Naturalismo: De Teofrasto aos Viajantes que Catalogaram a Flora do Brasil

Dos gregos que explicaram o mundo sem os deuses a Humboldt, Darwin e Martius, que descreveu 22.767 espécies brasileiras, o naturalismo ensinou a olhar para as plantas, replantou a Floresta da Tijuca e abriu caminho para o ambientalismo

 

Natureza — Quando Olhar Virou Método

Naturalismo é uma palavra com vários sentidos. Na filosofia, é a ideia de que o mundo pode ser explicado pela própria natureza. Na ciência, é o trabalho dos naturalistas, que saíam a campo para observar, coletar, desenhar e descrever plantas, animais e paisagens. Na literatura, é um estilo que tratou as pessoas como parte da natureza, movidas pelo meio e pela herança.

As plantas estão no centro dessa história. Foram elas que os primeiros naturalistas gregos tentaram classificar e que os viajantes juntaram em herbários. No Brasil, renderam uma obra de 22.767 espécies descritas, publicada ao longo de 66 anos.

Do pensamento grego à Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, o naturalismo mudou a forma como olhamos para o mundo verde, e acabou ajudando a protegê-lo.

 

Physis — Tales, Aristóteles e Teofrasto

Os gregos chamavam a natureza de physis, palavra que deu origem a física. No século 6 antes da era comum, Tales de Mileto propôs que a água era o princípio de todas as coisas. Anaximandro falou do ápeiron, o ilimitado, e Heráclito viu no fogo e na mudança constante a essência do mundo. Pela primeira vez, a natureza era explicada por causas naturais, e não pela vontade dos deuses.

Aristóteles levou essa curiosidade para os seres vivos e tentou organizar os animais em grupos. As plantas ficaram com seu aluno e sucessor no Liceu de Atenas, Teofrasto, que viveu entre os séculos 4 e 3 antes da era comum. Ele escreveu História das Plantas e Causas das Plantas, obras que descrevem cerca de 500 espécies.

Teofrasto separou árvores, arbustos e ervas, observou raízes, sementes e germinação, e anotou plantas trazidas da Índia pelas campanhas de Alexandre. Por esse trabalho, é chamado com frequência de pai da botânica. Muitos dos termos que usou continuam vivos na linguagem científica.

 

O naturalismo emergiu no século XIX defendendo que a natureza e suas leis explicam a realidade humana

 

Expedições — De Plínio a Humboldt e ao Beagle

No século 1 da era comum, o romano Plínio, o Velho, reuniu o saber da época na História Natural, em 37 livros, com longos trechos sobre plantas, remédios e agricultura. Em 79, durante a erupção do Vesúvio, ele navegou em direção ao vulcão e morreu em Estábia, segundo o relato de seu sobrinho, Plínio, o Jovem.

Séculos depois, o naturalismo ganhou o mar. Entre 1799 e 1804, o alemão Alexander von Humboldt e o francês Aimé Bonpland percorreram a América espanhola e coletaram milhares de plantas. Humboldt percebeu que a vegetação mudava em faixas conforme a altitude e o clima, e criou a geografia das plantas. A ideia aparece num famoso desenho do vulcão Chimborazo, no Equador.

Em 1831, o jovem Charles Darwin embarcou no navio Beagle para uma viagem de quase 5 anos ao redor do mundo, que passou pelo Brasil. Observou a Mata Atlântica na Bahia e no Rio de Janeiro e anotou seu encanto pela floresta. As coletas e as anotações da viagem alimentaram a teoria publicada em 1859 em A Origem das Espécies.

 

Flora — Martius e os 22.767 Nomes do Brasil

Em 1753, o sueco Carl Linnaeus publicou Species Plantarum e firmou o sistema de 2 nomes que usamos até hoje, como Theobroma cacao para o Cacau. Com um método comum, os naturalistas do mundo passaram a falar a mesma língua, e cada planta coletada podia ganhar um lugar no catálogo da vida.

No Brasil, esse trabalho ganhou escala gigantesca. Entre 1817 e 1820, os bávaros Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius percorreram o país do Rio de Janeiro à Amazônia. Martius voltou para a Europa com milhares de exemplares e deu início à Flora Brasiliensis, publicada entre 1840 e 1906.

A obra tem 15 volumes, divididos em 40 partes, e mais de 10 mil páginas, com descrições de 22.767 espécies, quase todas plantas com flores. Martius morreu em 1868 sem vê-la pronta, e o trabalho foi concluído por Eichler, Urban e dezenas de botânicos. Hoje está digitalizada e aberta na internet, e pesquisadores ainda a consultam.

