Salsa: a erva que saiu da medicina para conquistar a culinária

Do Mediterrâneo que a gerou ao tempero mais usado na culinária ocidental — a Salsa era coroa fúnebre dos gregos, troféu olímpico dos romanos e o único vegetal que os medievais acreditavam que só crescia onde o diabo havia passado

Do Mediterrâneo que a gerou ao cheiro-verde que perfuma toda cozinha brasileira, a salsa é a erva que os romanos usavam no pescoço para evitar a embriaguez — e que hoje é a segunda erva mais cultivada do mundo.

A salsa não tem glamour de especiaria exótica. Não veio de ilhas remotas nem custou fortunas nos mercados medievais. Crescia entre as pedras do Mediterrâneo — daí o próprio nome científico. Mas essa discrição esconde uma das histórias culinárias e medicinais mais longas do reino vegetal — presente nas mesas dos gregos, dos romanos, dos árabes e de praticamente todas as cozinhas do mundo. Esta é a história da Petroselinum crispum — a erva das pedras que o Brasil adotou como cheiro-verde.

 

Petrus Selenium — A Erva das Pedras do Mediterrâneo

A salsa, Petroselinum crispum, é nativa da região mediterrânea central — com origem apontada para o sul da Itália, a Grécia, a Sardenha, a Argélia e a Tunísia. O nome científico vem de duas palavras gregas — petros, pedra, e selenium, aipo — porque crescia espontaneamente entre as rochas do Mediterrâneo, daí o nome petrus selenium que evoluiu para petroselinum. É uma planta herbácea bienal da família Apiaceae — a mesma da cenoura, do salsão, do endro e do coentro. Pode atingir até noventa centímetros de altura, com folhas verde-brilhantes muito divididas, flores amarelo-esverdeadas e sementes pequenas e aromáticas. No Brasil foram introduzidas pelos colonizadores portugueses — e as variedades se dividem em salsa lisa, mais cultivada no Centro-Sul, e salsa crespa, mais ornamental e aromática.

 

 

Da Grécia Antiga aos Banquetes Romanos — Uma Erva que Estava em Todo Lugar

Os gregos cultivavam a salsa pelo menos desde o terceiro século antes de Cristo — usada em guirlandas fúnebres e coroas de vitória nos Jogos Ístmicos, celebrados em honra de Possêidon. Para os gregos, era planta associada à morte e ao luto — e dizer que alguém necessita de salsa significava dizer que estava à beira da morte. Os romanos inverteram o simbolismo — adotaram a salsa como erva de mesa e de medicina. Acreditavam que usar um ramo de salsa em volta do pescoço evitava a embriaguez nos banquetes. Usavam-na também para afastar o mau hálito após o vinho e como medicamento diurético e digestivo. Os romanos foram os responsáveis por espalhar a salsa por toda a Europa — levando-a em suas campanhas militares até as ilhas britânicas e à Germânia.

 

Apigenina, Vitamina K e a Erva que Purifica o Sangue

A salsa é muito mais nutritiva do que seu papel de enfeite de prato sugere. Rica em vitamina K — essencial para a coagulação sanguínea e a saúde óssea — vitamina C, vitamina A, ferro, cálcio, potássio e folato. Suas folhas frescas têm concentração de vitamina C superior à da laranja em peso equivalente. Contém apigenina — o mesmo flavonoide da camomila — com propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e neuroprotetoras estudadas pela ciência moderna. Na fitoterapia é reconhecida como diurética, digestiva, antiespasmódica e emenagogas — usada no tratamento de retenção de líquidos, cálculos renais, infecções urinárias e distúrbios digestivos. Uma erva que cura pelo mesmo caminho que tempera.

 

 

Luto Grego, Vitória Romana e a Erva que Atravessou Simbolismos

A salsa carrega simbolismos contraditórios que revelam como uma mesma planta pode significar coisas opostas em culturas diferentes. Para os gregos, era planta do luto — associada à morte e ao submundo. Para os romanos, era planta da vitória e da celebração — presente nos banquetes e nas coroas dos vencedores. Na tradição popular europeia medieval, era considerada planta mágica — acreditava-se que só brotava bem nos jardins onde a mulher mandava mais que o homem. Na medicina árabe medieval, era prescrita como afrodisíaco e estimulante. E no Brasil popular, o cheiro-verde — mistura de salsa com cebolinha — é presença tão cotidiana e essencial que raramente alguém para para pensar na história da planta que o compõe.

 

O Cheiro-Verde — Uma Invenção Brasileira que Misturou Duas Ervas

Um dos segredos mais curiosos da salsa no Brasil é que o cheiro-verde não é uma planta — é uma dupla. A mistura de salsa com cebolinha, vendida junta nos mercados brasileiros como se fosse um único tempero, é uma convenção culinária tipicamente brasileira que não existe em nenhum outro país do mundo com esse formato. Em Portugal, a salsa é usada sozinha. Em Itália, sozinha. Em França, sozinha. No Brasil, salsa sem cebolinha parece incompleta — e cebolinha sem salsa também. A combinação criou um tempero único que define o sabor de feijões, carnes, caldos, molhos e refogados da culinária brasileira — uma fusão de duas histórias em um único maço amarrado.

 

 

Do Tabule Árabe ao Chimichurri Argentino — A Salsa nas Cozinhas do Mundo

A salsa é a segunda erva mais cultivada do mundo — atrás apenas da hortelã. Está presente em praticamente todas as culinárias que tiveram contato com a tradição mediterrânea. O tabule árabe — salada de salsa fresca com bulgur, tomate e limão — é um dos pratos mais consumidos do Oriente Médio. O chimichurri argentino — molho de salsa com alho, azeite e vinagre — é o acompanhamento nacional do churrasco. A gremolata italiana perfuma ossobucos e risotos. A persillade francesa finaliza pratos de carne e peixe. E o bouquet garni — o ramalhete de ervas da culinária francesa — quase sempre inclui salsa como elemento central. Uma erva discreta que entrou em todas as cozinhas sem pedir licença.

 

Do Mediterrâneo ao Horto de Cada Brasileiro

No Brasil, a salsa é cultivada principalmente nas regiões Sul e Sudeste — onde o clima mais ameno favorece seu desenvolvimento. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul lideram a produção nacional. É uma das hortaliças condimentares mais cultivadas em hortas domésticas — fácil de plantar em vasos, jardineiras e pequenos canteiros. A variedade lisa predomina no mercado brasileiro — mais suave e fácil de usar. A crespa é mais ornamental e aromática — preferida na Europa. Das pedras do Mediterrâneo grego ao maço de cheiro-verde na feira do bairro — a salsa percorreu mais de dois mil anos sendo a erva que ninguém percebe quando está presente e todos sentem falta quando falta. Quer conhecer mais histórias sobre as plantas que moldaram o mundo? Explore o reino das plantas em A História das Plantas.

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