Chá: Uma Folha das Montanhas da Ásia que Virou Ritual, Revolta e Palavra em Todas as Línguas

Do mesmo arbusto saem o chá verde, o preto, o branco e o matcha: nascido entre a China, a Índia e Mianmar, o chá virou cerimônia zen, moda na corte inglesa por uma princesa portuguesa, estopim em Boston e plantação de imigrantes japoneses no Vale do Ribeira

 

Uma Folha, Muitas Xícaras

Chá verde, chá preto, chá branco, oolong, pu-erh. Parecem bebidas de plantas diferentes, mas vêm todas das folhas de um mesmo arbusto. O que muda é o que acontece com elas depois da colheita: se secam logo, se murcham, se oxidam ou se fermentam.

Depois da água, o chá é a bebida mais consumida do mundo. Nasceu nas montanhas entre a China, a Índia e Mianmar e virou ritual zen no Japão, costume da corte inglesa, motivo de revolta nos Estados Unidos e de guerra na China.

No Brasil, a palavra chá virou sinônimo de qualquer infusão de ervas, da camomila ao boldo. Mas o chá verdadeiro também tem história aqui, de um jardim botânico criado por Dom João VI às plantações dos imigrantes japoneses no Vale do Ribeira. Esta é a história de uma folha que atravessou impérios dentro de uma xícara.

 

Camellia — Um Arbusto das Montanhas da Ásia

O chá vem da planta Camellia sinensis, da família Theaceae, parente das Camélias ornamentais dos jardins. É um arbusto ou pequena árvore de folhas verdes e brilhantes e flores brancas perfumadas. Nos plantios, é podado na altura da cintura para facilitar a colheita.

A região de origem fica entre o nordeste da Índia, o norte de Mianmar e o sudoeste da China, onde a planta provavelmente foi domesticada. Há 2 variedades principais: a sinensis, de folhas pequenas, usada nos chás da China e do Japão, e a assamica, de folhas grandes, base da maioria dos chás da Índia e do pu-erh.

Os chás mais finos usam só o broto e as 2 primeiras folhas de cada ramo, colhidos à mão. Quanto mais jovens as folhas, mais delicado e perfumado o chá. Sem poda, a planta vira árvore e pode viver muitas décadas, e na China existem árvores de chá antigas, de onde se colhem folhas para o pu-erh. O clima, a altitude e o solo mudam o sabor, como acontece com as uvas do vinho.

 

As flores brancas de estames dourados denunciam o parentesco — a planta do chá pertence ao mesmo gênero das camélias de jardim, o Camellia

 

Cha Jing — Das Tumbas Chinesas à Corte Inglesa

Uma lenda chinesa conta que o imperador Shennong descobriu o chá há quase 5 mil anos, quando folhas caíram na água que ele fervia. A arqueologia mostra datas mais recentes, mas ainda muito antigas. Em 2021, pesquisadores identificaram restos de chá carbonizado numa tigela de uma tumba de Zoucheng, na província de Shandong, com cerca de 2.400 anos, os mais antigos conhecidos.

No século 8, o escritor Lu Yu escreveu o Clássico do Chá, o primeiro livro dedicado à bebida, com regras de cultivo, preparo e serviço. No Japão, o monge budista Eisai levou sementes da China no fim do século 12, e o chá se ligou à meditação zen.

Os portugueses estavam entre os primeiros europeus a conhecer o chá, no século 16. Em 1662, a princesa portuguesa Catarina de Bragança casou-se com o rei inglês Charles II e ajudou a pôr o chá na moda na corte da Inglaterra.

 

Teanina — A Calma que Acompanha a Cafeína

As folhas do chá têm cafeína, mas também L-teanina, um aminoácido raro em outras plantas, associado a uma sensação de calma e concentração. Por isso, o chá costuma dar um estímulo mais suave e prolongado que o café.

O chá também é rico em catequinas e outros polifenóis, compostos antioxidantes estudados por possíveis efeitos sobre o coração e o metabolismo. No chá verde, que não é oxidado, essas catequinas ficam preservadas. No chá preto, a oxidação as transforma em teaflavinas e tearubiginas, que dão a cor escura e o sabor encorpado.

Os estudos sugerem benefícios para quem bebe chá com frequência, mas muitos são observacionais e não provam causa e efeito. Bebidas muito quentes, acima de 65 °C, foram classificadas como provavelmente cancerígenas para o esôfago, por isso vale esperar o chá amornar um pouco. Tomado junto com as refeições, o chá também reduz a absorção do ferro dos alimentos.

