A Flor que Contava uma História
Suco, mousse, sorvete, caipirinha: o Maracujá está em todo canto da mesa brasileira. A fruta azeda e perfumada é tão comum que quase esquecemos que é nativa, uma das frutas brasileiras que ganharam o mundo.
A história do Maracujá passa pelos povos tupis, que deram o nome à planta, por um cronista português do século 16 e por religiosos que viram na flor os símbolos da crucificação de Cristo. Daí vêm os nomes em outras línguas: flor da paixão, passion fruit, fruit de la passion.
Hoje, o Brasil é o maior produtor e consumidor de Maracujá do mundo, e quase tudo o que produz fica aqui dentro. Esta é a história de uma trepadeira de flores espetaculares que virou suco, remédio caseiro e símbolo religioso.
Passiflora — Uma Trepadeira Brasileira
O Maracujá-azedo, o mais cultivado no país, pertence à espécie Passiflora edulis, da família Passifloraceae. É uma trepadeira que se prende a cercas e árvores com gavinhas enroladas como molas e pode crescer vários metros em poucos meses. Os frutos amarelos do Maracujá-azedo ficam enrugados quando maduros, e é aí que a polpa está mais doce e perfumada. Há também variedades de casca roxa, mais comuns em outros países.
O gênero Passiflora tem mais de 500 espécies, a maioria nas Américas tropicais. O Brasil é o principal centro de diversidade genética do grupo, com cerca de 150 espécies nativas. Algumas também são cultivadas, como o Maracujá-doce, Passiflora alata, o Maracujá-do-cerrado, Passiflora setacea, e o Maracujá-do-mato da Caatinga, Passiflora cincinnata.
O nome vem do tupi. As explicações variam, mas costumam ligar a palavra a um fruto que se come aos sorvos ou a um alimento servido numa cuia, pela forma arredondada e pela polpa que se toma de colher. Muitas variações do nome, como maracujá-açu e maracujá-mirim, também vêm das línguas indígenas.
Paixão — Do Cronista da Bahia a Roma
Os povos indígenas do Brasil já comiam a polpa do Maracujá e usavam folhas e flores em chás muito antes da colonização. Em 1587, o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa, que vivia na Bahia, descreveu no Tratado Descritivo do Brasil uma planta que subia como hera, de flores bonitas e frutos parecidos com Laranjas pequenas, de sabor agradável.
Na mesma época, a planta chamou a atenção de religiosos espanhóis na América. O médico sevilhano Nicolás Monardes já tinha descrito espécies de Passiflora em 1574. Em 1610, desenhos enviados do México pelo frade agostiniano Emmanuel de Villegas chegaram a Roma e foram divulgados pelo historiador Giacomo Bosio, que viu na flor os instrumentos da Paixão de Cristo.
A flor virou ferramenta de catequese, e o gênero ganhou o nome Passiflora, flor da paixão. Espécies de Maracujá foram levadas para jardins europeus e, depois, para a África, a Ásia e a Oceania.
Flavonoides — O Calmante das Folhas
A polpa do Maracujá é rica em vitamina C, vitamina A na forma de carotenoides, fibras e potássio. O aroma forte e o sabor ácido vêm de ácidos orgânicos, como o cítrico, e de muitos compostos voláteis que perfumam sucos e doces.
A fama calmante do Maracujá é antiga, mas está mais ligada às folhas e às flores do que à polpa. As folhas de espécies como a Passiflora incarnata, da América do Norte, e a Passiflora alata, brasileira, são ricas em flavonoides e entram em fitoterápicos usados contra ansiedade leve e dificuldade para dormir. A Agência Europeia de Medicamentos aprova o uso tradicional da Passiflora incarnata para sintomas leves de estresse e para ajudar o sono.
O suco de Maracujá tem mais fama que evidência como calmante. Os estudos com a fruta ainda são limitados, e o efeito de um copo de suco é bem diferente do de um extrato concentrado. As folhas e os frutos verdes também têm glicosídeos cianogênicos, por isso os chás caseiros não devem ser tomados em excesso.
