Damasco: A Fruta Precoce da Ásia Central que Virou Floresta de Médicos na China

Domesticado duas vezes a partir de damasqueiros selvagens da Ásia Central, o Damasco leva no nome a Armênia e uma cidade síria, virou lenda da medicina chinesa e guarda no caroço uma substância que vira cianeto

 

Precoce — A Fruta que Amadurece Cedo

O Damasco é uma fruta pequena, de casca aveludada e polpa alaranjada, que amadurece no começo do verão, antes de muitas parentes. Essa pressa ficou gravada no próprio nome. Em várias línguas europeias, a palavra vem de um termo latino que significa fruta que amadurece cedo.

No Brasil, porém, o nome é outro e lembra uma cidade. Aqui, quase sempre conhecemos o Damasco seco, enrugado e doce, vendido em casas de produtos árabes e usado em pratos de festa.

Esta é a história do Prunus armeniaca, a fruta que leva no nome a Armênia sem ter nascido lá, que foi domesticada duas vezes a partir de populações selvagens da Ásia Central, que deu nome a um bosque de médicos na China e cujo caroço esconde uma substância perigosa.

 

Ásia — Duas Domesticações a Partir de Uma Fruta Selvagem

O Damasco pertence à família das Rosáceas e ao gênero Prunus, o mesmo do Pêssego, da Ameixa, da Cereja e da Amêndoa. As populações selvagens da espécie existem naturalmente só na Ásia Central, em montanhas onde as árvores crescem sem ajuda humana.

Em 2021, um estudo publicado na revista Nature Communications esclareceu parte dessa história. Os pesquisadores montaram 4 genomas de alta qualidade do Damasco e de parentes próximos e analisaram sequências de mais de 900 plantas. O resultado mostrou que os damascos cultivados na Europa e na China formam 2 grupos genéticos distintos.

Cada grupo veio de uma domesticação independente. Os damascos europeus descendem de uma população selvagem do norte da Ásia Central, e os chineses, de uma população do sul da região. O estudo também encontrou troca de genes entre plantas selvagens e cultivadas, o que ajudou o Damasco domesticado a manter grande diversidade genética. Os pesquisadores ainda identificaram genes ligados a características escolhidas pelos agricultores, como a resistência a doenças.

 

O Prunus armeniaca tem nome que mente — armeniaca sugere origem armênia, mas análises genéticas confirmam que a domesticação aconteceu na China há mais de 4.000 anos, chegando à Armênia pela Rota da Seda

 

Armênia — Um Nome de Lugar e um Nome de Pressa

Os romanos chamavam a fruta de prunum Armeniacum ou malum Armeniacum, a ameixa ou maçã da Armênia. O nome indicava uma suposta origem armênia, mas a planta veio da Ásia Central. Provavelmente, a Armênia foi só uma das regiões por onde ela passou antes de chegar ao Mediterrâneo.

Outro nome latino pegou mais força. Os romanos também chamavam a fruta de praecoquum, a que amadurece cedo, porque a consideravam um tipo de pêssego precoce. A palavra passou pelo grego bizantino e pelo árabe al-birquq, e chegou à Península Ibérica como albaricoque, em espanhol, e albricoque, em português. O francês abricot e o inglês apricot vêm da mesma família.

No Brasil, o nome mais usado é Damasco, palavra que, segundo o Dicionário Infopédia, vem da cidade de Damasco, na Síria, a mesma que batizou um tecido de seda e um aço famoso. Em Portugal, a fruta também é chamada de alperce. Na Inglaterra, ela chegou por volta de 1524.]

 

Seco — O Sol que Conserva o Damasco

O Damasco fresco é delicado e estraga depressa. Por isso, secar a fruta ao sol virou um jeito antigo de guardá-la por meses. Seca, a fruta fica mais doce, mais densa e pode viajar longas distâncias sem estragar.

A região de Malatya, no leste da Turquia, é o grande exemplo dessa tradição. Em 2021, ela produziu cerca de 49% das cerca de 800 mil toneladas de damascos colhidos no país. Perto de 90% dos damascos de Malatya vão para a secagem, e não para a venda in natura. A Turquia tinha, em 2020, cerca de 132 mil hectares de damasqueiros, perto de 24% da área plantada no mundo.

O mercado de damasco seco é bem concentrado. Em 2020, o mundo exportou 154.289 toneladas da fruta seca, e a Turquia respondeu por 88.062 toneladas, mais da metade do total. Já o damasco fresco viaja pouco. Só cerca de 9,7% da produção mundial é exportada fresca, sinal de que a maior parte é consumida perto de onde é colhida.

