A Roda que Passa de Mão em Mão
Nos pampas, no oeste do Paraná, no Paraguai e na Argentina, há um gesto que atravessa gerações. Alguém prepara a cuia, toma até roncar a bomba, enche de novo e passa para o próximo da roda. Ninguém precisa de convite formal: basta estar ali para receber a cuia.
A Erva-mate é uma árvore da Mata Atlântica do sul. Os guaranis já a usavam muito antes da chegada dos europeus, e os colonizadores espanhóis logo adotaram o hábito. Os jesuítas aprenderam a plantá-la, e sua história se misturou a guerras, monopólios e disputas de fronteira.
Hoje, a mesma folha está no chimarrão gaúcho, no tereré paraguaio e no mate gelado da praia carioca. Esta é a história de uma árvore que virou bebida, moeda e ritual de amizade.
Ka’a — Um Azevinho da Floresta de Araucárias
A Erva-mate pertence à espécie Ilex paraguariensis, da família Aquifoliaceae, a mesma do Azevinho europeu usado nas decorações de Natal. É uma árvore que pode passar de 10 metros de altura, mas nos ervais costuma ser podada para facilitar a colheita das folhas.
Ela é nativa das matas do sul do Brasil, do nordeste da Argentina e do leste do Paraguai, com presença menor no Uruguai. Cresce naturalmente à sombra da Floresta com Araucárias, a mata dos Pinheiros-do-paraná, e prefere clima úmido e invernos frios. Suas flores são pequenas e brancas, e os frutos são bolinhas vermelhas ou roxas, comidos por aves que espalham as sementes pela mata.
Em guarani, a planta é chamada de ka’a, que significa simplesmente folha ou erva. O nome científico foi dado pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire no início do século 19. Já a palavra mate vem do quíchua mati, o nome da cabaça usada como cuia, e com o tempo passou a designar a própria bebida.
Jesuítas — Da Desconfiança à Moeda Colonial
Os guaranis consumiam a Erva-mate antes da colonização, em infusões e como planta medicinal e ritual. Com a fundação de Assunção, em 1537, os espanhóis adotaram o hábito rapidamente. Em 1596, uma carta já reclamava que o vício de tomar erva tinha se espalhado entre os espanhóis, suas mulheres e seus filhos.
A Erva virou o primeiro grande produto comercial da região e chegou a servir como moeda. A coleta nos ervais nativos era feita com trabalho forçado de indígenas, em condições duríssimas. No início, os jesuítas desconfiaram da bebida, mas a partir do século 17 passaram a usá-la nas reduções.
Entre as décadas de 1650 e 1670, os jesuítas conseguiram algo que ninguém fazia: plantar Erva-mate a partir de sementes. Ao que tudo indica, o método imitava a passagem das sementes pelo sistema digestivo das aves. Com a expulsão dos jesuítas, em 1767 e 1768, as plantações entraram em declínio, e o segredo se perdeu por décadas. A produção voltou a depender da coleta nos ervais nativos.
Cafeína — O Estimulante da Cuia
A Erva-mate tem cafeína, o mesmo estimulante do café e do chá. A chamada mateína, que aparece em rótulos e propagandas, é na verdade cafeína. A folha também tem teobromina, o estimulante do cacau, em menor quantidade.
A bebida é rica em compostos fenólicos, como os ácidos clorogênicos, que têm ação antioxidante em estudos de laboratório. Também tem saponinas, responsáveis pela espuma e pelo leve amargor. A quantidade de cafeína numa cuia depende muito da erva, da água e de quantas vezes ela é enchida. Como a roda de chimarrão pode durar horas, quem toma muitas cuias chega a ingerir tanta cafeína quanto várias xícaras de café.
Há um alerta importante. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, da Organização Mundial da Saúde, classificou bebidas muito quentes, acima de 65 °C, como provavelmente cancerígenas para o esôfago. O problema é a temperatura, e não a Erva-mate em si. Deixar a água esfriar um pouco e não tomar o mate escaldante reduz esse risco.
