Linho: a Planta Mais Útil, da Caverna de 30 Mil Anos à Tela dos Pintores

Das fibras selvagens de uma caverna na Geórgia ao vestido tecido mais antigo conhecido, a história do Linho passa por templos egípcios, telas venezianas e campos da Normandia

 

Fibra — Uma Planta que Virou Tecido, Óleo e Tela

O Linho é uma planta delicada, de caule fino e flores de 5 pétalas. Mas dentro desse caule existe uma fibra forte e longa, que a humanidade aprendeu a transformar em fio e tecido há milhares de anos. Das sementes, sai um óleo que também mudou a história.

A mesma planta teve muitos usos ao longo do tempo. O Linho vestiu sacerdotes egípcios, envolveu múmias, enfunou velas de navios, virou a tela de pintores e o óleo que segura as cores dos quadros. Hoje, ainda é cultivado para roupas finas e para a semente conhecida como linhaça.

Esta é a história do Linum usitatissimum, a planta cujo nome significa a mais útil, que deixou fibras numa caverna da Geórgia há cerca de 30 mil anos, que formou o vestido tecido mais antigo conhecido e que hoje tem na França o grande centro de produção.

 

Usitatissimum — A Mais Útil das Plantas

O Linho pertence à família das Lináceas. O nome da espécie, usitatissimum, vem do latim e significa a mais útil. Em inglês, a planta se chama flax, palavra do inglês antigo, e também line, de onde vem a palavra linen, o tecido de linho.

As flores têm 5 pétalas e medem de 15 a 25 milímetros. No gênero Linum, elas podem ser brancas, azuis, amarelas ou vermelhas, conforme a espécie. O Linho cultivado é plantado tanto para fibra, retirada do caule, quanto para semente, de onde se tira o óleo. As variedades de fibra costumam ser mais altas e menos ramificadas.

A domesticação aconteceu no Crescente Fértil. Em Tell Ramad, na Síria, foi encontrado Linho domesticado para semente, e em Çatalhöyük, na Turquia, apareceu tecido de linho, os 2 com cerca de 9 mil anos. Muito antes disso, porém, o Linho selvagem já era usado pelos seres humanos, como mostram fibras encontradas numa caverna das montanhas do Cáucaso.

 

O Linum usitatissimum tem nome que é um manifesto — usitatissimum é o superlativo de usitatus em latim, o mais usado de todos — e da mesma planta vêm a fibra têxtil mais antiga do mundo e a linhaça

 

Mediterrâneo — Velas Romanas e Campos de Flandres

O Linho foi muito cultivado no antigo Egito e, de lá, se espalhou pelo Mediterrâneo. Os romanos o usavam para fazer velas de navios, aproveitando a resistência da fibra. O tecido acompanhou o comércio e a vida cotidiana de muitos povos ao longo da Antiguidade.

Na Europa medieval, o Linho ganhou novo impulso. No século 8 da era comum, Carlos Magno incentivou a volta do cultivo da planta. Mais tarde, Flandres, região que hoje fica entre a Bélgica, a França e a Holanda, virou o grande centro europeu de tecidos de linho na Idade Média, e o tecido passou a fazer parte de roupas, lençóis e toalhas em muitas casas.

O cultivo mudou de lugar com o tempo. No começo do século 20, o norte da Rússia chegou a fornecer cerca de 90% da produção mundial de Linho. Depois, o algodão e as fibras sintéticas, mais baratos, reduziram a importância da planta. Mesmo assim, o Linho nunca desapareceu e manteve seu lugar em tecidos de qualidade.

 

Maceração — Do Caule ao Fio

Transformar o Linho em tecido exige paciência. Para manter as fibras longas, a planta é arrancada com raiz, cerca de 100 dias depois do plantio. Depois vem a maceração, em que os caules ficam expostos ao orvalho ou mergulhados em lagoas, riachos ou tanques, por um tempo que depende do clima e do método escolhido.

Nessa etapa, micro-organismos quebram as pectinas, substâncias que grudam as fibras ao caule. A maceração no campo, feita com o orvalho, é considerada a que dá fibras de melhor qualidade. Em seguida, o caule passa pela quebra, pela espadelagem e pela assedagem, etapas que separam a palha e penteiam as fibras.

As sementes têm outro valor. Cerca de 54% da gordura da linhaça é ômega-3, sobretudo ácido alfa-linolênico. A semente moída, porém, pode ficar rançosa em cerca de 1 semana se ficar exposta ao ar. Ela também contém pequenas quantidades de compostos que podem liberar cianeto, que em quantidades normais não oferecem risco e são eliminados pelo calor.

