Espinhos — Uma Fruta Grande de Casca Verde
A Graviola chama atenção. É uma fruta grande, verde-escura, coberta de espinhos moles que se soltam quando ela amadurece. Por dentro, guarda uma polpa branca, suculenta e fibrosa, cheia de sementes pretas, com um aroma que lembra o abacaxi. Um único fruto costuma pesar cerca de 4 quilos.
No Brasil, ela virou suco, sorvete e creme, e seus pomares se concentram sobretudo no Nordeste, embora também apareçam no Pará e no Cerrado. Mas sua história começa nas terras baixas da América tropical e segue por vários continentes, onde ganhou nomes como guanábana, corossol e durian belanda.
Esta é a história da Annona muricata, uma fruta da família da fruta-do-conde, descrita por um cronista espanhol em 1526, levada cedo para os trópicos da Ásia e da África, cercada de promessas sobre o câncer que a ciência não confirmou e cultivada no Brasil em pomares que vão do Ceará ao Cerrado.
Anonácea — Uma Árvore das Terras Baixas Tropicais
A Graviola pertence à família das Anonáceas, a mesma da fruta-do-conde, da atemoia e da cherimoia. Segundo a Wikipedia, ela é nativa da América tropical, mas sua origem exata é desconhecida. Fontes diferentes apontam o Caribe, a América Central e o norte da América do Sul.
É uma árvore pequena e sempre verde, que costuma chegar a cerca de 10 metros. As folhas são verde-escuras e brilhantes, com 8 a 16 centímetros de comprimento. Segundo a Wikipedia, ela prefere áreas quentes e úmidas, do nível do mar até cerca de 1.200 metros de altitude, e tolera solos pobres.
As flores também são curiosas. Segundo a horticultora Julia Morton, elas nascem isoladas e podem aparecer no tronco, nos galhos ou nos ramos mais finos. As pétalas de fora são verde-amareladas, e as de dentro, amarelo-claras. Por isso, o fruto pesado pode crescer preso a um galho grosso ou ao próprio tronco da árvore.
Oviedo — Das Ilhas do Caribe aos Trópicos do Mundo
Os europeus registraram a Graviola cedo. Segundo Julia Morton, em seu livro Fruits of Warm Climates, o cronista espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo a descreveu em 1526 como abundante nas Índias Ocidentais e no norte da América do Sul. Na América de língua espanhola, ela ficou conhecida como guanábana.
A Graviola também viajou longe. Segundo Morton, ela está entre as primeiras árvores frutíferas americanas a chegar aos trópicos do Velho Mundo. Espalhou-se do sudeste da China até a Austrália e pelas terras baixas quentes do leste e do oeste da África. Hoje, também é cultivada na Índia, onde em algumas áreas se tornou invasora.
Cada lugar deu a ela um nome. Nas Antilhas de língua francesa, no oeste da África e em partes do Sudeste Asiático, é corossol. Na Malásia, durian belanda, ou durian holandês. No Brasil, além de Graviola, recebeu nomes como araticum-do-grande e jaca-do-pará, e o último deles compara a fruta à jaca.
Flor — Uma Polinização Difícil
A flor da Graviola tem um desafio. Segundo a Embrapa, ela é hermafrodita, mas em grande parte não consegue se fecundar sozinha. Isso acontece por causa da protoginia, quando a parte feminina da flor fica pronta para receber pólen antes que a parte masculina da mesma flor libere o seu.
Além disso, o pistilo fica acima dos estames, o que dificulta a polinização natural e pode explicar o formato irregular de muitos frutos. Segundo a Embrapa, a espécie é polinizada por insetos, e um besouro, Colatus truncatus, aparece entre os polinizadores. Por isso, alguns produtores recorrem à polinização manual.
Na técnica descrita pela Embrapa, o pólen é colhido à tarde de flores de cor creme, guardado em sacos de papel e aplicado na manhã seguinte com um pincel. A paciência também vale para o plantio. As plantas nascidas de semente costumam florescer no 3º ano, e as enxertadas, muitas vezes, antes do fim do 2º ano.
Polpa — Suco, Sorvete e Fruta Cozida
A Graviola é grande. Segundo a Wikipedia, o fruto tem de 10 a 35 centímetros de comprimento e costuma pesar cerca de 4 quilos, podendo chegar a cerca de 10. É o maior fruto do gênero Annona, embora seja menor que o de uma parente africana, a Anonidium mannii. Um fruto maduro pode ter até 200 sementes.
