Erva-doce: O Funcho que Deu Nome a Maratona e Carregou o Fogo de Prometeu

Do campo de batalha grego às fazendas de Carlos Magno, da ilha da Madeira ao absinto, a história do Funcho, a planta que no Brasil divide com o Anis o nome de Erva-doce

 

Anetol — O Doce que Vem da Semente

Em muitas casas brasileiras, a Erva-doce é a semente do chá depois do almoço ou do bolo de fubá da avó. Mas o nome esconde uma confusão: no Brasil, ele serve para 2 plantas diferentes. Uma é o Anis, Pimpinella anisum. A outra é o Funcho, Foeniculum vulgare, a planta desta história.

O que une as duas é o aroma. O Funcho tem anetol, o mesmo composto que dá ao Anis seu cheiro doce, parecido com alcaçuz. Por isso, as sementes das 2 plantas acabaram dividindo o mesmo nome popular.

O Funcho é uma planta alta, de folhas finas como fios e flores amarelas em guarda-chuva. Esteve num campo de batalha grego, num mito sobre o fogo, nas fazendas de Carlos Magno, no nome de uma cidade portuguesa e na receita do absinto.

 

Maratona — O Campo de Funcho

O Funcho é nativo das margens do mar Mediterrâneo. Pertence à família das Apiáceas, a mesma da Cenoura, do Coentro, da Salsa e do Endro. É uma planta perene, que pode passar de 2 metros, com caules ocos e folhas tão finas que lembram cabelos. Cresce com facilidade em terrenos abertos, beiras de estrada e encostas secas perto do mar.

Os gregos o chamavam de marathon. Maratona, o lugar da famosa batalha entre gregos e persas em 490 antes da era comum, significa algo como campo de funcho. A corrida de longa distância herdou o nome da batalha, e, por tabela, da planta.

O registro escrito do Funcho é antigo. Ele aparece numa tábua micênica de cerca de 3.300 anos atrás, numa lista de especiarias. Séculos depois, o filósofo Teofrasto fez uma das descrições botânicas mais antigas da planta, e os textos atribuídos a Hipócrates citam o Funcho em cerca de 30 fórmulas de remédios.

 

As folhas da erva-doce são finas como fios e as flores amarelas formam umbelas — a mesma estrutura da cenoura e do coentro, da família das Apiáceas

 

Funchal — A Cidade que Nasceu num Vale de Funcho

Gregos e romanos usavam o Funcho como alimento, remédio e repelente de insetos. O médico grego Dioscórides, no século 1, descreveu em seu tratado De materia medica usos para as folhas, as sementes e as raízes da planta. Durante séculos, esse livro serviu de base para médicos e boticários na Europa e no mundo árabe.

Na Idade Média, o imperador Carlos Magno exigiu que o Funcho fosse cultivado em todas as fazendas imperiais. A planta entrou nas hortas de mosteiros e nos livros de ervas de toda a Europa.

No século 15, colonos portugueses chegaram à ilha da Madeira e encontraram os vales cobertos de Funcho selvagem. A partir de 1420, nasceu ali uma povoação batizada de Funchal, que quer dizer lugar cheio de funcho. Um cronista do século 16 descreveu o local como um vale cheio de funcho até o mar. Em 1508, o povoado foi elevado a cidade pelo rei Manuel I. Hoje, Funchal é a capital da Madeira, e o nome guarda a lembrança da planta que cobria seus vales.

 

Saunf — As Sementes que Refrescam a Boca

O que chamamos de semente do Funcho é, na verdade, o fruto seco da planta, pequeno, alongado e riscado. O sabor vem de óleos aromáticos, como o anetol, a fenchona e o limoneno. Por isso, a mesma planta pode lembrar Anis, ervas frescas e um leve toque cítrico.

Na Índia, as sementes de Funcho, chamadas de saunf, são servidas cruas, torradas ou cobertas de açúcar colorido depois das refeições. Elas fazem parte do mukhwas, uma mistura usada para ajudar na digestão e perfumar o hálito. A Índia também lidera a produção mundial: em 2014, respondeu por cerca de 60% do Funcho colhido no mundo.

Cada parte da planta tem seu uso. As folhas temperam peixes, as sementes vão para pães, linguiças e chás, e as pequenas flores do Funcho selvagem, vendidas como pólen de funcho, são consideradas a forma mais intensa do tempero. São também a forma mais cara. Na cozinha indiana, as sementes ainda entram em misturas de especiarias e em pratos de legumes.