 

Os campos de linho da Normandia florescem em azul intenso entre junho e julho — e a região é responsável por aproximadamente 80% de toda a produção mundial de linho têxtil de alta qualidade

 

Pureza — O Tecido dos Sacerdotes e das Múmias

No antigo Egito, o Linho tinha um papel sagrado. Paredes de templos mostravam o Linho em flor, as múmias eram envolvidas em faixas de linho, e os sacerdotes vestiam roupas desse tecido, porque a planta simbolizava pureza.

Um tecido egípcio se tornou famoso. Em 1913, o arqueólogo Flinders Petrie escavou um túmulo em Tarkhan, um cemitério a cerca de 50 quilômetros ao sul do Cairo. Entre os tecidos recolhidos estava um vestido de linho, que só foi reconhecido em 1977, quando o conjunto foi enviado para restauração no Museu Victoria e Albert, em Londres. Foi nessa limpeza que os conservadores perceberam que havia uma roupa entre os panos.

Em 2015, a datação por radiocarbono mostrou que o Vestido de Tarkhan foi feito entre 3482 e 3102 antes da era comum. É considerado a peça de roupa tecida mais antiga conhecida. Tem mangas e corpo plissados e mostra sinais de uso, o que indica que foi vestido em vida antes de ir para o túmulo.

 

Caverna — Fibras de 30 Mil Anos na Geórgia

O segredo mais antigo do Linho estava numa caverna. Em 2009, pesquisadores publicaram na revista Science a descoberta de fibras de Linho selvagem na caverna de Dzudzuana, no sopé do Cáucaso, na Geórgia. As camadas mais antigas onde elas apareceram têm entre 36 mil e 31 mil anos.

As fibras foram identificadas pela estrutura vista ao microscópio. A maioria não tinha cor, mas algumas eram pretas, cinzas, turquesa e uma era rosa. Os autores as descreveram como fibras tingidas, embora não saibam se os moradores da caverna faziam tecidos coloridos.

Algumas fibras tinham sido torcidas em fios de 2 cabos, e um cordão tinha vários nós. Para os pesquisadores, essas fibras podiam servir para amarrar ferramentas de pedra a cabos, trançar cestos ou costurar roupas. Os autores lembram, porém, que se trata de Linho selvagem, coletado na natureza, e não de uma planta cultivada. Se essa leitura estiver certa, muito antes da agricultura o Linho selvagem já fazia parte do dia a dia de grupos de caçadores e coletores.

 

Jan van Eyck usou óleo de linhaça para desenvolver a pintura a óleo no século XV — e a maioria das obras-primas do Renascimento foi pintada sobre tela de linho com esse mesmo óleo da semente

 

Tela — Pintura, Óleo e Campos da Normandia

O Linho também mudou a arte. Em meados do século 15, muitos pintores europeus passaram a usar telas de linho esticadas no lugar dos painéis de madeira, sobretudo em Veneza. O escritor Giorgio Vasari contou que os venezianos preferiam o linho porque ele não racha e não é atacado por cupins.

A semente deu outra ferramenta aos artistas. O óleo de linhaça foi usado como óleo secante em tintas e vernizes, como aglutinante nas tintas a óleo, no acabamento de madeiras, no linóleo e em tintas de impressão. Esse uso só diminuiu depois dos anos 1950, com a chegada das resinas sintéticas.

Hoje, a França lidera a produção de fibra. Em 2022, o mundo produziu cerca de 876 mil toneladas de Linho bruto ou macerado, e a França respondeu por cerca de 75% do total. Só a Normandia produz perto de 1/3 da oferta mundial. Bélgica, Belarus, China e Rússia também estão entre os produtores.

 

Flor — Uma Planta de Mil Usos

O Linho é uma planta simples que acompanhou a humanidade desde a Idade da Pedra. Suas fibras apareceram numa caverna da Geórgia há mais de 30 mil anos, e sua domesticação no Crescente Fértil ajudou a criar alguns dos primeiros tecidos conhecidos. Entre a caverna e o campo cultivado, passaram milhares de anos de aprendizado.

Ao longo do caminho, vestiu sacerdotes egípcios, formou o Vestido de Tarkhan, levou navios romanos e virou tela e óleo nas mãos dos pintores. Hoje, campos da Normandia florescem para abastecer o mundo com fibra, e a linhaça segue na mesa e na indústria. Fiel ao nome que recebeu, o Linho segue fazendo jus à fama de planta útil.

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