Cupuaçu: O Primo do Cacau que os Indígenas Domesticaram no Rio Negro e o Brasil Defendeu no Japão

Domesticado a partir do Cupuí há 5 a 8 mil anos no Rio Negro, o Cupuaçu tem polpa com perfume de chocolate e abacaxi e sementes que viram cupulate. Em 2004, organizações brasileiras derrubaram no Japão o registro de seu nome como marca

 

Perfume — O Fruto que Toma Conta da Casa

Basta um Cupuaçu maduro sobre a mesa para a cozinha inteira mudar de cheiro. O perfume forte e doce, que lembra chocolate e abacaxi, anuncia o fruto antes mesmo de ele ser aberto. Na fruteira, um único fruto pode perfumar o ambiente por dias. Na Amazônia, ele vira suco, creme, sorvete, bombom, geleia e doce em calda, e é presença comum nas feiras de Belém e de Manaus.

O Cupuaçu é parente próximo do Cacau e também guarda sementes que podem virar um tipo de chocolate. Mas sua história é própria: foi domesticado por povos indígenas da Amazônia há milhares de anos e, no começo deste século, esteve no centro de uma disputa internacional pelo seu nome.

Esta é a história de um fruto amazônico que saiu da floresta pelas mãos indígenas, ganhou o Brasil e precisou ser defendido no Japão.

 

Grandiflorum — O Primo do Cacau de Flores Grandes

O Cupuaçu é a espécie Theobroma grandiflorum, da família Malvaceae, a mesma do Cacau, do Quiabo e do Algodão. O nome do gênero, Theobroma, quer dizer alimento dos deuses, e grandiflorum indica as flores grandes, maiores que as do Cacau. A árvore costuma ter de 5 a 15 metros de altura e cresce bem à sombra de outras árvores, como acontece com o Cacau.

O fruto tem casca dura e marrom, coberta por uma camada fina que lembra veludo, e não muda de cor quando amadurece. Por isso, os agricultores esperam que ele caia sozinho da árvore. Dentro, uma polpa branca, cremosa e muito perfumada envolve dezenas de sementes grandes.

O sabor da polpa costuma ser descrito como uma mistura de pera, banana, maracujá e melão, enquanto o cheiro lembra chocolate e abacaxi. A acidez e o perfume intenso fazem da polpa uma base muito usada em sucos, sorvetes e sobremesas.

 

Ao contrário do cacau, o cupuaçu dá flores e frutos nos galhos, e não no tronco — e as flores grandes e vermelho-escuras deram à espécie o nome grandiflorum

 

Cupuí — 8 Mil Anos de Domesticação Indígena

Em 2023, um estudo da Universidade de São Paulo publicado na revista Communications Earth & Environment comparou os genomas do Cupuaçu e de seu parente selvagem, o Cupuí, Theobroma subincanum. A conclusão foi que o Cupuaçu é uma forma domesticada do Cupuí, criada pelos povos indígenas da Amazônia.

Segundo os pesquisadores, a domesticação começou na região do médio e alto Rio Negro, entre 5 mil e 8 mil anos atrás. As amostras mais antigas de Cupuaçu têm parentesco próximo com populações de Cupuí da região de São Gabriel da Cachoeira e de Balbina, no Amazonas. Como acontece em plantas domesticadas, o Cupuaçu tem menos diversidade genética que seu parente selvagem, e seus frutos são maiores e de polpa mais abundante.

Depois dessa fase inicial, o fruto se espalhou lentamente pela Amazônia. Segundo o mesmo estudo, a expansão se intensificou nos últimos 2 séculos, com o ciclo da borracha, no fim do século 19, e com as migrações para a Amazônia nos anos 1970 e 1980.

 

Cupulate — A Semente que Vira Chocolate

As sementes do Cupuaçu, como as do Cacau, podem ser fermentadas, secas, torradas e moídas. O resultado é o cupulate, um produto parecido com o chocolate. A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores brasileiros, e a Embrapa registrou o nome cupulate no fim dos anos 1990. Mais tarde, a USP patenteou uma formulação com melhor consistência, que derrete menos à temperatura ambiente.

A gordura das sementes, a manteiga de Cupuaçu, derrete por volta de 30 graus e é formada principalmente por ácido esteárico e ácido oleico. Por isso, é usada em cosméticos, como cremes e hidratantes, além de servir para produtos alimentícios.

As sementes também têm metilxantinas, a família de substâncias da cafeína e da teobromina, mas em quantidades menores que as do Cacau. Entre elas está a teacrina, uma substância aparentada à cafeína. Por isso, o cupulate costuma ser apresentado como uma alternativa de sabor parecido, mas com menos estimulantes que o chocolate.

