Verão — A Fruta Feita de Água
Para muita gente, uma fatia de Melancia gelada é quase sinônimo de calor, praia e férias. Cerca de 91% da fruta é água, e o resto é quase todo açúcar, fibras e pigmentos. Mesmo assim, por trás dessa simplicidade, existe uma história de milhares de anos.
A Melancia saiu de uma planta pequena e branca do Sudão, apareceu pintada num túmulo egípcio, cruzou o Mediterrâneo, ganhou um nome que lembra uma cidade da Espanha e chegou às Américas em navios. Hoje, o mundo colhe mais de 100 milhões de toneladas por ano, e no Brasil ela é presença certa em feiras e praias.
Esta é a história da Citrullus lanatus, uma fruta que já foi amarga, que deu nome a um aminoácido, que virou cubo no Japão e que pode passar de 150 quilos.
Kordofan — O Melão Branco do Sudão
Por muito tempo, acreditou-se que a Melancia vinha do sul da África. A ideia nasceu de um erro: um aluno do botânico Carl Linnaeus encontrou um melão perto da Cidade do Cabo e o classificou como Citrullus lanatus. Mais tarde, descobriu-se que aquela planta pertencia a outra espécie, sem parentesco tão próximo com a Melancia cultivada.
Em 2021, um estudo genético liderado pela botânica Susanne Renner mostrou que a parente selvagem mais próxima da Melancia é o melão de Kordofan, do Sudão. É uma fruta pequena, de cerca de 15 centímetros, com casca listrada de verde e polpa branca e doce, sem o amargor de outras melancias selvagens.
Os vestígios mais antigos confirmam a origem africana. Sementes de melancias selvagens com cerca de 5 mil anos foram encontradas em Uan Muhuggiag, na Líbia. Num túmulo em Saqqara, no Egito, uma pintura de cerca de 4.300 anos mostra um melão grande, alongado e listrado de verde, ao lado de uvas e outras frutas.
Valenciana — O Nome que Veio da Espanha
Do nordeste da África, a Melancia se espalhou devagar. Sementes antigas também apareceram em assentamentos perto do mar Morto. A fruta chegou à Índia por volta do século 7 e à China por volta do século 10. Lá, virou uma fruta popular, e hoje o país concentra a maior parte da produção mundial.
Na Península Ibérica, há registros de cultivo em Córdoba, em 961, e em Sevilha, em 1158, no período de domínio muçulmano. É daí que vem o nome em português. Melancia deriva do árabe balansiya, que significa valenciana, ou de Valência, com influência da palavra melão. No português antigo, a fruta era chamada de balancia ou belancia.
Nas Américas, a Melancia já era cultivada na Flórida em 1576 e em Massachusetts em 1629. Por volta de 1650, estava estabelecida no Peru, no Panamá e no Brasil. Aqui, encontrou calor e solos arenosos, e se espalhou do litoral ao interior, plantada em roças, quintais e beiras de rio.
Citrulina — O Aminoácido com Nome de Melancia
A polpa da Melancia tem cerca de 91% de água e 6% de açúcares. A cor vermelha vem de carotenoides, como o licopeno, o mesmo pigmento que colore o Tomate. Nas variedades de polpa amarela ou laranja, outros pigmentos tomam o lugar do vermelho.
A fruta também deu nome a uma substância. Em 1914, os pesquisadores japoneses Yatarō Koga e Ryō Ōtake isolaram da Melancia um aminoácido que mais tarde ganhou o nome de citrulina, de citrullus, a palavra em latim para a fruta. A citrulina é produzida principalmente na parte branca, perto da casca.
Quase nada precisa ir para o lixo. As sementes podem ser secas e torradas ou moídas em farinha. A casca pode virar conserva, refogado ou ensopado, e o suco pode ser fermentado em vinho. Em várias partes da Ásia e da África, as sementes torradas são vendidas como petisco, enquanto em muitas casas brasileiras ainda são cuspidas no prato.
Saqqara — Frutas para a Eternidade
A pintura de Saqqara mostra a Melancia entre uvas e outras frutas doces, num túmulo construído para a vida após a morte. Para os egípcios, colocar alimentos nas tumbas era uma forma de garantir que o morto tivesse o que comer na eternidade. A fruta listrada fazia parte desse banquete.
