Eucalipto: Da Austrália dos Coalas às Marias Fumaça e à Celulose Brasileira

Nativo da Austrália, onde alimenta coalas, sobrevive ao fogo e vira didjeridu, o Eucalipto chegou ao Brasil em 1904 para abastecer as locomotivas da Companhia Paulista e hoje cobre 7,8 milhões de hectares, base do maior exportador de celulose do mundo

 

A Árvore Australiana que Cobriu o Brasil

Quem viaja pelo interior de Minas Gerais, São Paulo, Bahia ou Mato Grosso do Sul atravessa quilômetros de árvores retas e iguais, de tronco claro e folhas que brilham ao sol. São Eucaliptos, árvores nativas da Austrália que viraram parte comum da paisagem do Brasil rural, em fazendas, beiras de estrada e quebra-ventos.

O Eucalipto chegou aqui como lenha para trens a vapor e virou a base de uma indústria que coloca o Brasil entre os líderes mundiais da celulose. Hoje, é de longe a árvore mais plantada do país. Ao mesmo tempo, provoca debates sobre água, monocultura e biodiversidade.

Na Austrália, é a árvore dos coalas, do didjeridu e das cerimônias aborígenes de fumaça. No Brasil, é chá de gripe, cabo de vassoura, carvão de siderúrgica e papel. Esta é a história de uma árvore que atravessou o planeta e mudou paisagens dos 2 lados.

 

Eucalyptus — O Gênero Bem Coberto

O Eucalipto pertence ao gênero Eucalyptus, da família Myrtaceae, a mesma da Goiaba, da Pitanga, da Jabuticaba e do Cravo-da-índia. São mais de 700 espécies, quase todas nativas da Austrália. Poucas crescem naturalmente na Nova Guiné, na Indonésia e nas Filipinas.

O nome foi criado em 1789 pelo botânico francês Charles Louis L’Héritier de Brutelle, a partir das palavras gregas para bem e coberto. Ele se refere ao opérculo, uma tampinha que cobre o botão da flor e se solta quando ela abre, deixando à mostra um tufo de estames.

Entre as espécies mais plantadas no Brasil estão o Eucalyptus grandis e o Eucalyptus urophylla, além de híbridos entre os 2, escolhidos pelo crescimento rápido e pela madeira adequada à celulose. Na Austrália, a espécie Eucalyptus regnans guarda um recorde medido: um exemplar chamado Centurion, na Tasmânia, tem cerca de 100 metros e é a planta com flores mais alta conhecida.

 

Eucalyptus vem do grego bem coberto — uma tampa, o opérculo, protege o botão floral até a flor se abrir

 

Maria Fumaça — Do Navio de Cook à Companhia Paulista

Os europeus conheceram o Eucalipto nas viagens do capitão James Cook à Austrália, a partir de 1770. No século 19, por causa do crescimento rápido, sementes foram levadas para jardins e plantações na Europa, na África, na Índia e nas Américas.

No Brasil, a história tem nome e sobrenome. Em 1904, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro contratou o agrônomo Edmundo Navarro de Andrade para plantar florestas ao longo dos trilhos. A empresa precisava de lenha para as locomotivas a vapor, as Marias Fumaça, e de madeira para dormentes, postes e moirões.

Navarro de Andrade testou 95 espécies florestais e trouxe 144 espécies de Eucalipto da Austrália. O Eucalipto venceu a disputa, e o agrônomo foi responsável pelo plantio de cerca de 24 milhões de árvores em São Paulo. Dirigiu o serviço florestal da companhia por 37 anos e ficou conhecido como o pai do Eucalipto no Brasil. O horto de Rio Claro, criado em 1909, é hoje a Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade, com mais de 2 mil hectares.

 

Eucaliptol — O Cheiro da Gripe

As folhas do Eucalipto guardam um óleo essencial rico em eucaliptol, também chamado de 1,8-cineol, de cheiro fresco e canforado. É ele que aparece em pastilhas, xaropes, balas, pomadas para o peito e enxaguantes bucais.

No Brasil, a inalação com folhas de Eucalipto na água quente é um remédio caseiro tradicional para gripes e resfriados. O vapor pode dar sensação de nariz desentupido, mas o óleo concentrado exige cuidado: engolido, mesmo em pequenas quantidades, pode causar intoxicação grave, principalmente em crianças. As flores também alimentam as abelhas. O mel de Eucalipto, escuro e de sabor forte, é produzido em muitas regiões do Brasil, onde as florestas plantadas viraram pasto para a apicultura.

Na Austrália, as folhas são o alimento quase exclusivo dos coalas. Elas têm pouca energia e compostos tóxicos para a maioria dos animais. Os coalas desenvolveram um sistema digestivo especializado e passam grande parte do dia dormindo para economizar energia.