 

Em 1802, Alexander von Humboldt subiu o Chimborazo, no Equador, anotando como a vegetação mudava com a altitude — o desenho que fez dessas faixas fundou a geografia das plantas

 

Walden — Rousseau, Thoreau e o Encanto do Mato

O naturalismo não ficou só nos herbários. No século 18, o filósofo Jean-Jacques Rousseau defendeu que a vida próxima da natureza era mais simples e mais saudável que a das cidades. No fim da vida, ele se dedicou à botânica, colecionou plantas e escreveu cartas a uma amiga ensinando como apresentar as partes das flores à filha dela.

Nos Estados Unidos, Henry David Thoreau levou a ideia ao limite. Em 1845, construiu uma pequena cabana à beira do lago Walden, em Massachusetts, e viveu ali por pouco mais de 2 anos. Plantava Feijão, observava as estações e registrava a floração das plantas da região.

Desse período nasceu o livro Walden, de 1854, uma defesa da vida simples. Thoreau continuou anotando datas de floração por anos. Hoje, cientistas usam esses registros para medir quanto as plantas da região passaram a florescer mais cedo com o aquecimento. A contemplação de um naturalista virou dado científico mais de um século depois.

 

Tijuca — A Floresta Replantada e os Primeiros Parques

No Rio de Janeiro, o naturalismo virou ação. No século 19, a expansão dos cafezais devastou o maciço da Tijuca e secou nascentes que abasteciam a cidade. Em 1861, o governo de Dom Pedro II decidiu recuperar a floresta, e o major Manuel Gomes Archer assumiu a tarefa.

Entre 1862 e 1874, Archer e uma pequena equipe, formada principalmente por pessoas escravizadas, plantaram cerca de 72 mil mudas de espécies nativas e exóticas. A floresta voltou e as nascentes se recuperaram. Em 1961, a área virou o Parque Nacional da Tijuca, com quase 4 mil hectares de Mata Atlântica.

A ideia de proteger áreas naturais também ganhou forma legal. Yellowstone, nos Estados Unidos, foi criado em 1872, embora a Mongólia já protegesse a montanha Bogd Khan desde o século 18. Em 1876, o engenheiro André Rebouças propôs os primeiros parques nacionais do Brasil, na Ilha do Bananal e em Sete Quedas. A proposta não saiu do papel na época.

 

Prensadas e secas, as plantas de um herbário podem ser estudadas por séculos — técnica atribuída ao italiano Luca Ghini, no século XVI, e base do trabalho de todo naturalista

 

Cortiço — Zola, Eça e Aluísio Azevedo

No fim do século 19, o naturalismo entrou na literatura. O francês Émile Zola defendeu, em O Romance Experimental, de 1880, que o escritor deveria observar a sociedade como um cientista observa a natureza. Seus personagens eram moldados pela herança, pelo ambiente e pelas condições de vida, numa leitura inspirada pelas ciências naturais da época, incluindo as ideias de Darwin sobre adaptação e herança.

Em Portugal, Eça de Queirós publicou O Crime do Padre Amaro em 1875, uma das obras que levaram o realismo e o naturalismo à língua portuguesa. No Brasil, Aluísio Azevedo lançou O Mulato em 1881. O livro marca o início do naturalismo brasileiro e faz críticas duras ao racismo e à hipocrisia da sociedade maranhense.

Em 1890, Azevedo publicou O Cortiço, retrato de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro onde as pessoas crescem e se misturam como plantas num terreno disputado. A comparação com a natureza aparece em todo o livro, que continua sendo leitura obrigatória nas escolas e nos vestibulares.

 

Primavera — Do Olhar à Proteção da Natureza

Em 1962, a bióloga americana Rachel Carson publicou Primavera Silenciosa, um alerta sobre os efeitos dos pesticidas em aves, insetos e plantas. O livro ajudou a criar o movimento ambientalista moderno, que levou à Conferência de Estocolmo, em 1972, e à Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992.

De Teofrasto a Martius, de Thoreau a Carson, os naturalistas ensinaram que conhecer a natureza é o primeiro passo para cuidar dela. Cada planta descrita, desenhada ou replantada fez parte dessa longa conversa entre as pessoas e o mundo verde, que continua nos herbários, nos parques e em cada quintal.

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