Alcachofra: a Flor do Cardo que Viajou da Sicília a Piedade

De Teofrasto a Filippo Strozzi, da lenda de Cinara ao aperitivo Cynar, a Alcachofra é uma flor colhida antes de abrir que hoje tem capital nacional no interior paulista

 

Botão — Uma Flor Colhida Antes de Abrir

A Alcachofra é uma flor que vai para a panela antes de florescer. O que se come é o botão fechado, formado por escamas carnudas que protegem um coração macio. Se ninguém colher, esse botão se abre e revela um tufo de flores roxas, parecido com o de um cardo.

Essa planta espinhosa nasceu de um parente selvagem do Mediterrâneo e foi melhorada ao longo de séculos, da Sicília grega aos jardins da Espanha muçulmana e das cortes italianas. Pelo caminho, ganhou fama de comida de pobre, de iguaria de ricos e de afrodisíaca.

Esta é a história da Cynara cardunculus variedade scolymus, a Alcachofra, que Teofrasto ligou à Sicília, que chegou a Florença em 1466, que inspirou uma lenda sobre Zeus, que deu nome a um aperitivo italiano e que, no Brasil, tem em Piedade, no interior de São Paulo, sua capital nacional.

 

Cardo — A Prima Selvagem do Mediterrâneo

A Alcachofra é uma forma domesticada do cardo selvagem, Cynara cardunculus, nativo do Mediterrâneo. Homero e Hesíodo já mencionavam o cardo como planta de horta no século 8 antes da era comum. Mas é difícil saber, nos textos antigos, quando se fala do cardo e quando se fala da Alcachofra.

O primeiro registro seguro vem de Teofrasto, no século 4 antes da era comum. Ele chamou a planta de kaktos e disse que era típica da Sicília e não existia na Grécia. Seu contemporâneo Fênias confirmou essa distribuição. Por isso, a Sicília grega aparece como um dos primeiros lugares de cultivo.

Entre os romanos, a planta tinha duas imagens. Plínio, o Velho, no século 1 da era comum, chamou-a de carduus e registrou que, para Eratóstenes, era comida de gente pobre. Ao mesmo tempo, descreveu-a como uma iguaria vinda de Cartago e de Córdoba. Ainda assim, os estudiosos discutem se gregos e romanos comiam de fato a Alcachofra ou sobretudo o cardo.

 

A Cynara scolymus não é uma hortaliça — é uma flor colhida antes de abrir, com brácteas carnudas envolvendo o receptáculo central chamado coração, que é a parte mais valorizada na culinária mediterrânea

 

Strozzi — Da Espanha Muçulmana às Cortes da Europa

A melhoria da planta provavelmente continuou na Espanha muçulmana e no norte da África. Segundo a American Herbal Products Association, pode ter havido uma segunda domesticação na Andaluzia, nos séculos 10 ou 11. No século 12, o agrônomo Ibn al-Awwam descreveu a planta em Sevilha, e na Alemanha ela foi citada por Hildegarda de Bingen.

Na Itália, a Alcachofra ganhou endereço e data. Em 1466, Filippo Strozzi levou a planta de Nápoles para Florença, e por volta de 1480 ela já era registrada em Veneza. Dali, seguiu para o sul da França, com registros em Avinhão a partir de 1532.

Na Inglaterra, os holandeses introduziram a Alcachofra, que já crescia em 1530 no jardim do rei Henrique VIII, em Newhall. A partir de meados do século 17, ela se tornou popular nas cortes europeias. Antes disso, o belga Rembert Dodoens e o inglês John Gerard já a incluíam em seus herbários. No século 19, chegou à Louisiana com imigrantes franceses e à Califórnia com imigrantes espanhóis.

 

Coração — Escamas, Pelos e Flores Roxas

A Alcachofra é uma planta grande, que pode chegar a 1,4 a 2 metros de altura. Suas folhas são profundamente recortadas, de cor verde-prateada, e podem medir de 50 a 83 centímetros. Ela pertence à família das Asteráceas, a mesma do girassol, da camomila e do dente-de-leão.

O botão que vai à mesa mede cerca de 8 a 15 centímetros. Ele é, na verdade, uma inflorescência, um conjunto de muitas florzinhas protegidas por escamas chamadas brácteas. As partes comidas são a base carnuda dessas brácteas e o coração, o receptáculo onde as flores se apoiam.

No centro fica a parte peluda que não se come, formada pelas florzinhas ainda imaturas. Se o botão abrir, são elas que viram o tufo roxo. Depois de cortada, a Alcachofra escurece rápido, e por isso costuma ser colocada em água com limão ou vinagre. Cozida ou no vapor, ela é comida escama por escama, com molhos como vinagrete ou maionese de alho.

