Canola: A Colza Milenar que o Canadá Rebatizou e Levou da Lamparina à Cozinha

Híbrida da Couve com o Nabo, a Colza iluminou lamparinas, lubrificou máquinas a vapor e navios aliados, e só virou Canola em 1974, quando cientistas canadenses criaram o óleo duplo zero que hoje também cresce nos invernos do Rio Grande do Sul

 

Amarelo — Um Óleo com Nome de País

Na prateleira do mercado, o óleo de Canola aparece ao lado do óleo de Soja, do azeite e do óleo de Girassol. Muita gente o compra sem saber que Canola não é o nome de uma planta. É uma palavra inventada no Canadá, nos anos 1970, para batizar uma versão melhorada de uma planta muito mais antiga: a Colza.

Antes de chegar à cozinha, o óleo dessa planta iluminou lamparinas na Ásia e na Europa e lubrificou máquinas a vapor e motores de navios. Só depois de um trabalho de melhoramento genético no Canadá virou um óleo de mesa de sabor neutro, usado para frituras, molhos e massas.

Esta é a história de uma planta de flores amarelas que mudou de nome, de uso e de fama ao longo dos séculos.

 

Napus — O Cruzamento da Couve com o Nabo

A Colza é a espécie Brassica napus, da família Brassicaceae, a mesma da Couve, do Repolho, do Brócolis e da Mostarda. Ela surgiu do cruzamento natural entre 2 espécies: Brassica oleracea, a da Couve e do Repolho, e Brassica rapa, a do Nabo. O resultado é uma planta híbrida que carrega os 2 conjuntos de cromossomos dos pais.

A planta cresce ereta, tem folhas azuladas e flores amarelas de 4 pétalas, em forma de cruz, típicas da família. Depois da floração, forma vagens finas cheias de sementes pequenas e escuras, ricas em óleo. Quando floresce, transforma os campos num tapete amarelo-vivo.

Os nomes também contam a história. O inglês rapeseed vem do latim rapum, Nabo. Já Colza vem do holandês koolzaad, semente de Couve. Canola, por sua vez, é uma criação moderna, que junta Canadá com a ideia de óleo de baixa acidez, para diferenciar a nova variedade da Colza antiga.

 

Canola significa Canada Oil Low Acid — não é o nome de uma planta, é uma sigla registrada em 1978 para diferenciar o novo óleo de baixa acidez da colza original que era usada como lubrificante industrial

 

Lamparina — Da Índia às Máquinas a Vapor

O cultivo de plantas oleaginosas do gênero Brassica na Índia é muito antigo, e o Conselho Canadense de Canola fala em cerca de 2000 antes da era comum. Dali, o cultivo chegou à China e ao Japão. Na Europa, a Colza ganhou espaço a partir do século 13, usada na cozinha e sobretudo como óleo de iluminação, porque queimava com chama limpa e pouca fumaça.

Com a Revolução Industrial, o óleo de Colza ganhou outra função. Ele adere bem a superfícies de metal molhadas por água e vapor, e por isso foi usado como lubrificante em máquinas a vapor, locomotivas e navios.

Essa característica teve peso na Segunda Guerra Mundial. Com o fornecimento da Europa e da Ásia cortado, os Aliados precisavam de lubrificante para motores de navios. Em 1942, o Canadá fez os primeiros plantios experimentais de Colza. Em 1943, sementes vindas da Argentina foram plantadas em cerca de 1.300 hectares e produziram 1 milhão de quilos. Foi o começo da Colza canadense.

 

Erúcico — O Problema Escondido na Semente

A Colza antiga tinha 2 defeitos para a alimentação. O primeiro era o alto teor de ácido erúcico, uma gordura que, em estudos com animais de laboratório, foi associada a problemas no coração. O segundo eram os glucosinolatos, compostos de enxofre que deixavam o farelo amargo e prejudicavam o gado que o comia.

Por isso, depois da guerra, a Colza servia mais à indústria do que à cozinha. Para virar óleo de mesa e ração de qualidade, era preciso criar plantas com pouco ácido erúcico e poucos glucosinolatos.

O óleo de Canola atual tem cerca de 63% de gordura monoinsaturada, 28% de poli-insaturada e 7% de saturada, com uma proporção de 2 partes de ômega-6 para 1 de ômega-3. O ácido erúcico passava de 40% em algumas Colzas antigas. Hoje fica abaixo de 2%, e no oeste do Canadá chega a cerca de 0,01%. Nos Estados Unidos, a FDA considera esse óleo de baixo ácido erúcico seguro para alimentação.