Na China, a Melancia ganhou outro sentido. Ela é associada à boa sorte e à felicidade e costuma ser dada de presente no Ano-Novo Lunar. O formato redondo e as muitas sementes combinam com desejos de fartura e família grande. A fruta que no Egito acompanhava os mortos, na China celebra o começo de um novo ano.
A fruta também virou presente sofisticado. No Japão, frutas perfeitas, sem manchas e com formato regular, são vendidas em lojas especializadas como presentes caros, e a Melancia faz parte desse mercado. Nele, a aparência pesa tanto quanto o sabor, e cada fruta é cultivada com cuidados especiais para chegar intacta à mesa de quem a recebe.
Cubo — A Melancia sem Sementes e a Melancia Quadrada
As melancias sem sementes não são transgênicas. Elas foram desenvolvidas por cientistas japoneses em 1939, cruzando plantas com números diferentes de cromossomos. O resultado é uma fruta triploide, que não consegue formar sementes maduras e deixa apenas pequenas sementes brancas e moles. Como essas plantas não produzem sementes férteis, cada safra depende de novas sementes produzidas pelo cruzamento. Em 2014, essas melancias já respondiam por cerca de 85% das vendas nos Estados Unidos.
Em 1978, o designer gráfico japonês Tomoyuki Ono apresentou numa galeria do bairro de Ginza, em Tóquio, uma Melancia em forma de cubo. O segredo é simples: a fruta cresce dentro de uma caixa e assume o formato do recipiente.
Mas há um detalhe pouco conhecido. Para manter o formato perfeito, as melancias quadradas são colhidas antes de amadurecer, o que as deixa praticamente impróprias para comer. São peças de decoração, vendidas por preços que chegaram a 200 dólares. Mesmo assim, viraram uma curiosidade famosa e aparecem até hoje em fotos, reportagens e vitrines pelo mundo.
Goiás — Do Gigante do Tennessee às Roças Brasileiras
Em 2023, o mundo produziu cerca de 105 milhões de toneladas de Melancia. A China respondeu sozinha por 64% desse total, seguida de longe por Índia, Turquia, Argélia e Brasil, que colheu cerca de 1,8 milhão de toneladas e apareceu entre os 5 maiores produtores do mundo.
Em 2024, a produção brasileira chegou a cerca de 1,9 milhão de toneladas. Goiás liderou, com 270,5 mil toneladas, cerca de 13,7% do total, seguido por Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul. A fruta é plantada em quase todo o país, do Sul ao Nordeste, e vendida em feiras, beiras de estrada e carrinhos de praia. Como as regiões plantam em épocas diferentes, há Melancia nos mercados brasileiros praticamente o ano inteiro.
O tamanho também chama atenção. O recorde do Guinness é de uma Melancia da variedade Carolina Cross, cultivada no Tennessee, nos Estados Unidos, em 2013, que pesou 159 quilos. No outro extremo, o melão de Kordofan, seu parente selvagem, cabe na palma da mão.
Listras — Uma Fruta que Atravessou o Deserto
A Melancia nasceu como um pequeno melão branco no Sudão, foi pintada num túmulo egípcio, passou por Córdoba e Sevilha e ganhou o nome de uma cidade espanhola. Cruzou o Atlântico, se espalhou pelas Américas e encontrou no Brasil o calor e os solos arenosos de que gosta.
No caminho, deu nome à citrulina, virou cubo no Japão e perdeu as sementes num laboratório. Hoje, cada fatia vermelha servida na praia carrega uma história de pelo menos 4 mil anos, da areia do deserto à areia do litoral brasileiro. Não por acaso, ela continua sendo a fruta que muita gente associa ao calor e ao verão.
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Fontes
- Watermelon (Wikipedia)
- A chromosome-level genome of a Kordofan melon illuminates the origin of domesticated watermelons (PNAS, 2021)
- Researchers Uncover the Watermelon’s Origins (Smithsonian Magazine)
- Citrulline (Wikipedia)
- Square watermelon (Wikipedia)
- Cinco frutos com nomes geográficos (Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)
- Goiás lidera produção nacional de melancia (Mais Goiás)