 

A cinarina presente nas folhas da alcachofra estimula a produção de bile e protege o fígado — aprovada pela Agência Europeia de Medicamentos e incluída na lista de plantas medicinais de interesse ao SUS brasileiro

 

Cinara — A Lenda da Moça Transformada em Planta

Uma lenda muito repetida explica a Alcachofra. Cinara, uma jovem da ilha de Kinaros, no mar Egeu, teria sido seduzida por Zeus e transformada em deusa. Com saudade da mãe, voltou escondida à Terra. Como castigo, foi expulsa do Olimpo e virou a planta espinhosa por fora e macia por dentro.

A história, porém, deve ser vista com cautela. Segundo a American Herbal Products Association, a lenda provavelmente é recente, pode ter sido criada para explicar o nome da ilha e segue um enredo comum entre os casos amorosos de Zeus. Muitas histórias da Alcachofra a repetem e deixam de lado fatos mais importantes.

A fama de afrodisíaca é outra tradição antiga, que a mesma associação liga aos versos de Hesíodo. Já o médico grego Dioscórides, no século 1 da era comum, chamou a planta de skolymos e descreveu as alcachofras jovens cozidas como aspargos. Esse nome antigo sobrevive hoje no próprio nome científico da planta, scolymus.

 

Escama — Um Nome Árabe e um Aperitivo Amargo

O nome da planta também conta sua viagem. Em árabe, harshafa quer dizer escama, numa referência às brácteas. Daí veio o árabe andaluz al-kharshūfa, que passou ao espanhol alcarchofa e, provavelmente, ao italiano do norte articiocco. O inglês artichoke veio desse italiano no século 16.

Em inglês, surgiram até formas populares como hartichoak, ligadas às palavras coração e engasgo, por causa da parte peluda do centro. Em português, a palavra alcachofra guarda a marca do artigo árabe al. Na Itália, a planta é o principal ingrediente botânico do Cynar, um aperitivo com 16,5% de álcool.

As folhas também têm uso. A Agência Europeia de Medicamentos reconhece o uso tradicional da folha de Alcachofra para alívio de má digestão, com sensação de estômago cheio e gases, mas ressalta que esse reconhecimento se baseia no uso tradicional, e não em provas de estudos clínicos. Ela não é indicada para pessoas com certas doenças do fígado e da vesícula, nem para quem tem alergia a plantas da família das Asteráceas.

 

Catarina de Médici era famosa por comer alcachofra com as mãos em grandes quantidades nos banquetes da corte francesa — escandalizando os puritanos da época pelos supostos efeitos afrodisíacos que a planta carregava

 

Piedade — A Capital Nacional da Alcachofra

Em 2024, o mundo produziu cerca de 1,7 milhão de toneladas de alcachofra. O Egito liderou, com cerca de 601 mil toneladas, seguido da Itália, com 374 mil. Na Itália, os corações enfeitam a pizza quatro estações, e em Roma as alcachofras fritas ao estilo judaico são tradição.

No Brasil, a produção se concentra no interior de São Paulo, em Piedade, Ibiúna e São Roque. Cerca de 50 produtores dividem perto de 200 hectares, e uma empresa familiar responde por cerca de 90% da alcachofra vendida no país. Toda a produção paulista fica no mercado interno, e o setor emprega diretamente mais de 1.000 pessoas.

O cultivo em Piedade começou há mais de 60 anos, no sítio da família Miyazaki, e imigrantes italianos e japoneses desenvolveram o conhecimento ao longo de décadas. Em 2025, Piedade recebeu oficialmente o título de capital nacional da alcachofra. A colheita começa em julho e pode ir até novembro, e a cidade tem um roteiro gastronômico da planta em setembro e outubro.

 

Brácteas — Uma Flor que Virou Iguaria

A Alcachofra é uma flor colhida antes da hora. Nasceu do cardo selvagem do Mediterrâneo, foi registrada por Teofrasto na Sicília e ganhou novo impulso na Espanha muçulmana antes de chegar às cortes da Itália, da França e da Inglaterra.

Ao longo do caminho, foi comida de pobre e iguaria de ricos, ganhou uma lenda sobre Zeus, um nome árabe ligado às escamas e um lugar no copo de aperitivo. No Brasil, encontrou no interior paulista, graças a famílias de imigrantes italianos e japoneses, uma nova casa, hoje celebrada todos os anos em Piedade. Em cada escama arrancada à mesa, há séculos de cultivo e de paciência.

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