Tangerina: O Doce Cítrico que Aconchega os Invernos

Sol em gomos, a tangerina é fruta de quintal e saudade, que amadurece suave nos invernos e estoura alegria nos dedos.

Da China que a cultivou por três mil anos antes da Europa saber que existia ao Rio Grande do Sul que a chama de bergamota, a tangerina é a fruta cítrica de mais nomes e mais identidades do mundo.

A tangerina é a fruta dos muitos nomes. Mexerica, bergamota, poncã, mandarina, tangerina, laranja-cravo, laranja-mimosa, mimosa, fuxiqueira — cada região do Brasil tem o seu nome para a mesma fruta. E não é por acaso — a tangerina é a mais diversa das frutas cítricas, com dezenas de variedades que se comportam de forma tão distinta que parecem frutas diferentes. Esta é a história da Citrus reticulata — a fruta que chegou na Europa quase mil anos depois das outras cítricas asiáticas, e que na China era famosa antes de tudo pelo perfume.

 

Reticulata — A Casca em Forma de Rede que Vem do Sul da China

A tangerina, Citrus reticulata, é uma das espécies cítricas mais antigas domesticadas pelo ser humano — com registros de cultivo na China e no sudeste asiático datando de mais de três mil anos. O nome científico vem do latim reticulatus — em forma de rede — referência à casca solta e fibrosa que envolve os gomos como um tecido leve, tornando-a fácil de descascar com as mãos. É originária do sul da China, do Vietnã e de regiões de clima subtropical úmido. Ironia botânica — a tangerina é ancestral da laranja, pois a Citrus sinensis surgiu de um cruzamento entre o pomelo e a própria tangerina. A fruta-mãe chegou à Europa mais de mil anos depois da filha.

A Tangerina (Citrus reticulata) espalhou-se da Ásia para o mundo como símbolo de prosperidade e frescor

 

O Perfume Antes do Sabor — A China do Século VI

Na China do século VI, a tangerina era famosa pelo perfume antes de ser valorizada pelo sabor. O poeta Liü Hsün, que viveu entre 462 e 521 d.C., descreveu a chegada da fruta num banquete com intensidade raramente dedicada a alimentos — quando aberta, sua névoa perfumada jorra sobre o povo. As cascas eram levadas à palma da mão para que o calor corporal liberasse os óleos essenciais. No Japão foi introduzida antes das grandes navegações e descrita em documentos de 1178. Apesar de estar na Ásia há milênios, a tangerina só chegou à Europa em 1805 — levada à Inglaterra por pomares que a trouxeram da China. Da Inglaterra foi para Malta, depois para a Itália, e então se espalhou pelo Mediterrâneo.

 

Vitamina C, Limoneno e a Casca que Cura

A tangerina é rica em vitamina C, betacaroteno, flavonoides e limoneno — o composto terpênico presente na casca com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias estudado como agente anticancerígeno. Suas folhas, flores e cascas são usadas na medicina tradicional chinesa há milênios — para tratar problemas digestivos, tosse e ansiedade. O óleo essencial extraído da casca é amplamente usado em aromaterapia, perfumaria e como aromatizante alimentar. Com baixo índice calórico, alto teor de fibras e vitaminas, é aliada da saúde imunológica e cardiovascular. No Brasil é uma das frutas mais consumidas no inverno — época em que sua produção é máxima e seu sabor adocicado e perfumado é mais intenso.

A Tangerina impulsionou o comércio de cítricos e transformou hábitos alimentares em diferentes culturas

 

O Ano Novo Chinês e a Fruta da Prosperidade

Na cultura chinesa, a tangerina é símbolo central do Ano Novo — sua cor dourada e forma redonda evocam o sol, a plenitude e a riqueza. É presenteada em pares durante as festividades — a palavra tangerina em cantonês tem som semelhante à palavra boa sorte. Em algumas culturas ocidentais, especialmente na tradição britânica, a tangerina dentro da meia do Papai Noel é tradição de Natal que remonta ao século XIX — quando a fruta era presente raro e valioso. O Rei Luís XIV da França a apreciava em festas de inverno no Palácio de Versalhes — onde os jardineiros a cultivavam em estufas aquecidas especialmente para a realeza.

 

De Tânger ao Mundo — A Origem do Nome

O nome tangerina tem origem geográfica fascinante — vem de laranja tangerina, isto é, laranja de Tânger, a cidade portuária do norte de Marrocos por onde a fruta chegou a Portugal. Mandarina faz referência aos mandarins, os altos funcionários da burocracia imperial chinesa — possivelmente pela cor alaranjada dos trajes dessas autoridades. Bergamota, no Sul do Brasil, vem do turco beg armudi, pera do príncipe. Mexerica vem do verbo mexericar. Poncã vem do japonês ponkan. Cada nome conta uma rota diferente — cada rota conta uma história da mesma fruta viajando pelo mundo.

A Tangerina representa a doçura equilibrada que marcou a expansão das frutas tropicais no inverno europeu

 

A Clementina e os Híbridos que Nasceram da Tangerina

A tangerina é a mais promíscua das frutas cítricas — cruzou naturalmente com laranjas, pomelos e limões ao longo de milênios, gerando híbridos que hoje dominam o mercado global. A clementina — cruzamento entre tangerina e laranja azeda — foi descoberta por acidente pelo Frei Clément Rodier num jardim de Oran, na Argélia, por volta de 1902 — e tornou-se a mandarina mais vendida da Europa, especialmente na Espanha e em Portugal. O murcote — outro híbrido popular no Brasil — combina suculência e doçura num equilíbrio que o tornou favorito dos supermercados. Cada novo híbrido é uma nova combinação do mesmo patrimônio genético que começou nas florestas subtropicais da China.

 

A Bergamota Gaúcha e a Fruta que Tem um Nome para Cada Brasileiro

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de tangerina — ao lado da China e da Espanha. No Rio Grande do Sul, a bergamota é símbolo cultural do inverno gaúcho — cultivada na Serra Gaúcha e no Vale do Caí, consumida fresca, em sucos, geleias e licor artesanal. A poncã domina em São Paulo e Minas Gerais. A mexerica reina em Goiás e no Sudeste. A laranja-cravo é o nome nordestino. Em Curitiba chamam de mimosa. É a fruta que mais revela a diversidade cultural e regional do Brasil — cada estado com seu nome, sua variedade e sua memória afetiva da fruta do inverno. Da névoa perfumada dos banquetes chineses do século VI ao cesto de bergamotas numa tarde de julho gaúcho — a tangerina percorreu três mil anos sendo simultaneamente ancestral da laranja, símbolo de prosperidade e aconchego do inverno. Quer conhecer mais histórias sobre as plantas que moldaram o mundo? Explore o reino das plantas em A História das Plantas.

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