Um Chá com Cheiro de Limão
Em muitas casas brasileiras, a noite termina com uma xícara de chá de Erva-cidreira. Para acalmar, para dormir melhor ou só pelo perfume de limão que sobe da xícara, a planta virou remédio caseiro passado de avó para neta.
O nome, porém, esconde uma surpresa. No Brasil, pelo menos 3 plantas diferentes são chamadas de Erva-cidreira: uma europeia, uma nativa das Américas e um capim asiático. O que as une é o cheiro de limão, dado pelo mesmo composto aromático.
A Erva-cidreira clássica, a Melissa, tem uma história que passa por abelhas gregas, mosteiros medievais e uma água milagrosa dos frades carmelitas de Paris. Esta é a história de um nome que reúne 3 plantas e de uma erva que acalma há séculos.
Melissa — A Erva das Abelhas
A Erva-cidreira verdadeira pertence à espécie Melissa officinalis, da família Lamiaceae, a mesma da Hortelã, do Manjericão e do Alecrim. É nativa do sul da Europa, do norte da África e do oeste da Ásia. É uma erva perene, de 60 a 80 centímetros, com folhas enrugadas e serrilhadas nas bordas e pequenas flores brancas ou creme que surgem no verão.
O nome do gênero vem do grego melissa, abelha. As flores produzem muito néctar e atraem abelhas em grande número, e os apicultores sempre plantaram a erva perto das colmeias. O poeta romano Virgílio, nas Geórgicas, recomendava esfregar folhas de melissa nas colmeias para atrair os enxames.
Já o nome popular em português vem de cidra, a fruta do Cidreiro, Citrus medica, um dos primeiros citros a chegar ao Mediterrâneo. As folhas da Erva-cidreira têm um aroma que lembra a casca dessa fruta. Em inglês, a planta é chamada de lemon balm, bálsamo de limão.
Mosteiros — Das Colmeias Gregas à Água dos Carmelitas
Gregos e romanos já conheciam a Melissa e a usavam como planta medicinal e melífera. Na Idade Média, ela se espalhou pela Europa com os mosteiros, que mantinham hortas medicinais e funcionavam como as farmácias da época. Os monges cultivavam a erva para preparar chás, vinhos medicinais e unguentos, e também a plantavam perto das colmeias, que davam mel e cera para as velas das igrejas.
No mundo islâmico, médicos persas e árabes também usavam a planta. Ela aparece associada à alegria e ao alívio da melancolia, uma fama que atravessou a medicina europeia até a Renascença.
Em 1611, frades carmelitas de Paris criaram a Eau de Mélisse des Carmes, a Água de Melissa dos Carmelitas, um destilado alcoólico de Melissa com outras ervas e especiarias. Era vendida como remédio para desmaios, dores de cabeça e nervosismo, e depois de mais de 4 séculos ainda é fabricada na França. Com os colonizadores portugueses, a Melissa chegou ao Brasil, onde encontrou parentes aromáticas locais com o mesmo cheiro de limão.
Citral — O Perfume que Acalma
O aroma da Melissa vem do óleo essencial, rico em citral, citronelal e geraniol, os mesmos compostos que dão cheiro de limão a outras plantas. Esses óleos evaporam com facilidade, por isso a erva seca guardada por muito tempo perde o perfume e parte do efeito. Folhas frescas ou secas há pouco tempo dão um chá mais aromático. As folhas também têm ácido rosmarínico, flavonoides e triterpenos, estudados por suas ações calmantes, antiespasmódicas e antimicrobianas.
Em 2013, a Agência Europeia de Medicamentos aprovou o uso tradicional da folha de Melissa para aliviar sintomas leves de estresse, ajudar o sono e tratar desconfortos digestivos leves, como gases e inchaço. A agência deixa claro que a aprovação se baseia no uso tradicional de longa data, e não em ensaios clínicos robustos. Também recomenda o uso apenas por adultos e crianças acima de 12 anos.
A Melissa também é estudada em cremes contra o herpes labial, pelos efeitos antivirais observados em laboratório. Como toda planta medicinal, pode interagir com remédios. Quem usa medicamentos para a tireoide ou calmantes deve conversar com um médico antes de consumi-la em grande quantidade.