 

Quase todas as mais de 700 espécies de Eucalipto são nativas da Austrália — o Eucalyptus regnans chega a 100 m de altura

 

Fumaça — Didjeridu e Cerimônias Aborígenes

Para os povos aborígenes da Austrália, o Eucalipto faz parte da vida há milênios. Nas cerimônias de fumaça, folhas verdes de Eucalipto são queimadas para purificar pessoas e lugares e dar boas-vindas aos visitantes em território tradicional.

O didjeridu, instrumento de sopro do norte da Austrália, é feito de troncos de Eucalipto ocos. Os cupins comem o miolo da árvore viva, e os artesãos escolhem os troncos já escavados, limpam o interior e moldam um bocal de cera. Entre os Yolngu, da Terra de Arnhem, o instrumento se chama yidaki. A palavra didjeridu não é aborígene: foi criada por um antropólogo nos anos 1920, imitando o som.

Os aborígenes também usavam a casca, a madeira e a seiva de várias espécies para fazer canoas, recipientes e remédios, e comiam as flores ricas em néctar. Em regiões secas, cortavam e escorriam as raízes de certas espécies para obter água, um conhecimento que salvou vidas no interior árido do continente.

 

Lignotúber — Fogo, Casca e Seiva

Muitas florestas de Eucalipto dependem do fogo. Várias espécies têm gemas escondidas sob a casca grossa, que brotam depois do incêndio, e lignotúberes, engrossamentos na base do tronco que guardam reservas para rebrotar. Algumas só liberam as sementes depois do calor.

O óleo das folhas, porém, é muito inflamável e, em dias quentes, pode acelerar o avanço das chamas. Em Portugal, onde o Eucalipto ocupa grandes áreas, ele é frequentemente citado no debate sobre os incêndios florestais. Perto de Sydney, a névoa azulada que dá nome às Montanhas Azuis costuma ser atribuída aos óleos voláteis liberados pelas florestas de Eucalipto nos dias quentes.

Outro segredo está na casca. Muitas espécies trocam de casca todos os anos, em tiras ou placas que caem e deixam o tronco liso e manchado. O Eucalyptus deglupta, das Filipinas, ficou conhecido como Eucalipto-arco-íris: ao descascar, revela faixas verdes, azuis, roxas e alaranjadas que mudam de cor com o tempo, como se o tronco tivesse sido pintado à mão.

 

O eucaliptol das folhas é usado em inalações e pastilhas — e no Brasil, o Eucalipto é plantado em larga escala para papel e celulose

 

Celulose — Das Florestas Plantadas ao Papel

Segundo a Indústria Brasileira de Árvores, o Brasil tinha em 2023 cerca de 7,8 milhões de hectares de Eucalipto plantado, 76% das árvores cultivadas do país. O Brasil é o maior exportador de celulose do mundo, com mais de 18 milhões de toneladas embarcadas em 2023, boa parte vinda do Eucalipto.

A madeira também vira carvão para a siderurgia em Minas Gerais, móveis, painéis, construções rurais e lenha. O ciclo de corte é curto: uma floresta plantada para celulose costuma ser colhida entre 6 e 8 anos.

O avanço dos plantios gerou críticas. Movimentos sociais chamam as grandes monoculturas de deserto verde, pela pouca biodiversidade que abrigam. Pesquisas indicam que, por hectare, o consumo de água do Eucalipto é comparável ao de muitas florestas nativas, mas plantios extensos em regiões secas podem reduzir a água disponível nos rios. O manejo e o lugar do plantio fazem diferença, e intercalar os plantios com áreas de mata nativa preservada reduz os impactos.

 

Uma Árvore entre Dois Continentes

O Eucalipto nasceu na Austrália, onde alimenta coalas, sobrevive ao fogo e dá voz ao didjeridu. Chegou ao Brasil para alimentar locomotivas e virou a base de uma das maiores indústrias florestais do planeta.

Hoje, divide opiniões: é papel, carvão, lenha e renda para milhares de famílias, mas também símbolo das monoculturas que substituem paisagens diversas. Entender sua história ajuda a pensar como plantar florestas que sirvam à economia sem esquecer a água, os solos e as matas nativas. A árvore que veio para mover trens hoje move uma parte importante da economia brasileira.

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Fontes

  • Wikipedia. Eucalyptus. Link
  • Instituto Biológico de São Paulo. Edmundo Navarro de Andrade e a Eucaliptocultura no Brasil. Link
  • Mais Floresta. Setor de base florestal ultrapassa 10 milhões de hectares, sobre o Relatório Ibá 2024. Link
  • AIATSIS. Didjeridu. Link

 

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