Yarí — A Lenda da Erva e da Hospitalidade
Uma lenda guarani, contada em várias versões, fala de um velho que vivia na mata com a filha, Yarí. Um dia, os 2 receberam um viajante desconhecido e ofereceram tudo o que tinham. O visitante era um enviado divino e, como recompensa, deu a eles uma planta nova e ensinou a preparar a bebida.
Em algumas versões, Yarí foi transformada na protetora da Erva, a Caá Yarí, e ganhou a imortalidade para cuidar da planta e do pai. Em outras, é a própria planta que nasce para fazer companhia ao velho na solidão da floresta. Por isso, segundo a tradição, oferecer o mate a alguém é um gesto de acolhida.
O ritual repete esse sentido. No chimarrão, quem prepara a cuia toma o primeiro mate, o mais amargo, e depois serve a roda, sempre na mesma direção. Dizer “obrigado” ao receber a cuia é sinal de que a pessoa não quer mais. A roda de mate é, antes de tudo, um convite à conversa.
Bonpland — Sementes, Prisão e Guerra
O naturalista francês Aimé Bonpland, companheiro de viagem de Alexander von Humboldt, se dedicou à Erva-mate na fronteira entre Argentina e Paraguai. Ele tentava cultivar a planta em grande escala, o que ameaçava o controle do Paraguai sobre a Erva. O ditador paraguaio José Gaspar Rodríguez de Francia desconfiou dele e o manteve preso por cerca de 9 anos.
A disputa pelos ervais nativos também pesou na Guerra da Tríplice Aliança, de 1864 a 1870, que devastou o Paraguai e sua indústria de Erva. Depois da guerra, o Brasil ganhou espaço. No atual Mato Grosso do Sul, a Companhia Mate Laranjeira explorou por décadas enormes áreas de ervais nativos, com trabalhadores em condições muito duras.
Outro segredo está na própria floresta. No Paraná, a Erva cultivada à sombra das Araucárias faz parte de um sistema tradicional com mais de 100 espécies de plantas, abelhas nativas e animais. Em 2025, a FAO reconheceu esse sistema como Patrimônio Agrícola Mundial.
Chimarrão — Do Rio Grande do Sul ao Tereré Paraguaio
No Rio Grande do Sul, o chimarrão é tomado quente, na cuia de porongo e com bomba de metal, em casa, no trabalho e nas praças. No Paraná e em Santa Catarina, a economia ervateira ajudou a formar cidades inteiras, e Curitiba cresceu com os engenhos de mate no século 19. Por décadas, o mate foi um dos principais produtos de exportação do Paraná, vendido sobretudo para a Argentina e o Uruguai. A folha de Erva-mate aparece até hoje no brasão do estado.
No Paraguai e no Mato Grosso do Sul, o calor pede tereré, a Erva preparada com água gelada, muitas vezes com ervas medicinais, os pohã ñana. Em 2020, a UNESCO reconheceu as práticas e os saberes do tereré como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Brasil, Argentina e Paraguai são os grandes produtores de Erva-mate. No Rio de Janeiro, o mate gelado com limão, feito com a folha tostada e vendido em galões nas praias, virou outra forma de tomar a mesma planta. O Uruguai, onde o mate é hábito diário, não produz Erva em escala e importa a maior parte do Brasil.
Uma Folha para Compartilhar
A Erva-mate nasceu à sombra das Araucárias, foi bebida pelos guaranis, virou moeda colonial e segredo jesuíta. Passou por prisões, guerras e monopólios até chegar às cuias, garrafas térmicas e galões de praia.
Mais do que uma bebida estimulante, é um ritual de partilha. Do chimarrão ao tereré, a regra é a mesma: a cuia passa de mão em mão, e com ela circulam conversa, memória e hospitalidade. E, sob as Araucárias do Paraná, os ervais sombreados mostram que é possível colher da floresta sem derrubá-la.
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Fontes
- Wikipedia. History of yerba mate. Link
- JSTOR Daily. Plant of the Month: Yerba Mate. Link
- ONU Brasil. Sistema tradicional da erva-mate no Paraná é reconhecido pela FAO. Link
- UNESCO. Práticas e saberes tradicionais do tereré. Link
- Broto. Produção de erva-mate no Brasil. Link
- IARC, Organização Mundial da Saúde. Monografia sobre bebidas muito quentes. Link