 

O damasco seco — apricot — foi alimento estratégico das caravanas que cruzavam os desertos da Rota da Seda por séculos, sendo um dos primeiros alimentos desidratados da história humana

 

Bosque — Os Médicos da Floresta de Damascos

Na China, o Damasco ganhou uma lenda ligada à medicina. Por volta dos anos 200 a 280 da era comum, entre o fim da dinastia Han do Leste e os anos seguintes, viveu um médico chamado Dong Feng. Em vez de cobrar em dinheiro, ele pedia aos pacientes curados que plantassem damascos perto de sua casa.

Quem se curava de uma doença leve plantava 1 caroço. Quem se curava de uma doença grave plantava 3. Com o tempo, cresceu uma floresta inteira de damasqueiros em volta da casa do médico. Quando as frutas amadureciam, Dong Feng deixava as pessoas colherem damascos em troca da mesma quantidade de grãos.

A história atravessou os séculos. Na China, os médicos passaram a ser chamados de pessoas da floresta de damascos, e os hospitais, de florestas de damascos. Assim, uma árvore frutífera virou símbolo de uma profissão inteira, ligada ao cuidado com os doentes. A lenda também mostra como o Damasco já era uma árvore comum e valorizada na China antiga.

 

Amêndoa — O Perigo Dentro do Caroço

Dentro do caroço do Damasco há uma semente parecida com uma amêndoa. Ela guarda a amigdalina, uma substância natural que se transforma em cianeto depois de ingerida. O cianeto é um veneno que, em doses altas, pode matar. Estudos indicam que de 0,5 a 3,5 miligramas por quilo de peso corporal podem ser letais.

Em 2016, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos avaliou o risco. Segundo o órgão, um adulto pode comer cerca de 3 sementes pequenas cruas sem passar do limite seguro para uma única exposição. Para crianças pequenas, o limite é de cerca de metade de uma semente pequena, e uma semente inteira já pode ser demais.

A intoxicação pode causar náusea, febre, dor de cabeça, insônia, sede, cansaço, nervosismo, dores e queda da pressão. Nos casos extremos, é fatal. O mesmo órgão europeu deixou claro que o consumo normal da fruta não oferece risco. O cuidado vale apenas para as sementes cruas, vendidas às vezes como alimento natural.

 

O óleo de amêndoa de damasco — extraído do caroço — é um dos ingredientes mais valorizados da cosmética natural, com propriedades hidratantes e antioxidantes usadas desde a medicina persa medieval

 

Mercado — Da Turquia à Mesa Árabe-Brasileira

A produção mundial de damascos dobrou nas últimas décadas. Passou de 1,73 milhão de toneladas em 1980 para 3,72 milhões de toneladas em 2020, em cerca de 562 mil hectares, segundo dados da FAO. Em 1980, a área plantada era cerca de metade da atual. A Turquia lidera, com cerca de 22% da produção.

Depois vêm o Uzbequistão, com cerca de 14%, o Irã, com 9%, a Argélia, com 5%, a Itália, com 4,7%, e a Espanha, com 3,5%. No comércio de fruta fresca, quem mais exporta é a Espanha, com mais de 96 mil toneladas em 2020, à frente da Turquia e do Uzbequistão.

No Brasil, o clima não favorece o Damasco, e a fruta fresca é rara. O Damasco seco, porém, ganhou espaço na cozinha, sobretudo nas receitas de famílias de origem síria e libanesa. Ele aparece em arroz de festa, doces, recheios e tábuas de frios. Assim, uma fruta da Ásia Central chega à mesa brasileira com nome de cidade síria.

 

Caroço — Uma Fruta que Carrega Histórias

O Damasco é uma fruta pequena com uma história longa. Nasceu em populações selvagens da Ásia Central e foi domesticado duas vezes, uma para a Europa e outra para a China. Seus nomes guardam essa viagem, da Armênia dos romanos à palavra latina para precoce e à cidade de Damasco.

Na China, virou floresta de médicos. Na Turquia, virou fruta seca de exportação. No Brasil, chegou sobretudo seco, pelas mãos e receitas de imigrantes árabes. E, no caroço, guarda um aviso de que nem tudo numa fruta doce é inofensivo. Da floresta de Dong Feng aos pomares de Malatya, o Damasco segue unindo sabor, cuidado e muitas viagens.

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