da Nova Guiné
A Cana-de-açúcar pertence ao gênero Saccharum, da família Poaceae, a mesma do Milho, do Trigo e do Bambu. A Cana nobre, Saccharum officinarum, foi selecionada por povos da Nova Guiné há cerca de 6 mil anos, a partir da espécie selvagem Saccharum robustum.
Os agricultores papuas escolheram plantas de caule grosso, casca macia e muito caldo, que podiam ser mastigadas cruas. Até hoje, famílias da Nova Guiné cultivam variedades tradicionais em suas hortas justamente para mastigar. Navegadores austronésios levaram a Cana pelas ilhas do Pacífico e do Sudeste Asiático. Por volta de 3 mil anos atrás, ela já estava na Índia e na China, onde se cruzou com outras espécies de Saccharum.
As Canas cultivadas hoje são híbridos dessas espécies. Têm muitas cópias de cada cromossomo e um dos genomas mais complexos entre as plantas cultivadas. A planta pode passar de 4 metros de altura e guarda o açúcar, a sacarose, dentro do caule. Por isso, a colheita é feita perto do chão, onde o caldo é mais concentrado.
Sharkara — Da Índia ao Mediterrâneo e à Madeira
Foi na Índia, por volta do ano 350 da era comum, que surgiu a técnica de ferver o caldo até formar cristais fáceis de guardar e transportar. Em sânscrito, o açúcar era sharkara, palavra que deu origem a açúcar, sugar e sucre. Outro nome, khanda, virou candy, doce em inglês.
Séculos antes, por volta de 325 antes da era comum, Nearco, almirante de Alexandre, o Grande, já tinha visto a Cana na Índia. Relatos antigos falam de uma cana que dava mel sem a ajuda de abelhas, uma novidade para os gregos, que só conheciam o doce do Mel.
Os persas aprenderam a técnica, e os árabes levaram a Cana e o açúcar ao Egito, à Sicília e à Península Ibérica. Em 1425, os portugueses iniciaram o cultivo na ilha da Madeira, que virou grande produtora de açúcar. Em 1493, na segunda viagem às Américas, Colombo levou mudas de Cana para a ilha de Hispaniola, no Caribe.
Sacarose — Energia em Forma de Caldo
A Cana-de-açúcar é uma planta C4, com um tipo de fotossíntese mais eficiente em clima quente e com muito sol. Isso permite que ela acumule grande quantidade de açúcar no caule em poucos meses. Cerca de 79% do açúcar produzido no mundo vem da Cana, e quase todo o restante vem da Beterraba.
O caldo de Cana, a garapa, tem água, sacarose e pequenas quantidades de minerais como potássio, cálcio e ferro. A rapadura e o açúcar mascavo, feitos sem refinar, preservam parte desses minerais. O açúcar branco, refinado, é praticamente só sacarose. No corpo, a sacarose é quebrada em glicose e frutose e vira energia rápida, o que explica o apelo da garapa em dias quentes e de trabalho pesado.
Os poderes da Cana também têm limites. Em excesso, o açúcar está ligado à cárie, à obesidade e ao diabetes tipo 2. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os açúcares livres fiquem abaixo de 10% das calorias diárias, e de preferência abaixo de 5%.
Kamadeva — O Arco de Cana e a Cachaça dos Terreiros
Na Índia, a Cana tem lugar sagrado. Kamadeva, o deus hindu do amor e do desejo, carrega um arco feito de Cana-de-açúcar, com corda formada por abelhas e flechas de flores. Na colheita de janeiro, festas como o Pongal, no sul da Índia, celebram a fartura com Cana, Arroz e açúcar. Feixes de Cana enfeitam as portas das casas, e o Arroz é cozido com leite e açúcar até transbordar da panela, sinal de prosperidade.
No Brasil colonial, a safra começava com um ritual católico: o padre benzia o engenho e as moendas antes da primeira moagem. O jesuíta André João Antonil descreveu a cerimônia em 1711, no livro Cultura e Opulência do Brasil. Pedia-se proteção contra acidentes, que eram comuns e graves.
A Cana também entrou nos terreiros. Na umbanda e em outras religiões de matriz africana, a cachaça é oferecida a entidades como Exu e Zé Pilintra. Nas festas populares, o primeiro gole costuma ir para o chão, “para o santo”, um gesto que sobrevive em muitas mesas brasileiras.
Bagaço — A Planta que Vira Combustível e Energia
A Cana quase não é plantada por sementes. Os agricultores cortam pedaços do caule, os toletes, e os enterram. De cada nó brota uma nova planta, uma cópia da anterior. Depois do primeiro corte, a mesma touceira rebrota e pode ser colhida por vários anos seguidos.
Nada se perde na Cana. O caldo vira açúcar, etanol ou cachaça. O bagaço, a fibra que sobra depois da moagem, é queimado nas usinas para gerar vapor e eletricidade, e o excedente vai para a rede elétrica. Muitas usinas brasileiras produzem toda a energia que consomem. A vinhaça, resíduo da destilação, volta para o campo como adubo.
O etanol brasileiro nasceu de uma crise. Em 1975, com a alta do petróleo, o governo criou o Proálcool. Em 1979, o Fiat 147 se tornou o primeiro carro de série movido a álcool. Em 2003, chegaram os motores flex, que aceitam álcool, gasolina ou qualquer mistura dos 2.
Engenho — Do Açúcar Colonial à Garapa de Feira
Um dos primeiros engenhos do Brasil foi fundado por Martim Afonso de Sousa em São Vicente, logo após a criação da vila, em 1532. Suas ruínas, o Engenho São Jorge dos Erasmos, em Santos, hoje pertencem à Universidade de São Paulo e são monumento nacional desde 1963.
O centro da produção logo se mudou para Pernambuco e a Bahia. Os engenhos dependiam do trabalho escravizado, primeiro de indígenas e depois, cada vez mais, de africanos. Ao longo de 3 séculos, o Brasil recebeu quase 5 milhões de africanos escravizados, levados para o açúcar e, mais tarde, para o ouro e o café. Em 1933, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre analisou essa sociedade em Casa-Grande & Senzala, livro que marcou o debate sobre a formação do Brasil.
Hoje, o Brasil produz cerca de 38% de toda a Cana do mundo. Ela está no açúcar, no etanol, na rapadura nordestina e na garapa com limão das feiras. E está na cachaça, nascida nos próprios engenhos coloniais. A cachaça é feita do caldo fermentado e destilado, diferente do rum, que em geral usa o melaço.
Um Doce com Muitas Histórias
A Cana-de-açúcar começou como um capim mastigado na Nova Guiné há 6 mil anos e virou cristal na Índia. Depois atravessou o mundo árabe e o Atlântico até se tornar a base da economia colonial brasileira.
Sua história é doce e amarga ao mesmo tempo. O açúcar enriqueceu impérios, e seu custo foi pago por milhões de pessoas escravizadas. Hoje, a mesma planta abastece carros, gera energia e ainda adoça o café e a garapa de cada dia. Conhecer a Cana ajuda a entender como o Brasil se formou, e quem pagou por essa formação.
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