Melissae — Sacerdotisas, Ninfas e Mel
Na mitologia grega, Melissa era uma ninfa que ajudou a alimentar o pequeno Zeus com mel numa caverna em Creta, onde ele se escondia do pai, Cronos. O nome da ninfa e o da planta vêm da mesma palavra: abelha. Em algumas versões do mito, Melissa foi a primeira a descobrir o mel e a ensinar os humanos a colhê-lo.
Na Grécia antiga, as sacerdotisas de algumas deusas, como Deméter e Ártemis, eram chamadas de melissai, abelhas. A abelha era símbolo de pureza, trabalho e ligação com o divino, e a erva que as atraía ganhou parte desse simbolismo.
No Brasil, as Ervas-cidreiras entraram nos rituais populares. São usadas em banhos de ervas e defumações por benzedeiras e em religiões de matriz africana, sempre ligadas à calma e à limpeza. O chá da noite também é um pequeno ritual doméstico: a água quente, o perfume de limão, a pausa antes de dormir.
Três Cidreiras — Um Nome, Três Famílias
No Brasil, a Erva-cidreira da Europa divide o nome com outras 2 plantas. A Lippia alba, da família Verbenaceae, é um arbusto nativo das Américas, de 1 a 2 metros de altura, com flores lilases. É chamada de Cidreira-de-arbusto, Erva-cidreira-brasileira ou Falsa-melissa, e é muito comum nos quintais do país.
A terceira é o Capim-limão, Cymbopogon citratus, uma gramínea de folhas longas da família Poaceae, a mesma do Milho e da Cana. De origem asiática, é chamada de Capim-santo, Capim-cidreira ou Capim-cidró, conforme a região.
As 3 têm citral no óleo essencial e por isso cheiram a limão, mas são plantas bem diferentes. A Lippia alba ainda tem várias formas químicas: algumas são ricas em citral, outras em carvona, com cheiro de hortelã, ou em linalol. Por isso, estudos de qualidade encontram chás vendidos como Erva-cidreira que trazem uma planta diferente da anunciada no rótulo. Para quem cultiva, a dica é simples: a Melissa é uma erva baixa de folhas enrugadas, a Lippia é um arbusto de galhos compridos, e o Capim-limão é um capim.
Capim-santo — Da Farmácia Caseira ao Mercado Fitoterápico
A Melissa é cultivada em climas mais amenos e aparece em chás, licores e cosméticos na Europa. Na Alemanha e na França, é ingrediente de fitoterápicos registrados, muitas vezes combinada com a Valeriana e o Lúpulo, outras plantas usadas tradicionalmente para o sono. Também aromatiza licores de ervas feitos em mosteiros.
No Brasil, o calor favorece as cidreiras tropicais. A Lippia alba cresce fácil em quintais e hortas comunitárias, e o Capim-limão ocupa canteiros inteiros e vai para chás, sucos e sobremesas. No Nordeste, o chá de Capim-santo é tradição em casas e feiras, e em muitas cidades é servido quente depois do almoço, como digestivo. As folhas também perfumam caldas e doces.
No Sudeste Asiático, o Capim-limão é tempero essencial das cozinhas tailandesa e vietnamita, em sopas como o tom yum. Seu óleo essencial também aromatiza sabonetes e repelentes. Nas farmácias brasileiras, extratos padronizados de Melissa são vendidos como fitoterápicos: a mesma planta que era cultivada nos mosteiros agora passa por controle de qualidade em laboratórios.
Três Plantas, Um Perfume
A Erva-cidreira é, na verdade, um nome para 3 plantas: a Melissa europeia, a Lippia alba das Américas e o Capim-limão asiático. As 3 dividem o citral e o cheiro de limão, mas têm famílias, origens e histórias próprias.
A Melissa atravessou colmeias gregas, mosteiros medievais e a água dos carmelitas até chegar à xícara de chá brasileira. Saber qual cidreira está no quintal é o primeiro passo para usá-la bem, porque cada uma tem sua química e seu jeito de crescer. E, seja qual for, o chá continua sendo um convite à pausa.
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Fontes
- EMA, Agência Europeia de Medicamentos. Melissa leaf: summary for the public. Link
- EMA. Community herbal monograph on Melissa officinalis L., folium. Link
- UFSC, Horto Didático de Plantas Medicinais. Erva-cidreira. Link
- Sabor de Fazenda. Erva-cidreira: o mesmo nome para diferentes plantas. Link
- ResearchGate. Análise da qualidade de drogas vegetais comercializadas como erva-cidreira. Link

