Pizza — A Erva que Perfuma o Forno
Para muitos brasileiros, o Orégano é o pó verde que cai sobre a pizza antes de ir à mesa. Nas cozinhas de casa, também tempera saladas, queijos, molhos e azeites. Mas essa erva tem uma história bem mais antiga que a pizzaria do bairro. Ela vem das encostas secas do Mediterrâneo, onde cresce entre pedras, sob sol forte.
O Orégano esteve em casamentos e funerais gregos, apareceu nos escritos de Aristóteles e tem um parente famoso na mitologia, capaz de curar flechadas. No século 20, virou a erva da pizza nos Estados Unidos e chegou às mesas brasileiras junto com a cozinha dos imigrantes italianos.
Esta é a história do Origanum vulgare, uma pequena planta aromática que guarda óleos poderosos nas folhas e que, hoje, é tão valorizada que muitas vezes é falsificada.
Encosta — A Alegria da Montanha
O Orégano é nativo da região do Mediterrâneo e hoje cresce naturalizado em áreas de clima temperado de todo o hemisfério norte. Prefere lugares quentes e relativamente secos, com solo de pH neutro a levemente alcalino. É uma planta perene, que chega a cerca de 90 centímetros, com pequenas flores roxas, rosadas ou brancas reunidas em cachos.
Ele pertence à família das Lamiáceas, a mesma da Hortelã, do Manjericão, do Alecrim, do Tomilho e da Sálvia. Seu parente mais próximo na cozinha é a Manjerona, Origanum majorana, mais suave e adocicada. Por isso, o Orégano às vezes é chamado de manjerona-selvagem.
O nome vem do grego origanon. Uma explicação popular diz que ele junta oros, montanha, e ganos, alegria, e significaria alegria da montanha. É uma imagem bonita, mas a origem da palavra é discutida, e alguns dicionários consideram que ela foi emprestada de outra língua. Entre as variedades, o Orégano grego, Origanum vulgare subsp. hirtum, é um dos mais usados na cozinha.
Tartaruga — Dos Rituais Gregos à Erva da Pizza
Na Grécia antiga, o Orégano fazia parte de casamentos e de ritos funerários. Era uma planta presente nos momentos de passagem, da união de um casal à despedida dos mortos. O aroma forte e duradouro combinava com cerimônias que marcavam o começo e o fim de uma vida.
O filósofo Aristóteles registrou uma observação curiosa em sua História dos Animais. Segundo ele, uma tartaruga, depois de comer uma cobra, procurava comer origanon, e isso teria sido visto mais de uma vez. Um homem teria retirado a planta do alcance do animal, e a tartaruga morreu. A história mostra como os antigos já viam a erva como algo com poder sobre o corpo.
Ao longo dos séculos, o Orégano se firmou nas cozinhas da Itália, da Grécia, da Turquia e de todo o Mediterrâneo, em legumes assados e carnes grelhadas. Nos Estados Unidos, ele só ficou popular depois da Segunda Guerra Mundial. Soldados que tinham lutado na Itália voltaram para casa com gosto pela erva da pizza, como ela passou a ser chamada.
Carvacrol — O Óleo Escondido nas Folhas
O sabor forte do Orégano vem de seu óleo essencial, que reúne mais de 60 compostos. Os principais são o carvacrol e o timol, que juntos podem passar de 80% do óleo. São eles que dão à erva o gosto terroso, quente e levemente amargo.
O timol também aparece no Tomilho, outro parente da mesma família. Esses compostos são produzidos em pequenas glândulas nas folhas e funcionam como defesa da planta contra insetos e micróbios. Em climas quentes e secos, a planta tende a produzir um aroma mais intenso, o que explica a fama do Orégano das encostas gregas e turcas.
Na medicina popular, o Orégano foi usado para muitos males ao longo da história. A ciência, porém, é cautelosa: não há evidências clínicas de que a erva tenha efeitos sobre a saúde ou previna doenças. Seu valor está, sobretudo, no sabor que leva à comida, seja fresco, seja seco, quando o aroma fica mais concentrado e se conserva por mais tempo.
Dictamo — O Primo que Curava Flechadas
O gênero Origanum tem um parente lendário: o Dictamo-de-creta, Origanum dictamnus, que cresce em penhascos e desfiladeiros da ilha de Creta. Suas folhas são arredondadas e cobertas de pelos macios, bem diferentes das do Orégano comum.