 

O arbusto baixo das plantações é resultado da poda — na natureza, a planta do chá cresce como árvore, e nas montanhas de Yunnan, na China, árvores de chá centenárias ainda são colhidas

 

Chanoyu — O Caminho do Chá

No Japão, o chá virou caminho espiritual. No século 16, o mestre Sen no Rikyu deu forma ao chanoyu, a cerimônia do chá, baseada em 4 princípios: harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. Numa casa de chá simples, cada gesto é pensado, do jeito de lavar a tigela ao modo de servir o matcha, o chá verde em pó batido com um batedor de bambu.

Na China, o gongfu cha é uma forma de preparo cuidadosa, em pequenos bules de barro, com várias infusões curtas das mesmas folhas. Na Inglaterra, o chá da tarde virou ritual social no século 19, com bules de porcelana, sanduíches pequenos e bolos. No Tibete, o chá é batido com manteiga e sal, e em Hong Kong é misturado com leite evaporado ou condensado.

No mundo árabe, na Turquia, na Rússia e na Índia, o chá é sinal de hospitalidade. Em muitas casas desses lugares, é a primeira coisa oferecida a quem chega, e aceitar o copo faz parte da conversa.

 

Chá ou Tea — Palavras, Revoltas e Contrabando

O nome da bebida conta sua viagem. Os povos que conheceram o chá por terra, pela Rota da Seda, usam palavras parecidas com chá, como chai em russo, persa e hindi. Os que o conheceram pelo mar, pelos portos de Fujian, usam palavras parecidas com te, como tea em inglês e thé em francês. Os portugueses são uma exceção: aprenderam a palavra chá com o cantonês, em Macau, no século 16.

O chá também mudou a política. Em 1773, colonos americanos jogaram 342 caixas de chá no porto de Boston, em protesto contra impostos britânicos, num dos episódios que levaram à independência dos Estados Unidos. Para pagar o chá chinês, os britânicos vendiam ópio à China, o que levou às Guerras do Ópio, no século 19.

Outro segredo foi um contrabando botânico. A partir de 1848, a serviço da Companhia das Índias Orientais, o botânico escocês Robert Fortune levou plantas, sementes e trabalhadores chineses para a Índia. Em parte das viagens, andou disfarçado de mercador chinês.

 

O chá verde mantém essa cor porque as folhas são aquecidas logo após a colheita — o calor interrompe a oxidação que, se seguisse adiante, daria origem ao chá preto

 

Registro — Do Jardim Botânico ao Vale do Ribeira

Hoje, a China responde por cerca de metade da produção mundial de chá, seguida pela Índia. Quênia, Sri Lanka e Turquia também estão entre os grandes produtores.

No Brasil, Dom João VI tentou cultivar chá no Rio de Janeiro no início do século 19 e trouxe trabalhadores chineses para o Jardim Botânico e para fazendas da região, mas o projeto não prosperou comercialmente. O chá se firmou no século 20, com imigrantes japoneses no Vale do Ribeira, em São Paulo. Em Registro, Torazo Okamoto introduziu mudas da variedade assamica, e a cidade chegou a ter 40 fábricas de chá.

A produção caiu a partir dos anos 1990 com a concorrência internacional, mas Registro continua sendo a capital paulista do chá. O mate gelado e as infusões de ervas costumam ser mais populares no país do que o chá da Camellia. Nos últimos anos, porém, pequenos produtores do Sul e do Sudeste voltaram a plantar chá para fazer folhas artesanais.

 

Uma Planta, Muitas Culturas

O chá nasceu nas montanhas entre a China, a Índia e Mianmar e virou bebida de monges, imperadores, rainhas e trabalhadores. Inspirou cerimônias, livros e palavras, provocou revoltas e guerras e motivou um contrabando botânico que mudou a geografia do chá.

No Brasil, chegou pelas mãos de um rei português e criou raízes com imigrantes japoneses. De um mesmo arbusto saem o matcha do Japão, o chá preto da tarde inglesa e o chá verde das prateleiras brasileiras, prova de que a forma de preparar uma folha pode mudar uma cultura inteira.

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Fontes

  • Wikipedia. Tea. Link
  • Sci.News. 2,400-Year-Old Tea Residue Found in China. Link
  • Wikipedia. Etymology of tea. Link
  • Wikipedia. Robert Fortune. Link
  • Assembleia Legislativa de São Paulo. O chá dos chás: conheça Registro, capital paulista da bebida. Link

 

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