O Grão de Metade do Mundo
Para bilhões de pessoas, comer é comer Arroz. Na China, no Japão, na Índia, na Indonésia e em boa parte da África, o Arroz está em quase todas as refeições. No Brasil, divide o prato com o Feijão numa dupla que virou sinônimo de comida de todo dia.
O que pouca gente sabe é que o Arroz foi domesticado mais de uma vez. Na China, há cerca de 9 mil anos. Na África Ocidental, há 3 mil. E na Amazônia brasileira, há 4 mil anos, uma história apagada pela colonização e redescoberta pela arqueologia em 2017.
Esta é a história de um capim de brejo que moldou paisagens, religiões e civilizações inteiras.
Oryza — Um Capim que Gosta de Água
O Arroz pertence ao gênero Oryza, da família Poaceae, a mesma do Trigo, do Milho e da Cana-de-açúcar. O Arroz asiático, Oryza sativa, descende do Arroz selvagem Oryza rufipogon, que cresce em áreas alagadas do sul e do sudeste da Ásia.
Existem 2 grandes grupos de Arroz asiático: o japônica, de grãos curtos e grudentos, e o índica, de grãos longos e soltos. Estudos genéticos indicam que o japônica foi domesticado primeiro, no sul da China, e que o índica surgiu quando ele chegou à Índia, há cerca de 4.500 anos, e se cruzou com Arrozes selvagens locais.
O Arroz é uma das poucas culturas de grão que crescem com as raízes debaixo d’água. Tecidos especiais levam oxigênio das folhas até as raízes submersas.
Yangtzé, Níger e Monte Castelo
O Arroz asiático foi domesticado na bacia do rio Yangtzé, na China, há cerca de 9 mil anos. De lá, se espalhou pelo leste e pelo sudeste da Ásia, levado inclusive pelos navegadores austronésios, e chegou à Índia, à Pérsia e ao Mediterrâneo.
Na África, outra espécie, o Oryza glaberrima, foi domesticada de forma independente no delta interior do rio Níger, no atual Mali, há cerca de 3 mil anos.
E na Amazônia houve uma terceira domesticação. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Exeter e da Universidade de São Paulo publicaram na Nature Ecology & Evolution a descoberta de restos de Arroz em Monte Castelo, em Rondônia. Há cerca de 4 mil anos, povos indígenas manejavam um Arroz selvagem sul-americano até torná-lo semidomesticado. O saber se perdeu com a morte da maior parte da população indígena depois da colonização.
Um Quinto das Calorias e um Alerta de Arsênio
O Arroz fornece cerca de um quinto das calorias consumidas pela humanidade. Na Indonésia e em outros países asiáticos, responde por mais da metade das calorias da dieta média.
O Arroz integral conserva a casca interna, rica em fibras, vitaminas do complexo B e minerais. O polimento que produz o Arroz branco remove boa parte desses nutrientes. Por isso, em populações que dependiam só do Arroz branco, surgiu o beribéri, uma doença causada pela falta de vitamina B1.
O Arroz cultivado em áreas alagadas também absorve mais arsênio do solo do que outros cereais. Lavar bem e cozinhar em bastante água reduz esse teor.
Dewi Sri, Inari e os Terraços Sagrados
Em Bali, na Indonésia, o Arroz é protegido pela deusa Dewi Sri. As plantações são irrigadas pelo subak, um sistema de canais administrado coletivamente por templos de água há cerca de mil anos, reconhecido como patrimônio mundial pela UNESCO em 2012.
No Japão, o Arroz é ligado a Inari, uma das divindades mais cultuadas do xintoísmo, protetora das colheitas. Os santuários de Inari, guardados por raposas, estão por todo o país, e bolinhos de Arroz, o mochi, são oferecidos no Ano-Novo.
Em muitas culturas, jogar Arroz nos noivos virou desejo de fartura e fertilidade.
A Escada que Daria Meia Volta ao Mundo
Nas montanhas de Banaue, nas Filipinas, os Ifugao esculpiram há séculos terraços de Arroz nas encostas. Dizem que, se os degraus fossem enfileirados, dariam meia volta ao mundo. Os terraços da cordilheira filipina são patrimônio mundial da UNESCO.
Os arrozais alagados escondem outro segredo. Sem oxigênio, bactérias do solo produzem metano, um gás de efeito estufa. O cultivo de Arroz é uma das fontes agrícolas relevantes desse gás, e técnicas de alagamento intermitente reduzem as emissões.
O Arroz dourado, geneticamente modificado para produzir betacaroteno, foi criado para combater a falta de vitamina A em países pobres. É um dos casos mais debatidos da biotecnologia agrícola.
Arroz com Feijão e o Rio Grande do Sul
No Brasil, o Arroz foi introduzido pelos portugueses a partir do século 16, e se tornou alimento diário. O prato de Arroz com Feijão é uma combinação completa: os aminoácidos que faltam em um estão presentes no outro.
O Rio Grande do Sul produz cerca de 70% do Arroz brasileiro, em lavouras irrigadas nas várzeas do estado. O Brasil ocupa a 11ª posição mundial em produção e exporta pouco, quase tudo é consumido internamente.
No mundo, a Ásia concentra a maior parte da produção, e a Índia e a Tailândia respondem por cerca de metade das exportações globais.
Um Grão de Muitos Berços
O Arroz nasceu mais de uma vez: na China, na África e na Amazônia. Moldou montanhas em escadas, criou sistemas de irrigação sagrados e alimenta mais pessoas que quase qualquer outro alimento.
No Brasil, o Arroz de todo dia esconde uma história que só recentemente veio à tona: há 4 mil anos, povos indígenas de Rondônia já cultivavam o seu próprio Arroz, muito antes de qualquer caravela.
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Fontes
- Hilbert, L. et al. Evidence for mid-Holocene rice domestication in the Americas. Nature Ecology & Evolution, 2017. Link
- Revista Pesquisa FAPESP. Rice domesticated in the Amazon 4000 years ago. Link
- Wikipedia. History of rice cultivation. Link
- Embrapa. Agro em Dados: Arroz. Link
- NOW! Bali. Explaining Bali’s Subak System. Link