Aristóteles escreveu que as cabras selvagens de Creta, quando feridas por flechas, procuravam o Dictamo para expulsá-las do corpo. Séculos depois, o poeta romano Virgílio levou a crença para a Eneida: na obra, a deusa Vênus usa a planta para curar o herói Eneias, ferido em batalha, lembrando que ela não era desconhecida das cabras atingidas por flechas.
Colher o Dictamo era arriscado. Os coletores, chamados de erontades, precisavam descer encostas e penhascos durante a floração no verão. O nome costuma ser ligado a eros, amor, porque a planta também era colhida como presente para a pessoa amada. Hoje, a planta é considerada rara e protegida na Europa. O cultivo se concentrou na vila de Embaros, perto de Heraklion, onde ela é plantada para chás e produtos naturais.
Fraude — O Orégano que Não É Orégano
Por ser muito usado e vendido em grandes volumes, o Orégano seco é um alvo frequente de fraude. As folhas picadas são fáceis de misturar com outras, e quase ninguém percebe a diferença no pote de tempero.
Em 2015, a organização britânica de consumidores Which? analisou 78 amostras de Orégano e encontrou outras plantas em 19 delas. Nas amostras adulteradas, os ingredientes estranhos chegavam a ocupar de 30% a 70% do produto. Entre eles estavam folhas de Oliveira, de Murta e de Cisto.
Na Austrália, também em 2015, a associação Choice testou 12 marcas e encontrou adulteração em 7, sempre com folhas de Oliveira e, em 2 casos, com folhas de Sumagre. Nesses produtos, as misturas representavam de 50% a 90% do conteúdo. Em 2017, na Dinamarca, 4 de 10 amostras analisadas também tinham outras plantas. Para os testadores, a quantidade era grande demais para ser acidental. Desde então, laboratórios passaram a usar análises de DNA e de compostos químicos para identificar o Orégano verdadeiro.
Peruano — O Orégano das Pizzarias Brasileiras
No Brasil, o Orégano se espalhou junto com a pizza. São Paulo, que recebeu muitos imigrantes italianos, se tornou um dos grandes centros consumidores do tempero, e a erva virou presença obrigatória em pizzarias, molhos de tomate e esfihas.
Boa parte desse Orégano vem de fora. Entre janeiro e maio de 2013, o Brasil foi o principal destino das exportações de Orégano do Peru: comprou cerca de 4,3 milhões de dólares, ou 51,5% do total, e o crescimento foi puxado sobretudo pelo mercado paulista. O Chile aparece em segundo lugar entre os compradores do Orégano peruano.
O nome também é usado para outras plantas. O Orégano-mexicano, Lippia graveolens, nem é da mesma família: pertence à família da Verbena. Já o Orégano-cubano, Coleus amboinicus, é uma planta de folhas grossas e suculentas, também da família da Hortelã. Plantas diferentes, com aromas parecidos, acabaram dividindo o mesmo nome. No Brasil, o Orégano-cubano é cultivado em quintais e conhecido por outros nomes populares.
Folhas — Uma Erva Pequena com História Grande
O Orégano saiu das encostas do Mediterrâneo, esteve em casamentos e funerais gregos e apareceu nas observações de Aristóteles. Seu primo, o Dictamo, ganhou fama na Eneida como planta capaz de curar flechadas.
No século 20, virou a erva da pizza, atravessou o Atlântico e chegou às pizzarias brasileiras, muitas vezes vindo do Peru. Hoje, é tão procurado que chega a ser falsificado. Cada pitada sobre a pizza carrega o aroma de uma planta pequena que cresce entre pedras, sob o sol forte do Mediterrâneo, e uma história que começou muito antes do primeiro forno de pizza.
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Fontes
- Oregano (Wikipedia)
- Origanum vulgare (Wikipedia)
- Origanum dictamnus (Wikipedia)
- Aristotle, History of Animals, livro 9 (Internet Classics Archive)
- Australia hit by dried oregano fraud findings (FoodNavigator)
- 40% of oregano tested was adulterated (FoodNavigator)
- Brasil es el principal destino de exportación del orégano peruano (Agraria.pe)