 

O cupuaçu maduro cai sozinho do pé — e um estudo de 2023 indica que povos do Rio Negro começaram a domesticá-lo entre 8 e 5 mil anos atrás

 

Abelhas — O Desafio da Polinização

As flores do Cupuaçu têm uma estrutura complexa, e a maioria das árvores é autoincompatível: precisa do pólen de outra planta para formar frutos. Sem polinizadores, a árvore floresce, mas dá pouca produção.

Na Amazônia, esse trabalho é feito sobretudo por pequenos besouros e por abelhas nativas sem ferrão. As chuvas fortes atrapalham as visitas dos insetos e podem reduzir a safra. Por isso, a presença de floresta por perto, que abriga esses polinizadores, faz diferença para os produtores. Em plantios comerciais, pesquisadores estudam formas de atrair e manter essas abelhas perto das árvores, inclusive com caixas de abelhas nativas.

O nome Cupuaçu também guarda uma pista sobre a planta. Ele vem do tupi e costuma ser explicado como Cupu grande, em contraste com o Cupuí, o Cupu pequeno. Ou seja, o próprio nome indígena já reconhecia o parentesco entre as 2 plantas, muito antes de a genética confirmar que uma deu origem à outra.

 

Asahi — O Nome que Foi Parar no Japão

Em 1998, a empresa japonesa Asahi Foods registrou a palavra cupuaçu como marca no Japão. Registros parecidos também foram feitos na União Europeia e nos Estados Unidos. Na prática, a empresa poderia impedir que outros vendessem produtos com o nome da fruta nesses mercados.

A reação veio do Brasil. O Instituto de Direito do Comércio Internacional e Desenvolvimento e organizações como a Amazonlink, a Rede GTA e a Associação de Produtores Alternativos de Rondônia contestaram o registro. Em 3 de março de 2004, o escritório de patentes do Japão invalidou a marca.

O órgão japonês entendeu que cupuaçu era o nome comum de uma fruta e não podia ser propriedade de uma empresa, além de poder enganar consumidores. O caso virou símbolo da luta contra a biopirataria e da defesa dos nomes e saberes ligados à biodiversidade brasileira. Desde então, ele é lembrado em debates sobre proteção de recursos genéticos e conhecimentos tradicionais.

 

Das sementes do cupuaçu sai o cupulate, um "chocolate" desenvolvido pela Embrapa — e da polpa ácida e perfumada, sorvetes, cremes e sucos

 

Polpa — Do Quintal Amazônico às Sorveterias

Na Amazônia, o Cupuaçu é plantado em quintais, sítios e sistemas agroflorestais, ao lado de árvores como o Açaí, a Castanha e o Cacau. Em Tomé-Açu, no Pará, agricultores descendentes de imigrantes japoneses ficaram conhecidos por cultivar o Cupuaçu em sistemas agroflorestais e processar a polpa em cooperativa.

A safra se concentra na estação chuvosa, nos primeiros meses do ano. A polpa congelada viaja para todo o país e vira suco, sorvete, mousse, creme, bombom e recheio de bolos. Em Belém, Manaus e outras cidades da região, o creme de Cupuaçu e o bombom recheado são clássicos da confeitaria local.

O Pará e o Amazonas concentram boa parte do cultivo, que também chegou a outros estados, como a Bahia. A casca dura, que antes era descartada, tem sido testada como adubo e matéria-prima, aproveitando melhor cada fruto. Assim, um fruto antes restrito à floresta virou fonte de renda para muitas famílias da região.

 

Semente — Um Fruto Indígena que o Brasil Defendeu

O Cupuaçu nasceu do Cupuí no Rio Negro, domesticado por povos indígenas há milhares de anos. Parente do Cacau, deu ao Brasil uma polpa perfumada e sementes que viram cupulate e manteiga.

Quando uma empresa estrangeira tentou registrar seu nome, organizações brasileiras foram à luta e venceram. Hoje, o Cupuaçu, nascido do Cupuí nas margens do Rio Negro, cresce em quintais e agroflorestas da Amazônia e chega às sorveterias de todo o país. Leva no perfume e no nome a memória dos povos que o criaram. A história do Cupuaçu mostra que muitas frutas da floresta, vistas como selvagens, são na verdade obra de milhares de anos de seleção indígena. Proteger a floresta, os polinizadores e os saberes tradicionais é também proteger esse patrimônio.

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