Guaraná: O Olho do Menino Sateré-Mawé que Virou a Bebida do Brasil

Das roças dos Sateré-Mawé, no rio Maués, onde a semente nasceu do olho de um menino, às latas de refrigerante e às plantações do sul da Bahia, o Guaraná é a semente amazônica com mais cafeína que o Café e a primeira Indicação Geográfica indígena do Brasil

 

Uma Semente que Olha para Você

Quando o fruto do Guaraná amadurece, a casca vermelha se abre e mostra uma semente preta envolta por uma polpa branca. A imagem lembra um olho. Não é por acaso que os Sateré-Mawé, povo que domesticou a planta, contam que ela nasceu do olho de uma criança.

Essa semente carrega uma dose de cafeína maior que a do Café e foi, por séculos, a bebida diária dos Sateré-Mawé. No século 20, virou refrigerante, símbolo nacional e ingrediente de energéticos vendidos no mundo inteiro.

Esta é a história do Guaraná, a planta amazônica que saiu de uma roça indígena para as prateleiras do planeta, sem nunca perder a ligação com seu povo de origem.

 

Paullinia cupana — A Trepadeira de Maués

O Guaraná, Paullinia cupana, pertence à família Sapindaceae, a mesma da Lichia e do Pitomba. Na natureza, é uma trepadeira lenhosa que sobe nas árvores da floresta. Em cultivo, é podado e mantido como arbusto.

A variedade cultivada, sorbilis, foi domesticada na região dos rios Maués-Açu e Andirá, no Amazonas, território dos Sateré-Mawé. Os frutos crescem em cachos. Quando maduros, as cápsulas vermelhas se abrem e expõem 1 a 3 sementes pretas com arilo branco.

O nome vem de waraná, como os Sateré-Mawé chamam a planta. O gênero Paullinia homenageia o botânico dinamarquês Simon Paulli.

 

A Paullinia cupana é uma trepadeira da família Sapindaceae, a mesma da Lichia

 

De Bettendorff ao Sul da Bahia

O primeiro registro escrito do Guaraná é de 1669. O jesuíta João Felipe Bettendorff descreveu o uso da bebida pelos Sateré-Mawé e comparou sua importância à do Vinho para os europeus.

Durante séculos, o Guaraná foi produzido quase só pelos povos indígenas e pelos moradores da região de Maués, em forma de bastões secos. As primeiras mudas chegaram à Bahia em 1925, e o cultivo comercial começou lá em 1961.

Hoje, o sul da Bahia é o maior polo produtor. O estado responde por cerca de 64% da safra brasileira, com os municípios de Ituberá, Valença e Taperoá entre os maiores produtores do país.

 

Cafeína em Dobro

As sementes de Guaraná são ricas em cafeína. Estudos da Embrapa encontram teores que costumam ser mais que o dobro dos do grão de Café. Também contêm teobromina e teofilina, compostos da mesma família, além de taninos.

Os taninos se ligam à cafeína e fazem com que ela seja liberada mais devagar no organismo. É o que explica a fama de energia prolongada atribuída ao Guaraná.

Pelo alto teor de cafeína, o extrato de Guaraná é usado em energéticos e suplementos. O consumo excessivo pode causar insônia, taquicardia e ansiedade, como qualquer fonte concentrada de cafeína.

 

Na lenda Sateré-Mawé, o Guaraná nasceu dos olhos de um menino — o fruto aberto, com a semente preta no arilo branco, lembra um olho

 

O Olho do Menino e o Çapó

Os Sateré-Mawé se chamam de filhos do Guaraná. Na versão mais conhecida do mito, um menino amado pela aldeia é morto por um espírito maligno. Sua mãe planta os olhos da criança: do olho esquerdo nasce o Guaraná cultivado, e do direito, o Guaraná selvagem.

Por isso o fruto aberto lembra um olho, e por isso a planta é considerada parente do povo, e não apenas um alimento.

Todos os dias, os Sateré-Mawé bebem o çapó: o bastão de Guaraná é ralado em água fria com uma pedra ou com a língua óssea do pirarucu, e a cuia passa de mão em mão. A bebida acompanha reuniões, decisões e rituais.

 

O Bastão Ralado e a Primeira Indicação Indígena

O Guaraná tradicional é processado à mão. As sementes são torradas, moídas e misturadas com água, formando uma massa que é modelada em bastões e defumada. O bastão dura anos e só é ralado na hora de beber.

Em outubro de 2020, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial reconheceu a Denominação de Origem Terra Indígena Andirá-Marau para o Guaraná dos Sateré-Mawé. Foi a primeira Indicação Geográfica do Brasil concedida a um povo indígena.

Os Sateré-Mawé também mantêm bancos de plantas nativas, os santuários de Guaraná, que preservam a diversidade genética da espécie.

 

As sementes do Guaraná têm mais cafeína que o grão de Café — e o bastão tradicional é ralado na língua óssea do pirarucu

 

Guaraná Antarctica e a Festa de Maués

Em 1921, a Companhia Antarctica Paulista lançou o Guaraná Antarctica, criado por Pedro Baptista de Andrade. O refrigerante virou símbolo do Brasil, a ponto de concorrer diretamente com as colas estrangeiras no mercado nacional.

Em Maués, conhecida como a terra do Guaraná, o fruto é celebrado com uma festa anual. A cidade concentra a tradição e a qualidade do Guaraná amazônico.

Hoje, o Guaraná também aparece em pó, xarope, balas e cosméticos, e é exportado para a Europa, os Estados Unidos e o Japão.

 

A Planta que Tem Dono

Poucas plantas cultivadas no mundo têm um povo de origem tão claro. O Guaraná nasceu da relação entre os Sateré-Mawé e a floresta, e foi dessa relação que saíram o bastão, o çapó e o mito do olho do menino.

O refrigerante, a produção baiana e os energéticos vieram depois. A Denominação de Origem de 2020 reconheceu o que os filhos do Guaraná sempre souberam: essa semente tem história, território e dono.

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Fontes

  • Funai. Guaraná da Terra Indígena Andirá-Marau é a primeira Indicação Geográfica para povo indígena, 2020. Link
  • Correio. O guaraná é nosso: saiba como a Bahia se tornou o maior produtor do mundo. Link
  • Embrapa. Teor de cafeína em sementes secas de guaraná. Link
  • Wikipedia. Guaraná Antarctica. Link
  • Agência Brasil. Produção de guaraná de Maués alia tradição e qualidade na Amazônia, 2022. Link

 

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