 

Na Índia, sementes de erva-doce, às vezes cobertas de açúcar colorido, são servidas depois das refeições para refrescar o hálito e ajudar a digestão

 

Prometeu — O Fogo Escondido num Talo

Na Teogonia, o poeta grego Hesíodo conta que Prometeu roubou o fogo dos deuses no monte Olimpo e o levou aos humanos escondido dentro de um talo oco de funcho. O caule seco, com miolo esponjoso, queimava devagar por dentro, sem que a chama aparecesse.

A planta do mito é chamada de narthex em grego. Muitos estudiosos a identificam com a Férula, Ferula communis, uma parente gigante do Funcho, da mesma família, com caules grossos e altos. Seja qual for a espécie, a imagem ficou: um caule de funcho carregando o fogo que deu início à civilização.

Outra crença antiga ligou o Funcho aos olhos. O naturalista romano Plínio, o Velho, registrou que as cobras comeriam a planta depois de trocar de pele, para recuperar a visão. Dioscórides também indicava o Funcho para problemas nos olhos. A ideia atravessou os séculos e, em 1842, ainda inspirava versos do poeta americano Henry Wadsworth Longfellow, que citou o Funcho como planta capaz de fortalecer a vista.

 

Absinto — A Fada Verde e a Erva Invasora

O Funcho é um dos ingredientes principais do absinto, a bebida verde que nasceu como elixir medicinal na Europa e virou moda na França no século 19. A receita clássica combina Losna, Anis e Funcho. É do anetol dessas 2 últimas plantas que vem o sabor adocicado da bebida. Acusado de causar loucura, o absinto foi proibido na França em 1915 e só voltou a ser vendido legalmente décadas depois.

O Funcho cultivado também mudou de forma. O Funcho-de-florença, chamado de finocchio na Itália, foi selecionado para formar uma base grossa e branca, parecida com um bulbo. É comido cru em saladas ou assado como legume, com sabor de Anis mais suave e adocicado que o da planta selvagem.

Fora do Mediterrâneo, o Funcho às vezes vira problema. Nos Estados Unidos e na Austrália, é considerado erva daninha e espécie invasora. Em algumas áreas, chega a cobrir de 50% a 90% do solo, tomando o lugar de plantas nativas. Uma planta que um imperador mandou cultivar em todas as suas fazendas hoje é arrancada em parques e reservas naturais.

 

Em grego, erva-doce se diz márathon — e a planície de Maratona, palco da famosa batalha de cerca de 2.500 anos atrás, recebeu o nome pela abundância de funcho

 

Chá — A Erva-doce das Casas Brasileiras

No Brasil, o Funcho se adaptou bem a hortas e quintais de várias regiões, do clima ameno das serras ao calor do litoral. Aqui, ganhou o nome de Erva-doce, dividido com o Anis. Nas feiras e mercados, os dois às vezes são vendidos como se fossem a mesma planta, e muita gente só descobre a diferença quando compara as sementes lado a lado.

As sementes viraram parte do dia a dia. Entram no chá servido depois das refeições, no bolo de fubá, em pães caseiros, biscoitos e doces. As folhas e o bulbo do Funcho-de-florença aparecem em saladas e pratos de peixe, principalmente na cozinha de influência italiana.

Para saber qual planta está no pacote, vale olhar o nome científico. O Funcho é Foeniculum vulgare, com sementes maiores, esverdeadas e bem riscadas. O Anis é Pimpinella anisum, com sementes menores, mais acinzentadas e levemente peludas. Os 2 têm anetol, mas cada um tem sua própria história.

 

Talo — Uma Planta Entre o Mito e a Cozinha

O Funcho saiu das margens do Mediterrâneo, deu nome a Maratona, entrou nos remédios de Hipócrates e nas fazendas de Carlos Magno. Batizou uma cidade na Madeira, perfumou o absinto e virou saunf nas mesas da Índia.

No Brasil, virou Erva-doce, um nome que divide com o Anis. Suas sementes perfumam chás, bolos e pães, e seu bulbo virou legume nas mesas italianas. A cada chá depois do almoço, a planta repete uma história de milhares de anos: a de um talo comum que, segundo os gregos, foi capaz de carregar o fogo dos deuses até os humanos.

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