A polpa é branca, suculenta, ácida e aromática. Segundo a Wikipedia, o sabor lembra uma mistura de morango e maçã com notas cítricas, e a textura é cremosa. Os frutos menos ácidos e menos fibrosos podem ser comidos de colher, mas o uso mais comum é em sucos, néctares, sorvetes, cremes, geleias e xaropes.
Também há usos menos conhecidos. Segundo Julia Morton, frutos ainda verdes são cozidos ou assados como legume na Indonésia e no Nordeste brasileiro. Morton registra ainda a champola, uma bebida brasileira feita com a polpa. Antes de bater a polpa, as sementes devem ser retiradas, porque são um pouco tóxicas.
Mito — A Promessa Contra o Câncer
A Graviola ficou famosa como suposto remédio contra o câncer. Segundo a Wikipedia, ela é muito divulgada como tratamento alternativo, mas não há evidência médica confiável de que funcione contra o câncer ou qualquer outra doença. Em 2008, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos chamou esse uso de falso.
No mesmo ano, no Reino Unido, um homem foi condenado por oferecer tratamento contra o câncer com um produto de Graviola. O hospital Memorial Sloan-Kettering e a instituição Cancer Research UK afirmam que não há evidência clínica confiável que apoie o uso da Graviola como tratamento do câncer.
Há também um alerta. A planta contém anonacina, uma neurotoxina presente no fruto, nas sementes e nas folhas. Nas Antilhas Francesas, onde fica a ilha de Guadalupe, um tipo atípico de parkinsonismo foi associado ao consumo de frutas e chás de Anonáceas, e um estudo de 2002 mostrou que alcaloides da casca da raiz de Graviola afetavam neurônios em laboratório. Em 2010, a agência francesa de segurança alimentar concluiu que não podia confirmar essa ligação.
Morada — Pomares do Ceará ao Cerrado
No Brasil, a Graviola é cultivada sobretudo no Nordeste semiárido. Segundo a Embrapa, uma fazenda em Trairi, no Ceará, chegou a ter 120 hectares da fruta, com produção de cerca de 10 toneladas por hectare em plantas irrigadas de 8 anos. Também há cultivos no Cerrado, no Distrito Federal, e em Abaetetuba, no Pará.
Segundo a Embrapa, não há variedades com características botânicas e genéticas bem definidas. Os tipos são separados pelo formato do fruto, pelo sabor e pela textura da polpa. No Nordeste, a mais comum é a graviola crioula, de frutos em forma de coração, com polpa macia, de doce a levemente ácida, e de 1,5 a 3 quilos.
Em 1981, a Embrapa introduziu tipos colombianos chamados Morada, Lisa e Blanca. A Morada foi avaliada como a melhor entre eles, com frutos de 3 a 10 quilos, polpa firme e menos ataques de brocas. No mundo, segundo a Wikipedia, os principais fornecedores são o México, seguido do Peru, do Brasil, do Equador, da Guatemala e do Haiti.
Guanábana — Uma Fruta de Muitos Nomes
A Graviola é uma fruta grande e espinhosa da América tropical, de origem exata ainda desconhecida. Descrita por Oviedo em 1526, ela viajou cedo para a Ásia, a África e a Oceania e ganhou um nome em cada lugar, de guanábana a corossol.
Ao longo do caminho, virou suco, sorvete e creme, ganhou fama de cura que a ciência não confirmou e ainda desperta alertas sobre substâncias da própria planta. No Brasil, encontrou nos pomares do Nordeste, do Pará e do Cerrado um lugar para crescer. Em cada polpa branca e perfumada, há uma história que liga as ilhas do Caribe às mesas brasileiras.
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Fontes
- Soursop (Wikipedia)
- Soursop, de Fruits of Warm Climates, Julia Morton (Growables)
- A cultura da graviola (Embrapa)
- Toxicity of Annonaceae for dopaminergic neurons: potential role in atypical parkinsonism in Guadeloupe (PubMed)
- Toxicology expert raises alarm over potential neurotoxins in graviola/soursop (NutraIngredients)
- Guanabana (Foods Indigenous to the Western Hemisphere, Universidade do Kansas)

