Fronde — A Planta da Varanda que Veio do Devoniano
Em muitas casas brasileiras, a Samambaia pendia na varanda, num vaso de xaxim, com folhas compridas caindo como cortina verde. Era a planta da avó, regada todo dia, protegida do sol forte e borrifada nos dias secos. Poucos imaginavam que aquele vaso guardava uma linhagem muito mais antiga que as flores, os frutos e as sementes.
As samambaias surgiram há cerca de 390 milhões de anos, no período Devoniano. Viram nascer as primeiras florestas, ajudaram a formar camadas de carvão e sobreviveram às extinções que acabaram com os dinossauros.
Esta é a história de plantas que se reproduzem sem sementes, desenrolam folhas como espirais e ainda guardam segredos, da limpeza de solos contaminados às lendas de flores mágicas.
Pteridófitas — Plantas Sem Flores e Sem Sementes
Samambaias são plantas vasculares: têm vasos que levam água e nutrientes por todo o corpo, como as árvores e as flores. Mas não produzem flores, frutos nem sementes. Reproduzem-se por esporos, pequenas células que se formam em pontinhos marrons, os soros, embaixo das folhas.
Hoje existem mais de 10.500 espécies de samambaias no mundo. Elas formavam, junto com as licófitas, o antigo grupo das pteridófitas. O nome vem do grego pteris, palavra ligada a pena ou asa, por causa das folhas recortadas como plumas.
No Brasil, um levantamento de 2010 registrou 1.176 espécies de samambaias e licófitas, das quais cerca de 38% só existem aqui. A Mata Atlântica concentra a maior parte, com 834 espécies, seguida pela Amazônia e pelo Cerrado. A palavra Samambaia vem do tupi, e uma das explicações liga o nome a um trançado de cordas, pela forma como caules e folhas se entrelaçam. Em Portugal, a planta é chamada de feto.
Carbonífero — Das Florestas do Carvão à Sombra das Flores
Os fósseis mais antigos de samambaias têm cerca de 390 milhões de anos. Nessa época, a terra firme já tinha insetos primitivos e outros artrópodes, mas os primeiros vertebrados ainda começavam a sair da água. As plantas com sementes estavam apenas surgindo.
No período Carbonífero, quase 100 milhões de anos depois, entre cerca de 359 e 299 milhões de anos atrás, pântanos imensos eram cobertos por licófitas gigantes, cavalinhas e samambaias arbóreas. Quando essas plantas morriam, eram soterradas em lama sem oxigênio. Sob pressão e calor, viraram as camadas de carvão mineral que movimentaram a Revolução Industrial.
Muitas das samambaias atuais, porém, são bem mais jovens. Elas se diversificaram no Cretáceo, depois que as plantas com flores formaram florestas fechadas. Na sombra úmida dessas matas, as samambaias encontraram um novo espaço para crescer, em troncos, pedras e no chão da floresta. Muitas viraram epífitas, vivendo presas a outras árvores sem parasitá-las, como fazem várias espécies da Mata Atlântica.
Arsênio — A Samambaia que Limpa o Solo
Algumas samambaias têm habilidades inesperadas. Em 2001, pesquisadores da Universidade da Flórida publicaram na revista Nature a descoberta de que a Pteris vittata acumula grandes quantidades de arsênio nas folhas. A planta cresce rápido, resiste a solos contaminados e passou a ser estudada para limpar áreas poluídas, uma técnica chamada fitorremediação.
Outra samambaia útil é a Azolla, que flutua em lagoas e arrozais. Ela vive em parceria com uma cianobactéria que captura nitrogênio do ar. Por isso, há séculos é usada como adubo verde nos campos de arroz da Ásia, sobretudo na China e no Vietnã.
Nem toda samambaia, porém, é amiga. A samambaia-do-campo, Pteridium aquilinum, comum em pastos e beiras de estrada no Brasil, contém substâncias ligadas a câncer de esôfago e de estômago. Ela também intoxica o gado que a come em grande quantidade, causando sangramentos e tumores na bexiga. Seu broto ainda é consumido em algumas regiões, mas o hábito é desaconselhado pelos pesquisadores.