Coroa de Espinhos — A Flor como Catecismo
Para os religiosos do século 17, a flor do Maracujá era um sermão desenhado pela natureza. A coroa de filamentos coloridos representava a coroa de espinhos. Os 3 estigmas eram os 3 cravos da cruz, e as 5 anteras, as 5 chagas de Cristo. As gavinhas lembravam os chicotes da flagelação, e a coluna central, o pilar em que Jesus foi amarrado.
Essa leitura se espalhou pela Europa e pelas Américas em livros, gravuras e pregações. Na tradição popular brasileira, a flor continuou sendo chamada de flor da paixão, e muitos ainda contam essa história ao mostrá-la às crianças. Em igrejas e jardins de conventos, a planta foi cultivada como lembrança viva da Paixão.
A palavra paixão, no nome, se refere ao sofrimento de Cristo, e não ao amor romântico. Com o tempo, porém, o sentido mudou no imaginário popular. Hoje, o passion fruit das propagandas estrangeiras é vendido como fruta sensual e tropical, bem longe do sentido original.
Mamangava — A Flor de um Dia
A flor do Maracujá-azedo abre ao meio-dia e dura apenas algumas horas, fechando no fim da tarde. Para virar fruto, precisa receber pólen de outra planta, porque não se fecunda sozinha.
Quem faz esse trabalho são as mamangavas, grandes abelhas do gênero Xylocopa, fortes o bastante para alcançar as anteras e os estigmas no alto da flor. As abelhas menores, como as africanizadas, visitam a flor, mas pouco ajudam a polinizar. Onde as mamangavas são raras, os agricultores fazem a polinização à mão, flor por flor, com os dedos ou com um pincel. É um trabalho diário e delicado, feito nas poucas horas em que a flor está aberta. Plantar árvores e deixar troncos secos perto dos pomares ajuda, porque as mamangavas fazem ninhos na madeira.
Outro segredo está nas folhas. Elas são o alimento das lagartas das borboletas do gênero Heliconius, que acumulam os compostos tóxicos da planta e se tornam indigestas para os predadores. Algumas espécies de Passiflora desenvolveram manchas nas folhas que imitam ovos de borboleta e afastam as fêmeas.
Mousse — Do Suco à Caipirinha
Segundo a Embrapa, o Brasil produz mais de 70% do Maracujá do mundo, cerca de 700 mil toneladas por ano. O Nordeste responde por cerca de 70% do total, com a Bahia e o Ceará à frente, e quase toda a produção é consumida no próprio país.
Na cozinha brasileira, o Maracujá está no suco, na mousse, no sorvete, na calda de pudim e na batida. Nas festas, a caipirinha e a batida de Maracujá dividem espaço com as de Limão. A casca, rica em pectina, também vira farinha e doce em algumas regiões.
Fora do Brasil, a fruta é cultivada no Equador, na Colômbia, no Peru, na Austrália e em países da África e da Ásia. O suco concentrado é usado em bebidas e sobremesas no mundo inteiro, e o Maracujá virou um sabor associado aos trópicos. No Havaí, onde é chamado de lilikoi, e na Austrália, a fruta entra em bolos, cremes e coquetéis.
Uma Fruta Nativa que Ganhou o Mundo
O Maracujá é uma trepadeira brasileira, com dezenas de parentes nativos, que os povos indígenas nomearam e comeram muito antes dos europeus. Sua flor espetacular virou lição de catecismo na Europa e deu nome ao gênero Passiflora.
Hoje, o Brasil planta e consome a maior parte do Maracujá do mundo, graças ao trabalho das mamangavas e das mãos que polinizam flor por flor. Da mousse de domingo ao chá de folhas da avó, a fruta continua fazendo parte do dia a dia brasileiro. E a flor, que um dia serviu de catecismo, segue abrindo ao meio-dia nos quintais e cercas do país, à espera das mamangavas.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