 

Os campos de canola são entre as paisagens agrícolas mais fotografadas da Europa — mas a planta que colore os campos de amarelo intenso é a mesma colza que iluminou lamparinas medievais por séculos

 

Mel — As Abelhas nos Campos Amarelos

Os campos de Colza em flor atraem abelhas em grande quantidade. Na Europa e no Canadá, apicultores levam colmeias para perto das lavouras, e as abelhas ajudam na polinização, aumentando a produção de sementes em algumas variedades.

O mel de Colza tem cor clara e sabor suave. Por ser rico em glicose, cristaliza muito rápido, às vezes em poucos dias, e por isso costuma ser vendido cremoso. Na Alemanha, no Reino Unido e em outros países europeus, esse mel é um produto comum da primavera.

Os campos amarelos também viraram paisagem turística. No norte da Europa, na China e no Canadá, viajantes procuram as lavouras em flor para fotografias. O que antes era uma lavoura industrial para lubrificante virou cartão-postal e fonte de alimento para as abelhas. Na Europa, a Colza de inverno floresce no começo da primavera e oferece néctar e pólen numa época em que ainda há poucas flores no campo. Por isso, apicultores europeus contam com ela para fortalecer as colmeias depois do frio.

 

Tower — Os Cientistas que Criaram o Duplo Zero

Nas décadas de 1960 e 1970, pesquisadores canadenses usaram uma técnica nova, a cromatografia gasosa, para medir rapidamente os ácidos graxos de sementes isoladas. Assim, conseguiam escolher plantas com pouco ácido erúcico sem destruir todo o lote. O trabalho foi feito em laboratórios de Saskatoon e na Universidade de Manitoba.

Em 1974, o geneticista Baldur Stefansson, da Universidade de Manitoba, lançou a variedade Tower, a primeira com baixo ácido erúcico e baixos glucosinolatos. Era o chamado duplo zero. Em 1977, Keith Downey lançou a Candle, uma variedade duplo zero de outra espécie, Brassica rapa.

Para separar o novo produto da antiga Colza, a Associação Canadense de Colza criou o nome Canola, que depois se tornou um termo genérico na América do Norte e na Austrália. Em 1995, surgiram no Canadá variedades transgênicas tolerantes a herbicida, que em 2009 já ocupavam 90% das lavouras canadenses. Hoje, a maior parte da Canola do país vem de híbridos e variedades modernas, muito diferentes da Colza plantada em 1943.

 

Keith Downey e Baldur Stefansson levaram anos cruzando variedades de colza na Universidade de Manitoba até criar em 1974 a primeira variedade sem os compostos tóxicos que impediam seu consumo humano

 

Biodiesel — Do Canadá ao Rio Grande do Sul

Hoje, o Canadá lidera a produção mundial de Canola e Colza, com cerca de 22,5 milhões de toneladas, seguido por países como China, Índia e Alemanha. Na Europa, boa parte do óleo de Colza vai para o biodiesel, e o farelo que sobra da extração vira ração animal.

No Brasil, a Canola é cultivada no inverno, sobretudo no Rio Grande do Sul, em rotação com o Trigo e a Soja. Segundo a Conab, a safra 2025/26 deve chegar a cerca de 601 mil toneladas, em 371 mil hectares, uma alta de 75% na área em relação ao ciclo anterior.

O Rio Grande do Sul responde por cerca de 95% da produção nacional, e o restante vem do Paraná, de Santa Catarina e de outras regiões. Mesmo crescendo, o Brasil ainda representa apenas 0,6% da produção mundial de Canola e Colza. A Embrapa Trigo, em Passo Fundo, pesquisa a cultura e testa variedades para outras regiões, como o Cerrado.

 

Duplo Zero — Uma Planta que Mudou de Nome

A Colza nasceu do cruzamento entre a Couve e o Nabo, iluminou lamparinas na Ásia e na Europa, lubrificou máquinas a vapor e ajudou os navios aliados na Segunda Guerra.

No Canadá, a ciência transformou a planta. Com pouco ácido erúcico e poucos glucosinolatos, a Colza virou Canola e chegou às cozinhas do mundo. No sul do Brasil, os campos amarelos de inverno mostram que essa história ainda está em expansão. Plantada entre uma safra de verão e outra, a Canola ocupa a terra no frio, protege o solo e gera renda extra. Cada garrafa de óleo carrega séculos de transformações dessa planta.

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