Kupala — A Flor que Nunca Existiu
Como as samambaias não têm flores nem sementes visíveis, muitos povos criaram lendas sobre elas. No folclore eslavo, a flor de samambaia desabrocharia apenas na noite de Kupala, no começo do verão. Quem a encontrasse teria sorte, riqueza ou o poder de entender os segredos da natureza. Até hoje, na noite de Kupala, jovens procuram a flor nas matas, embora a planta nunca floresça.
Na Finlândia e em outras partes da Europa, dizia-se que quem achasse a semente de samambaia ficaria invisível. A crença era tão conhecida que aparece numa peça de Shakespeare, Henrique IV, em que um personagem diz ter a receita da semente de samambaia para andar invisível.
Na Nova Zelândia, a samambaia-prateada virou emblema nacional e aparece no uniforme da seleção de rúgbi, os All Blacks. O broto enrolado da samambaia, chamado koru pelos maoris, é um símbolo de vida nova, crescimento e renovação na arte maori. A forma espiralada aparece em entalhes, tatuagens e até no logotipo da companhia aérea do país.
Báculo — O Ciclo Secreto das Duas Gerações
O ciclo de vida da samambaia tem 2 fases. A planta que conhecemos produz esporos, que caem no chão úmido e germinam num pequeno talo verde em forma de coração, o protalo, com poucos milímetros. É nele que se formam as células reprodutivas masculinas e femininas.
Para a fecundação acontecer, as células masculinas precisam nadar até as femininas numa película de água. Por isso, a maioria das samambaias depende de ambientes úmidos. Do encontro nasce uma nova samambaia, que cresce sobre o protalo até ganhar raízes próprias.
As folhas novas nascem enroladas em espiral, como a ponta de um violino ou de um báculo de bispo. Os botânicos chamam isso de vernação circinada: a folha se desenrola aos poucos, protegendo a ponta delicada enquanto cresce. Em vários países, os brotos de algumas espécies são colhidos e cozidos como verdura. No Canadá e no nordeste dos Estados Unidos, por exemplo, os brotos da samambaia-avestruz são vendidos na primavera.
Xaxim — Da Pteridomania aos Vasos da Avó
Na Inglaterra vitoriana, a paixão por samambaias virou moda e ganhou nome: Pteridomania. Colecionadores percorriam bosques atrás de espécies raras, e as samambaias apareciam em estufas, louças, tecidos e lápides. A febre levou algumas populações selvagens a desaparecer de certas regiões. Para transportar as plantas vivas em longas viagens, popularizou-se a caixa de Ward, uma pequena estufa de vidro fechada que também ajudou a levar mudas de outras espécies pelo mundo.
No Brasil, a samambaia típica de varanda é do gênero Nephrolepis, cultivada em vasos suspensos. Por décadas, esses vasos foram feitos de xaxim, o tronco fibroso da samambaia-açu, Dicksonia sellowiana, uma samambaia arbórea da Mata Atlântica que pode passar de 10 metros de altura.
A extração do xaxim para vasos e substratos ajudou a colocar a espécie em risco de extinção. Hoje, a exploração da espécie é restrita por lei, e o xaxim foi substituído por fibra de coco, casca de pinus e outros materiais. Mesmo assim, ainda há venda ilegal, o que ameaça uma planta que leva décadas para crescer. Em parques da serra fluminense, fiscais ainda flagram vasos de xaxim à venda em beiras de estrada.
Esporo — Uma Linhagem de 390 Milhões de Anos
As samambaias surgiram há cerca de 390 milhões de anos, cobriram os pântanos do Carbonífero e se reinventaram à sombra das florestas com flores. Sem sementes, dependem de esporos e de água, mas ocupam quase todos os ambientes úmidos do planeta.
Limpam solos com arsênio, adubam arrozais, inspiram lendas e símbolos nacionais. No Brasil, a Mata Atlântica guarda centenas de espécies, e a samambaia da varanda continua lembrando que algumas das plantas mais comuns de casa carregam uma história muito mais antiga que a nossa. Proteger o xaxim e as matas úmidas é proteger também essa herança.
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